Instituto Baccarelli no ABC Cast Conexões: a sinfonia de Heliópolis

Edilson Ventureli, celebra os 29 anos do projeto, anuncia o Teatro Baccarelli e reafirma o poder da arte como ferramenta de transformação social

Crédito: (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O som que ecoa de Heliópolis há quase três décadas vai muito além da partitura. O Instituto Baccarelli, que nasceu de uma ação de um homem diante de um incêndio em 1996, hoje é uma referência nacional em formação musical e inclusão social. São cerca de 1.650 crianças e jovens atendidos diariamente, aulas gratuitas, orquestras, coros, formações profissionais e um nome que se tornou sinônimo de excelência artística dentro e fora do país.

Sob a liderança de Edilson Ventureli, CEO do Instituto Baccarelli e regente da Orquestra Sinfônica Heliópolis, a instituição deixou de ser apenas um projeto bem-sucedido em uma escola pública e se consolidou como um ecossistema de cultura, educação e cidadania. Em 29 anos, a iniciativa se expandiu para a gestão de 12 CEUs da cidade de São Paulo, passou a estar presente em 13 territórios e se prepara agora para inaugurar um dos projetos mais simbólicos de sua história, o Teatro Baccarelli, a primeira sala de concertos construída em uma favela no Brasil.

Edilson Ventureli - Instituto Baccarelli - ABC Cast Conexões
Edilson Ventureli, CEO e Maestro do Instituto Baccarelli, durante entrevista ao ABC Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Esse alcance não apagou a origem. Pelo contrário. Toda a trajetória é contada a partir do território que a sustenta, a favela de Heliópolis, com seus 220 mil moradores, suas contradições e sua potência. É dessa combinação entre excelência artística e compromisso social que nasce a força do Instituto Baccarelli, que já projetou ex-alunos para orquestras na América Latina, Europa e Estados Unidos, ao mesmo tempo em que forma bibliotecárias, produtoras, executivos e técnicos que seguem conectados ao bairro.

A história de Edilson se confunde com a do próprio Instituto Baccarelli. “Eu venho de uma família bem humilde. Aos cinco anos eu comecei a estudar música. Aos 13 anos, comecei a trabalhar no coral Baccarelli, cantar casamentos para gerar receita para minha casa, e daí a vida foi conduzindo”, relembrou o maestro em entrevista ao ABC Cast Conexões. Da escolha “forçada” pelo piano, por insistência dos pais, ao comando de uma das experiências mais bem-sucedidas de música e transformação social do país, a trajetória dele ajuda a explicar por que o Instituto Baccarelli é, hoje, muito mais do que uma escola de música.

Silvio Baccarelli: da indignação à ação

O ponto de partida dessa história é um gesto simples e radical. Em 1996, um grande incêndio atingiu Heliópolis. Do outro lado da TV, o maestro Silvio Baccarelli, que havia sido padre na Igreja São José do Ipiranga, vizinha da favela, se recusou a ficar apenas sensibilizado com as imagens. “Ali eu digo que ele deixou o grande exemplo que ele tinha para nós todos, que foi a sua capacidade de passar da indignação para a ação”, resume Edilson.

A resposta veio na forma que ele dominava: a música. O maestro subiu a Estrada das Lágrimas em busca da primeira escola pública que encontrasse. Encontrou uma escola que tinha como patrono Gonzaguinha e, depois de meses insistindo para convencer a direção de que sua proposta era séria, começou a ensinar música para 30 crianças da favela. A ação ainda não tinha CNPJ, nome formal ou status de projeto transformador. Era apenas um maestro inconformado oferecendo o que sabia fazer de melhor.

Anos depois, com o crescimento das atividades, Edilson, então estudante de Direito, percebeu que era preciso dar sustentação institucional ao trabalho com o Instituto Baccarelli. Em 2000, ele liderou a regularização jurídica e fiscal de uma entidade sem fins lucrativos que o maestro já tinha, adaptando o estatuto para torná-la apta a captar recursos pela Lei Rouanet. “Se a gente propusesse o projeto em nome da pessoa física do maestro, todo ano ia ter que buscar dinheiro para comprar o mesmo violino. A gente precisava de uma instituição para que os bens e a continuidade ficassem a serviço da comunidade”, explicou.

Mais do que uma formalidade, esse passo consolidou a filosofia que acompanha o Instituto Baccarelli até hoje, a música como ferramenta de formação integral. “Nós não somos uma escola de música. A música é a ferramenta que a gente utiliza para promover o crescimento e a transformação social dessa garotada”, resume o maestro.

Heliópolis: favela, território e potência cultural

Edilson Ventureli - Instituto Baccarelli - ABC Cast Conexões
Edilson Ventureli, CEO e Maestro do Instituto Baccarelli, durante entrevista ao ABC Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Falar do Instituto Baccarelli é, antes de tudo, falar de Heliópolis. E Edilson faz questão de usar a palavra favela, assim, direto e sem eufemismos. “É uma favela extremamente segura, extremamente organizada. A gente não fala comunidade, a gente fala favela mesmo, mas não favela no sentido pejorativo, favela com muito orgulho”, afirmou. Em vez de esconder o território por trás de termos amenos, o maestro reivindica o lugar como identidade e como cenário de um projeto que mudou a forma como o Brasil olha para esses espaços.

Heliópolis não aparece mais apenas nas páginas policiais. Há quase 30 anos, o Instituto Bacarelli insiste em escrever outra narrativa, a da favela que produz músicos de alto nível, profissionais de bastidores, gestores, comunicadores, professores e líderes comunitários.

Essa mudança de olhar não apaga os problemas, mas reposiciona quem mora ali. Para o maestro, a favela é menos um “lugar de risco” e mais um mapa de solidariedade e reinvenção diária da vida. “Favela é lugar de gente potente, é lugar de gente solidária, é lugar de gente trabalhadora. Quando a gente vê tragédias sendo transmitidas pela TV, parece que só tem bandido na favela. Mas, se você olhar o número de moradores, vai ver que a imensa maioria é de gente do bem”, destacou.

Ao criar um centro de excelência em música clássica dentro de Heliópolis, o Instituto Bacarelli também desafia uma hierarquia histórica de acesso à cultura. Crianças que cresceram ouvindo que “aquele lugar não era para elas” passam a frequentar, tocar e protagonizar palcos que antes pareciam distantes. E, agora, Heliópolis se prepara para inverter essa lógica de vez. Ao invés de de apenas enviar talentos para os grandes teatros, passará a receber temporadas de orquestras oficiais e grandes artistas em um equipamento construído ali, para e com a favela, o Teatro Bacarelli.

Teatro Bacarelli: padrão internacional no coração da favela

Se o incêndio de 1996 marcou o início, 25 de novembro marca o começo de um novo capítulo e da criação do Instituto Baccarelli, a inauguração do Teatro Baccarelli, uma sala de concertos de padrão internacional construída dentro de Heliópolis. Não se trata apenas de um palco maior, mas de um equipamento pensado para colocar a favela, definitivamente, no mapa cultural e turístico de São Paulo.

Edilson faz questão de explicar a diferença: “Em um teatro normal, se você coloca um violão no palco, precisa amplificar, senão as pessoas não vão ouvir. Em uma sala de concertos como a nossa, você põe um violão sozinho, sem nenhum microfone, e pela sala inteira vai se ouvir esse som com perfeição. O tratamento do som é o que diferencia”, explica. E é esse tipo de exigência acústica que faz da nova casa algo comparável aos grandes espaços de música de concerto do país.

A sofisticação não se traduz em distanciamento. Pelo contrário. “A gente poderia estar fazendo um teatro muito mais simples, mas a gente está fazendo uma sala de concertos que poderia estar em qualquer bairro da cidade de São Paulo. Ele poderia estar lá no Jardim América que ia cair bem naquele bairro, mas ele está numa favela. Novamente, a gente vai na contramão”, enfatiza o maestro.

O impacto simbólico já começou antes mesmo da inauguração oficial. Em um sábado de manhã, durante um sarau literário no Instituto Baccarelli, Edilson decidiu levar um grupo da comunidade para conhecer a obra ainda em fase cinza. Um senhor chorou copiosamente ao entrar. “Ele me disse: ‘faz pelo menos 30 anos que eu ando no centro de São Paulo, passo em frente ao Theatro Municipal, olho, desejo e nunca tive coragem de entrar. Agora, a minha quebrada vai ter um teatro’”, lembra o maestro, emocionado.

Formação musical e bastidores: as artes do palco no Instituto Baccarelli

Edilson Ventureli - Instituto Baccarelli - ABC Cast Conexões
Edilson Ventureli, CEO e Maestro do Instituto Baccarelli, durante entrevista ao ABC Cast Conexões
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Se a frente do palco sempre chamou mais atenção, o projeto vem mostrando que a transformação acontece também nos bastidores. Muitos dos cargos estratégicos do Instituto Baccarelli são ocupados por ex-alunos que cresceram dentro das salas de ensaio. “Meu coordenador de palco é aluno fundador do Instituto. A coordenadora do acervo musical, hoje mestre em Biblioteconomia pela USP, também é ex-aluna. A coordenadora de eventos está há 25 anos com a gente, assim como minhas assistentes, minha analista de ouvidoria, minha assistente de diretoria. A gente já faz isso há muito tempo”, conta Edilson.

Com a chegada do novo teatro, essa vocação se transforma em programa estruturado. O Instituto Baccarelli pretende lançar a frente de cursos chamada “Artes do Palco”, voltada para formar profissionais que fazem o espetáculo acontecer, mesmo quando não estão sob a luz dos refletores. “Nossa sala está preparada para streaming. Eu vou começar a formar engenheiro de som, cameraman, produtor de áudio e vídeo, técnico de iluminação, camareira, figurinista, cenógrafo, projecionista”, planeja o maestro.

A escolha não é casual. Edilson percebeu, por exemplo, a dificuldade das TVs em encontrar operadores de câmera capazes de acompanhar uma partitura sinfônica ao vivo. Em vez de apenas reclamar, enxergou oportunidade. “Eu tenho meus meninos que estão lá desde os dois anos de idade, que sabem ler partitura. Eu posso formar esse cameraman que não existe no Brasil. É mão de obra que está dentro da favela e que pode ocupar esses lugares”, afirma. Dessa forma, o Instituto Baccarelli amplia seu papel, além de revelar solistas, constrói uma cadeia completa de profissões técnicas ligadas à cultura, gerando emprego e renda dentro do território.

O futuro do Instituto Baccarelli: expansão, políticas públicas e coragem de agir

O alcance do Instituto Bacarrelli já ultrapassou os limites de Heliópolis. Com a gestão de 12 CEUs da cidade de São Paulo, o projeto tornou-se uma organização social de cultura que atua em bairros como Cidade Tiradentes, Parque Novo Mundo e outras regiões de alta vulnerabilidade.

A expansão, no entanto, é sempre calibrada pela responsabilidade. Questionado sobre levar o modelo para regiões como o ABC paulista, o maestro é direto: “antes de abrir novas frentes, é preciso consolidar a sede em Heliópolis e a gestão dos CEUs”. E isso passa, necessariamente, pela sustentabilidade financeira. O Instituto Baccarelli é mantido por leis de incentivo e patrocínios privados, e há hoje cerca de 2 mil pessoas em lista de espera por uma vaga. “Formar alguém musicalmente, ou através da música formar um cidadão, é um trabalho de médio e longo prazo, não é tiro curto. Eu não posso acender um desejo em uma criança e, alguns meses depois, dizer que o sonho acabou”, alerta Ventureli.

Na avaliação de Edilson, o que o Instituto Baccarelli faz é política pública, ainda que mediada pelo terceiro setor. “O terceiro setor surge justamente para cumprir o papel do Estado onde o Estado não chega, onde ele não é eficiente. Eu sou financiado por recursos públicos via Lei Rouanet, ainda que de forma indireta, porque tenho que convencer cada empresa a investir na gente. Mas é política pública, sim, construída de baixo para cima”, explica.

Ao final da entrevista, o maestro resume o recado que carrega como norte para o futuro do Baccarelli e para quem o escuta de qualquer lugar do país: “Tenha coragem de passar da indignação e ir para a ação. Às vezes um sorriso, um abraço ou cinco minutos de escuta podem mudar a vida de alguém. Se cada um fizer uma pequena ação no seu entorno, a gente muda o bairro, a cidade, o país, o mundo”. Entre violinos, partituras e um teatro que nasce na favela, é essa coragem que segue afinando o sonho de milhares de crianças e jovens em Heliópolis, no ABC e muito além.

Orquestra Sinfônica Heliópolis no Theatro Municipal de São Paulo

Depois de conhecer a história do Instituto Bacarelli e da Orquestra Sinfônica Heliópolis, é impossível não ficar com aquele gosto de quero mais, de querer ouvir, sentir e testemunhar essa força novamente. Se a trajetória de Heliópolis já te encantou, prepare-se, amanhã, dia 16 de novembro, às 17h, a Orquestra Sinfônica Heliópolis volta ao palco do Theatro Municipal de São Paulo para uma apresentação que une intensidade e lirismo sob a regência do maestro Edilson Ventureli.

O programa, que reúne Weber e Dvorák, será uma celebração da força do projeto social que formou gerações, revelou talentos e se consolidou como um dos mais emocionantes encontros entre educação, música e cidadania no país.

Serviço:
Orquestra Sinfônica Heliópolis
Regência de Edilson Ventureli
Ingressos por R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Theatro Municipal de São Paulo
Venda pelo site oficial do Theatro Municipal

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Edilson Ventureli - Instituto Baccarelli - ABC Cast Conexões
Egle Munhoz, Edilson Ventureli do Instituto Baccarelli e Thiago Quirino (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A entrevista com Edilson Ventureli do Instituto Baccarelli, foi conduzida por Thiago Quirino e teve a participação da advogada, mestra em Políticas Públicas e comunicóloga, Egle Munhoz. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do ABCdoABC, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Edilson Ventureli do Instituto Baccarelli, pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 15/11/2025
  • Fonte: FERVER