O Circo das Contas, do escândalo do ICMS e a Ópera da “Gestão Tarcísio”

Quedas na arrecadação, escândalos fiscais e críticas ao ICMS expõem a crise nas contas paulistas às vésperas da eleição

Crédito: Pablo Jacob/Governo do Estado de SP

Introdução: Era uma vez, no reino das contas pressionadas

No majestoso palco de São Paulo, onde os cofres públicos balançam mais que sambista em fim de desfile, as contas do governador Tarcísio de Freitas resolveram tirar férias bem na reta final antes da eleição. O clima, claro, é de carnaval fora de época: deputados desfilam com fantasias de preocupação e até o pessoal da Fazenda, sempre tão sóbrio, anda brincando de cabra-cega com os números. Assim a matemática vira poesia, rimando prejuízo com caos em confusão de sessão da tarde.

O espetáculo é grandioso, com direito a quedas acrobáticas na arrecadação, críticas coreografadas e um balé de isenções fiscais tão complexo que nem Ivan Lessa conseguiria desenhar o enredo. Enquanto isso, nos bastidores, aliados do governador jogam bingo com os convênios e emendas, sem saber se vão ganhar prêmio ou pagar mico. E, para completar o roteiro, surge o escândalo do ICMS, um samba do creditar doido que faz Henfil soltar risadas lá do Olimpo.

Neste artigo travestido em desabafo do escárnio, desfiamos o novelo das finanças paulistas em blocos bem temperados. Prepare-se para uma viagem entre os números trôpegos, as confissões de Fast Shop e as respostas do governo, sempre inspiradas na arte mais ácida que derramamento de urânio em depósito de boas intenções: aquela crítica que parece piada, mas é pura crônica da vida real. Afinal, em São Paulo, dinheiro público é como piada boa — todo mundo quer entender, mas poucos sabem contar.

O balé das arrecadações e as trapalhadas do ICMS

No pas de deux da arrecadação paulista, a receita resolveu dançar de costas nos últimos meses. O ICMS, esse baluarte da burocracia nacional, virou protagonista de uma coreografia digna de novela mexicana: entra propina, sai crédito, cai arrecadação e, no fim, ninguém entende quem é mocinho ou vilão. O governo jura que, de janeiro a agosto, o espetáculo foi de alta — 0,6% de crescimento real, segundo as notas oficiais que parecem escritas por roteirista da Praça é Nossa.

Mas os números, aqueles que não mentem, mas vivem de “pequenos deslizes” que decidiram fazer piruetas. Em maio, junho, julho e agosto, a receita tributária resolveu encenar o clássico do sumiço: sempre menor que nos mesmos meses do ano anterior. E em agosto, a performance foi digna de aplausos invertidos: 4,5% de queda, somando só R$ 21,5 bilhões, o que para São Paulo é como perder o último bonde do dia.

Enquanto o PIB paulista se esforça para subir 2,5% nos últimos doze meses, o ICMS mostra que, quem dá crédito demais, acaba devendo explicação de sobra. Se o balé fiscal tivesse trilha sonora, seria um tango triste, com fiscais dançando com empresários e o público aplaudindo — de pé, mas de raiva. E assim segue o balé, cada ato mais imprevisível que o anterior.

Deputados, emendas e o samba do caixa doido

No camarim da Assembleia, deputados da base governista vestem a fantasia da indignação: reclamam que o caixa está magro como dieta de modelo e que os convênios e emendas andam escorregando mais que sabonete em banheiro público. A falta de informação sobre as contas públicas virou motivo para ensaios de stand-up político, onde cada parlamentar tenta arrancar risada (ou verba) dos cofres do Palácio.

O “samba do caixa doido” não perdoa ninguém: os recursos demoram a sair, as promessas se multiplicam mais que coelho em laboratório e, quando finalmente chega uma verba, ela parece ter sido diluída em suco de laranja light. Aliados de Tarcísio, sempre atentos ao ritmo, culpam o governo pela demora e flertam com a oposição na esperança de descobrir onde está o tesouro escondido.

Nesse enredo, até os deputados mais experientes se perdem na partitura. O caixa fraco virou personagem de folhetim barato, sempre reaparecendo em cenas dramáticas, enquanto as emendas parlamentares são tratadas como bilhete premiado — só que, no final, quem ganha é sempre o dono da banca. E assim segue o samba, com o caixa batucando em ritmo duvidoso.

Secretaria da Fazenda e o teatro dos diálogos perdidos

No palco da Secretaria da Fazenda, o economista Samuel Kinoshita desempenha o papel de maestro silencioso. Os auxiliares de Tarcísio relatam uma verdadeira ópera de diálogos perdidos: quem tenta conversar com a pasta, geralmente acaba falando sozinho, como cantor de chuveiro sem plateia. O roteiro, escrito à mão por burocratas de plantão, tem mais cenas de desencontro que filme de comédia romântica em reprise.

A Secretaria, sempre ocupada em ajustar os instrumentos, esquece de soltar as partituras para os demais atores do governo. Deputados e assessores ficam à espera de uma revelação, mas o que chega são notas desafinadas, números embaralhados e justificativas tão poéticas quanto um samba de lamento. E, sem organização, o teatro segue com público inquieto e elenco sem fala.

O controle das contas parece mais uma peça de improviso, onde cada personagem inventa sua própria verdade. Desse modo, o diálogo entre os setores virou fábula urbana onde todo mundo diz que quer conversar, mas ninguém aparece pro ensaio. E, enquanto a Fazenda segue tocando seu monólogo, a plateia — formada por aliados e críticos — ensaia vaias cada vez mais ensurdecedoras.

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O governo responde (ou tenta), números e notas oficiais

Quando o governo paulista decide responder, faz questão de mostrar que sabe usar calculadora, mesmo que às vezes, o visor esteja com pilha fraca. As notas oficiais pipocam por aí, garantindo que o acumulado de janeiro a agosto seja de alta real — sem falar que, após o escândalo do ICMS —, assim o sistema de controle ganhou um importante reforço. Adivinhem? Um textão digno de manual de autoestima corporativa, daqueles que prometem mudanças enquanto o cenário segue igualzinho.

No mundo paralelo das respostas governamentais, tudo é avanço. O Tribunal de Contas do Estado, segundo o governo, reconheceu melhorias na governança das isenções fiscais — o que, para quem lê rápido, parece notícia boa. Já para quem lê devagar, percebe que os avanços são tão sutis quanto promessa de amor eterno em novela das seis. E, claro, toda crítica vira oportunidade de mostrar que, pelo menos, ninguém está parado.

Entre números exuberantes e notas enigmáticas, o governo tenta convencer que está tudo sob controle. O problema é que, na galáxia dos relatórios oficiais, o que cresce é sempre o otimismo, enquanto a receita faz dieta de restrição sem direito a Ozempic. Se as respostas fossem auditadas por humoristas, talvez o índice de credibilidade subisse, porém, ao menos por hora, seguem no compasso desconfiado da crítica.

O escândalo da Fast Shop e a matemática criativa dos créditos

No centro do picadeiro fiscal, a Fast Shop entra em cena com uma confissão digna de novela das oito: recebeu R$ 1,5 bilhão em créditos de ICMS entre 2021 e 2025, e, como num truque de mágica, mais de R$ 1 bilhão não veio da cadeia “visível” da empresa. O diretor Mario Otávio Gomes, em momento de sinceridade rara, disse que o esquema funcionava tão bem que até os fiscais achavam que estavam em férias pagas.

A matemática dos créditos tributários é tão criativa quanto as receita de bolo da minha avozinha fofa (que Deus a tenha): ninguém sabe dizer ao certo se os ingredientes vieram da feira ou do supermercado. Os investigadores, desconfiados, admitem que o sistema é tão intricado que talvez nem uma dupla de encanadores Mario & Luigi — munidos de cogumelo e estrela amarela — consiga desentupir esse cano institucional sem alagar a casa. O prejuízo público, nesse caso, virou personagem invisível, sempre presente, mas nunca identificado.

Enquanto a Justiça carimba acordos e a Fast Shop inventa desculpas em série, a Fazenda anuncia recontagem, ou seja, vamos pagar em prestações e o plenário aplaude a coreografia — mas e o pagamento? Segue mais tímido que adolescente com preservativo na farmácia, de volta para o fim da fila do caixa.

Investigações, confissões e o mistério do prejuízo invisível

O Ministério Público de São Paulo, sempre pronto para um bom suspense, decidiu investigar a corrupção para concessão de créditos de ICMS. Os fiscais, que deveriam proteger o erário, preferiram brincar de Robin Hood às avessas: tiravam do estado para dar às empresas, e cobravam propina como se fosse ingresso para show de rock. O mistério do prejuízo invisível rendeu tantas teorias que até o Copperfield pediria uma charge extra pra ilustrar a ilusão.

Os investigadores, como bons detetives, descobriram que os cálculos são tão embaralhados que ninguém sabe se o estado perdeu dinheiro ou só ficou sem troco. A Fazenda, sempre encantada com sua própria burocracia, avisa que vai demorar meses até recalcular impostos e créditos — tempo suficiente para virar série de streaming com várias temporadas. E, enquanto isso, o mapeamento do prejuízo segue em suspense, à la Se7en.

Quando perguntada sobre o tamanho do rombo, a Fazenda solta uma nota digna de sorriso amarelo fandangos ao afirmar que, tudo começou antes da gestão Tarcísio, então não há motivo para alarme. A lógica é simples: se o problema é antigo, ele já virou tradição, e como toda boa tradição paulista, merece ser ignorada até virar folclore. O prejuízo permanece invisível, mas a esperança é que um dia apareça — nem que seja em forma de meme deste “textículo”.

TCE, ressalvas e a arte de conceder benefícios

O Tribunal de Contas do Estado, com sua habitual fleuma, aprovou as contas do governador de SP em 2024, mas não sem antes listar onze ressalvas — cifra tão perfeita que facinho transformaria o relatório em letra de marchinha de astrólogo metido a filósofo. Entre as falhas apontadas, estão projeções imprecisas de renúncia fiscal, retrocesso em relação a anos anteriores e benefícios concedidos sem lei específica, tudo embalado em papel de presente da transparência.

Os técnicos do TCE, sempre atentos ao detalhe, classificaram alguns casos como ilegais e em violação aos princípios mais nobres do serviço público. As renúncias projetadas chegaram a R$ 60 bilhões, uma cifra que, para o cidadão comum, equivale à cotação do dólar nos sonhos de consumo. E, claro, entre os beneficiados, há empresas devedoras do estado — porque, em SP, inadimplência agora ocupa lugar de destaque entre os beneficiados: reembolso em forma de perdão.

Além das falhas, o relatório do TCE destacou indícios de “fruição indevida de benefícios”, registros inconsistentes e uma concentração de incentivos digna de clube do bolinha. O órgão alertou que esse tipo de política fiscal, compromete a isonomia e a integridade do sistema. Mas, como toda crítica bem-humorada, terminou com reconhecimento de avanços — afinal, o que seria de nós sem um tantinho de fé e esperança?

Renúncias fiscais, projeções e a festa dos incentivos

As renúncias fiscais, sempre com cara de festa do pijama, seguem animando o calendário paulista. O governo, entre uma justificativa e outra, projeta que a folia dos incentivos custou R$ 60 bilhões em 2024, número que faz qualquer economista chorar de emoção. As projeções, claro, têm o rigor do horóscopo: mudam conforme a lua e sempre prometem surpresas para o próximo semestre.

No baile dos incentivos, poucas companhias dançam de rosto limpo. A maioria prefere esconder as os boletos atrás de máscaras tributárias. O documento do TCE alerta para registros inconsistentes e superestimação de valores, mas o governo prefere ver o copo meio cheio — ou, melhor dizendo, a taça de champagne meio cheia de adornos. E, para garantir que ninguém fique de fora, concentra incentivos nas mãos de quem já está devendo.

O governo, quando pressionado, responde com um samba de argumentos: afirma que as medidas seguem o rito previsto em lei estadual, já declarado constitucional pelos tribunais. No fim, todo mundo segue festejando, enquanto o cidadão comum tenta entender se essa festa é pública ou privada. E, como sempre, a conta chega só depois que o último convidado vai embora.

Conclusão: O ciclo da pressão, ironia e o futuro das contas paulistas

No epílogo deste grande espetáculo, as contas paulistas continuam pressionadas, dançando um balé de números incertos e promessas renovadas. O ciclo parece não ter fim: escândalos e investigações se sucedem, enquanto o governo improvisa justificativas dignas de stand-up. No fundo, o que se repete é a ironia — aquela certeza de que, em São Paulo, as contas públicas são sempre motivo de piada, mesmo quando choramos de verdade.

A gestão Tarcísio, protagonista de uma ópera fiscal sem intervalo, enfrenta críticas, investigações e números que parecem desafiar a lógica. E assim, o humor serve para disfarçar nossa tragédia — mas, com tantos escândalos, talvez seja hora de transformar o riso em ação de estrela que prefere acrobacia sem dublê. O futuro das finanças paulistas, navega balançando, em meio a enjoos, avanços e retrocessos — mas, segue no compasso das incertezas, com plateia sempre atenta, entre as palmas da desconfiança e o medo da queda.

Assim termina a crônica, por entre balés, sambas e teatro, com as contas públicas de São Paulo ainda pressionadas, aguardando o próximo ato de ironia. E, para não perder o costume, deixamos a pergunta no ar: quem ganha essa eleição é o melhor artista ou o melhor contador de causos? No reino das finanças paulistas, a resposta sempre depende do limite do humor — ou, talvez do saldo bancário? Deixo pra você, caro leitor.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 24/09/2025
  • Fonte: Sorria!,