Leitura em queda: redes sociais mudam hábitos dos jovens
Excesso de estímulos digitais tem afastado jovens dos livros e acende alerta entre educadores sobre prejuízos cognitivos e emocionais
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 20/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
A popularização das redes sociais e o uso contínuo de dispositivos digitais transformou profundamente a forma como crianças e adolescentes consomem informação. Em um ambiente dominado por vídeos curtos, notificações constantes e conteúdos fragmentados, manter a atenção tornou-se um desafio cotidiano. Nesse cenário acelerado, a leitura perde espaço — justamente quando se mostra mais necessária.
O fenômeno conhecido como brain rot, termo que ganhou força nas redes sociais e foi recentemente incorporado ao Dicionário Oxford, descreve a fadiga cognitiva provocada pelo excesso de estímulos digitais. O conceito já preocupa educadores, especialmente no ambiente escolar, onde a dificuldade de concentração impacta diretamente a aprendizagem e o desenvolvimento do pensamento crítico.

Dados da edição 2024 da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil reforçam esse alerta. Segundo o levantamento, 53% dos brasileiros não leram nenhum livro, impresso ou digital, nos três meses anteriores à pesquisa. Entre crianças e adolescentes, a justificativa mais comum é a falta de tempo — reflexo de uma rotina marcada pela velocidade e pelo consumo constante de informações instantâneas.
Para especialistas, a queda nos índices de leitura não se resume a uma mudança de hábito, mas sinaliza perdas importantes no desenvolvimento cognitivo. A coordenadora pedagógica do Colégio Arbos, Rosana Ferreira, explica que o afastamento dos livros compromete habilidades essenciais. “Quando a leitura deixa de fazer parte do cotidiano, perde-se a chance de ampliar o vocabulário, estimular a imaginação, compreender o outro e fortalecer a memória e a atenção. Ler é um exercício diário do cérebro”, afirma.
Segundo ela, cada página lida exige concentração, interpretação e construção de sentido — competências que se refletem diretamente na forma como crianças e adolescentes se expressam, organizam ideias e compreendem o mundo ao redor.
Como incentivar a leitura em um cenário de dispersão

Rosana ressalta que estimular a leitura exige sensibilidade. Um dos erros mais comuns, segundo a educadora, é transformar o livro em castigo. “Quando a leitura vira punição, o interesse desaparece”, observa. Outro equívoco frequente é limitar as escolhas apenas aos clássicos da literatura.
“Gibis, mangás e até textos digitais também podem ser portas de entrada. O mais importante é que o aluno encontre prazer na leitura e crie vínculo com o texto, independentemente do formato”, explica.
Leitura como ferramenta de desenvolvimento e protagonismo juvenil

Entre os jovens que transformaram esse hábito em propósito está Malu Lira, conhecida como Malu Finanças. Aos 15 anos, a escritora amazonense já é autora de mais de 20 livros voltados à educação financeira infantojuvenil e coordena o projeto “Malu Finanças na Escola”, desenvolvido em instituições públicas e privadas de todo o país.
Para Malu, o livro vai além da transmissão de conhecimento. “Cada leitura me ensinou algo sobre mim mesma e me ajudou a entender o valor das escolhas e da disciplina. Ler é o que me mantém curiosa e conectada ao mundo real”, afirma. Ela destaca que, ao contrário do ambiente digital, a leitura convida à reflexão. “Enquanto as redes oferecem respostas prontas, o livro ensina a lidar com dúvidas e a pensar com calma.”
Rosana Ferreira reforça que, em tempos de dispersão e excesso de estímulos, a leitura também funciona como um exercício de atenção e empatia. “Ler fortalece a capacidade de análise, de inferência e de interpretação. Sem esse treino, comprometemos a formação de opiniões bem fundamentadas”, conclui.
Diante desse cenário, educadores são unânimes ao defender que preservar e incentivar a leitura desde cedo é essencial para formar jovens mais críticos, atentos e preparados para lidar com um mundo cada vez mais acelerado.