José Balcázar é eleito novo presidente interino do Peru
Após a destituição de José Jerí por má conduta, o congressista José Balcázar assume a presidência interina com o desafio de pacificar o país.
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 19/02/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Multiplan MorumbiShopping
O cenário político em Lima reafirmou sua face mais instável nesta quarta-feira (18). Em uma sessão marcada por tensões e acusações de favorecimento, o Congresso do Peru elegeu o advogado e magistrado José Balcázar (Peru Libre) como o novo presidente interino da República. Balcázar chega ao poder após um vácuo de 24 horas deixado pela deposição de seu antecessor, José Jerí, consolidando uma marca histórica negativa: o país agora soma nove nomes na Casa de Pizarro em apenas uma década.
A ascensão de José Balcázar ocorre em um momento de extrema fragilidade institucional. Com 60 votos favoráveis, ele superou a candidata de centro-direita María del Carmen Avila no segundo turno. A missão do novo mandatário é curta, mas hercúlea: conduzir a nação até a posse do novo governo eleito, prevista para 28 de julho, enquanto o país se prepara para as urnas em 12 de abril.
A trajetória jurídica e política de José Balcázar
Natural da região de Cajamarca, o novo líder interino possui um currículo extenso no Poder Judiciário. Antes de ingressar na política partidária, José Balcázar atuou como membro do Tribunal Superior de Lambayeque e ocupou uma cadeira como juiz do Supremo Tribunal. Sua experiência jurídica, no entanto, contrasta com o barulho político que sua figura gera no Parlamento.
Eleito em 2021 pelo Peru Libre — o mesmo partido do ex-presidente Pedro Castillo, que atualmente cumpre pena após uma tentativa fracassada de autogolpe —, Balcázar carrega consigo a expectativa de setores da esquerda. Nos bastidores de Lima, crescem os rumores e a pressão de sua base aliada para que o novo governo discuta um possível indulto a Castillo. Além disso, o presidente interino já enfrentou desgastes por declarações polêmicas sobre o casamento infantil, embora defenda que suas falas foram tiradas de contexto por adversários.
O colapso relâmpago de José Jerí
Para entender a chegada de José Balcázar ao topo do Executivo, é preciso olhar para a queda vertiginosa de José Jerí. Ocupando o cargo desde outubro, após a destituição de Dina Boluarte por “incapacidade moral”, Jerí viu seu apoio parlamentar derreter em tempo recorde.
O ex-presidente foi alvo de investigações graves que envolveram tráfico de influência e irregularidades em contratações públicas. O estopim para sua saída foi a revelação de reuniões não republicanas com empresários estrangeiros. Em uma despedida atípica para os padrões diplomáticos, Jerí utilizou o TikTok para publicar um vídeo de agradecimento, que viralizou rapidamente enquanto os congressistas já articulavam a votação para escolher José Balcázar como seu sucessor imediato.
Um sistema de “incapacidade moral” e instabilidade
A troca constante de presidentes no Peru não é um acidente, mas o resultado de um dispositivo constitucional interpretado de forma elástica pelo Legislativo: a “incapacidade moral permanente”. Este mecanismo permite que um Congresso majoritariamente opositor remova chefes de Estado com facilidade. Desde 2016, nomes como Pedro Pablo Kuczynski, Martín Vizcarra e Dina Boluarte sucumbiram a esse sistema.
O jornalista Sebastián Ortíz, do jornal El Comercio, resumiu o sentimento da população ao afirmar que o país se tornou um “meme internacional” devido à rotatividade presidencial. Mesmo assim, curiosamente, a economia social de mercado do país demonstra uma resiliência atípica. Enquanto José Balcázar assume o comando político, a moeda peruana (o Sol) permanece como uma das mais estáveis da região, mantendo a inflação sob relativo controle.
Os desafios até julho e o cenário eleitoral
O governo de transição liderado por José Balcázar terá pouco espaço para manobras legislativas. O foco total está na organização do pleito de abril, que conta com mais de 30 candidatos. Pelas regras vigentes, nem Balcázar nem Jerí podem concorrer ao cargo nas próximas eleições, o que, teoricamente, deveria conferir ao atual presidente um papel de árbitro neutro.
Entretanto, o desafio social é imenso. Cerca de 70% dos trabalhadores peruanos atuam na informalidade, sem qualquer proteção legal ou previdenciária. Para o cidadão comum, a troca de nomes no palácio parece distante da realidade das ruas. Resta saber se José Balcázar conseguirá encerrar este ciclo de interinidade sem se tornar mais uma estatística de deposição antes do prazo final de julho.