72% dos brasileiros querem leis de trânsito rígidas mas rejeitam limite
Estudo aponta que a maioria dos brasileiros exige regras severas nas ruas, mesmo com a alta dependência diária do carro particular.
- Publicado: 17/04/2026 16:32
- Alterado: 17/04/2026 16:32
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
Setenta e dois por cento dos brasileiros defendem leis de trânsito mais rigorosas para melhorar a segurança viária no país. O levantamento inédito faz parte do Relatório de Mobilidade 2026, organizado pela instituição de pesquisa Ipsos. A exigência nacional supera a média global de 66% registrada pelo mesmo estudo, que entrevistou pessoas em 31 países.
A preocupação com a proteção diária nas ruas afeta 55% da população mundial. O receio cresce significativamente entre os moradores de áreas urbanas, atingindo 57% de pessoas apreensivas. Regiões rurais e subúrbios apresentam índices menores, com 51% e 52%, respectivamente.
Divisão sobre limites de velocidade nas leis de trânsito

Impor limites de velocidade mais baixos gera divisões claras de opinião entre os motoristas. Cerca de 70% das pessoas aprovam a redução em áreas residenciais como estratégia para proteger pedestres e evitar acidentes graves. O cenário muda radicalmente nas vias expressas e rodovias, onde a aprovação mundial cai para 56%.
Entre as diferentes faixas etárias, as mulheres lideram o apoio à diminuição de velocidade nas autoestradas. O distanciamento de opiniões entre os gêneros atinge o pico na geração de Baby Boomers, com 61% das mulheres a favor da medida preventiva contra apenas 47% dos homens.
Dependência estrutural do automóvel particular

Possuir um veículo próprio ainda dita a rotina de locomoção em grande parte do planeta. O Brasil registra que 33% dos cidadãos consideram impossível viver sem um carro na garagem. O índice sobe para 43% na média mundial e alcança expressivos 65% nos Estados Unidos.
O aspecto emocional e o conforto frequentemente superam a necessidade prática na hora de assumir o volante. Quase metade da população nacional, representando 49% dos pesquisados, afirma que conseguiria viver sem o veículo próprio, mas prefere mantê-lo.
“Isso vai além da utilidade, as pessoas genuinamente gostam de conduzir”, avaliou a diretora de Opinião Pública da Ipsos-Ipec, Patrícia Pavanelli. “Existe um profundo apego emocional e lealdade à posse de um veículo pessoal”, completou a executiva.
Comportamento e o futuro das leis de trânsito

Para o especialista em mobilidade Luiz Vicente Mello, os dados expõem tensões estruturais relevantes entre a percepção da sociedade e a organização dos transportes. O alto percentual de aprovação a regras mais duras revela um paradoxo diário nas vias públicas.
“Há forte apoio normativo, porém isso não se traduz necessariamente em mudança de comportamento individual”, analisou Mello. O especialista observa que a população aceita as limitações apenas quando a ameaça parece distante da própria rotina de deslocamento.
“Há maior aceitação de restrições quando o risco é percebido como externo, mas essa aceitação diminui quando há impacto direto no tempo de viagem e na conveniência individual”, detalhou o especialista, referindo-se à queda de apoio aos limites de velocidade nas autoestradas.
A resistência às leis de trânsito mais duras reflete um sistema marcado pela consciência dos riscos misturada à dependência do carro. O cenário expõe a ineficiência do modelo atual de transporte, que avança de forma lenta rumo a formatos sustentáveis e eficientes.
“Sem uma abordagem integrada que combine melhoria real do transporte público, requalificação urbana e estratégias voltadas ao comportamento das pessoas, a tendência é de agravamento dos problemas já conhecidos”, alertou Mello. Ele cita o aumento do uso de motocicletas e os congestionamentos como consequências diretas dessa falha estrutural.
Escolhas de transporte diário sofrem fortes variações conforme a faixa de renda, com indivíduos de ganhos menores dividindo a preferência entre carro (24%), ônibus (24%) e caminhada (23%). A transição urbana exige políticas públicas que vão muito além da simples aplicação de novas leis de trânsito.