Juliette Binoche brilha em Berlim com drama sobre autonomia

Estrela francesa Juliette Binoche protagoniza "Queen at Sea", filme de Lance Hammer que divide opiniões na Berlinale ao discutir velhice e intimidade.

Crédito: Marc Piasecki/WireImage

O Festival de Berlim foi palco, nesta terça-feira, de uma das exibições mais sensíveis e controversas desta edição com a chegada de Juliette Binoche ao tapete vermelho. Em “Queen at Sea”, dirigido pelo independente americano Lance Hammer, a atriz interpreta Amanda, uma mulher que se vê no epicentro de um dilema ético e familiar ao confrontar a decadência física e mental de sua mãe. O longa utiliza a presença magnética de Juliette Binoche para guiar o espectador por uma narrativa que questiona onde termina o cuidado e onde começa a violação da autonomia na terceira idade.

O conflito geracional de Juliette Binoche na tela

A trama ganha contornos complexos quando Amanda, a personagem de Juliette Binoche, encontra sua mãe, Leslie (vivida por Anna Calder-Marshall), em uma situação de intimidade sexual com o companheiro de longa data, Martin (Tom Courtenay). Para a filha, o ato é visto como um abuso, dada a demência da mãe; para o companheiro, é a continuidade de uma afeição construída ao longo de 15 anos.

Essa colisão de perspectivas é o coração do roteiro de Hammer. A atuação de Juliette Binoche traduz o desconforto de uma geração que, ao tentar proteger seus idosos, muitas vezes acaba por infantilizá-los ou cercear seus desejos remanescentes. Quando a polícia é acionada e Martin é afastado, Amanda assume o papel de cuidadora solitária, enfrentando a crueza de banhos e fraldas, o que a leva a questionar suas próprias motivações.

Berlinale: Entre a arte de Juliette Binoche e o peso da política

Enquanto o drama familiar de Juliette Binoche emocionava as salas de cinema, os bastidores do festival ferviam com manifestações políticas. Uma carta aberta assinada por cerca de 80 profissionais do cinema, incluindo nomes como Javier Bardem, Tilda Swinton e o brasileiro Fernando Meirelles, criticou o “silêncio” da Berlinale sobre os conflitos na Faixa de Gaza.

O documento rebateu diretamente o presidente do júri, Wim Wenders, que afirmou anteriormente que artistas seriam o “oposto da política”. O diretor brasileiro Karim Aïnouz, que também concorre ao Urso de Ouro, classificou a fala de Wenders como “infeliz”, pontuando que o cinema é intrinsecamente político. Essa tensão externa contrasta com a delicadeza intimista do filme estrelado por Juliette Binoche, provando que o festival continua sendo um território de intensos debates sociais.

O dilema da neutralidade no tapete vermelho

A polêmica sobre o posicionamento de artistas não poupou outros grandes nomes. Recentemente, Michelle Yeoh e Rupert Grint foram criticados por evitarem comentários sobre crises imigratórias e o avanço do fascismo. Em Berlim, a expectativa é que cada exibição oficial, como a de Juliette Binoche, seja também uma plataforma para vozes que se recusam a aceitar a neutralidade proposta pela organização do evento, especialmente em um festival historicamente conhecido por seu viés engajado.

Brasil celebra vitória inédita com “Emergência 53”

Apesar do clima de tensão política, o Brasil teve motivos para comemorar nesta terça-feira. A série “Emergência 53”, produzida pela Conspiração para o Globoplay, conquistou o Studio Babelsberg Production Excellence Award. O prêmio, que estreou este ano no Berlinale Series Market, reconhece a excelência técnica e de produção da obra criada por Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington.

A produção, que acompanha o cotidiano de médicos e enfermeiros em unidades móveis de urgência, reforça a força do audiovisual brasileiro no mercado internacional. Enquanto o longa de Juliette Binoche foca no drama psicológico da finitude, a série brasileira traz a urgência da vida real para o centro do debate cinematográfico em Berlim.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 17/02/2026
  • Fonte: Fever