História e a polêmica da uva passa na ceia de Natal

Amada ou odiada, a uva passa é herança de tradições romanas e oferece benefícios nutricionais quando consumida na medida certa

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A chegada de dezembro traz consigo uma das maiores controvérsias gastronômicas do Brasil: a presença da uva passa nas receitas festivas. O que para muitos é motivo de memes e debates acalorados nas redes sociais, para a história da civilização é um ingrediente que atravessou milênios. De símbolo de nobreza a item obrigatório (e divisório) no arroz de Natal, a uva passa carrega uma trajetória que remonta a mais de quatro mil anos de cultura e religiosidade.

As origens de 4 mil anos da uva passa no Oriente Médio

A tradição de desidratar frutos começou no Oriente Médio. Em uma era onde o açúcar era um luxo inacessível, a uva passa servia como um adoçante natural potente. Segundo a professora Izabela Montezano, da Universidade Federal de Viçosa (UFV), foi nesta região que a fruta começou a ser incorporada a pratos quentes, incluindo o arroz — uma combinação que, séculos mais tarde, desembarcaria no Brasil.

Na Roma Antiga, a prática se consolidou por questões de sustentabilidade e celebração. Os frutos que caíam das parreiras no Mediterrâneo eram secos ao sol para evitar o desperdício. Esse ingrediente tornou-se protagonista no Dies Natalis Solis Invicti, celebrado em 25 de dezembro em homenagem ao deus Mitra. Com a ascensão do Cristianismo, a Igreja Católica ressignificou a data para o nascimento de Jesus, mas manteve a uva passa como um símbolo de festividade e abundância.

A chegada ao Brasil e a herança portuguesa

A polêmica combinação de doce e salgado que divide as ceias brasileiras tem raízes diretas na colonização. Os portugueses, influenciados pela culinária árabe que dominou a Península Ibérica entre os séculos VIII e XV, trouxeram o hábito de misturar grãos com frutas secas.

Ao chegar ao solo brasileiro, a uva passa foi inserida no arroz para simbolizar riqueza e sofisticação. De acordo com especialistas, a aversão moderna ao ingrediente ocorre pelo choque de expectativas sensoriais. No entanto, do ponto de vista histórico, servir um prato com passas era um gesto de hospitalidade e nobreza oferecido aos convidados de honra.

Benefícios nutricionais: muito além do sabor

Apesar das piadas, a uva passa é um “superalimento” em termos de densidade de nutrientes. Por ser a versão desidratada da uva fresca, ela concentra vitaminas, fibras e compostos antioxidantes poderosos.

  • Energia Rápida: Rica em frutose e glicose, é excelente para um aporte energético imediato.
  • Saúde Digestiva: O alto teor de fibras auxilia no trânsito intestinal e promove saciedade.
  • Proteção Cardiovascular: Contém polifenóis e flavonoides que combatem o estresse oxidativo e protegem o coração.
  • Substituto do Açúcar: Sua doçura natural permite reduzir o uso de açúcares refinados em bolos e pães.

Qual a porção ideal de uva passa por dia?

Por ser um alimento com alta densidade energética, a moderação é a chave. A doutora Luciana Bittencourt, especialista em Ciências dos Alimentos, recomenda que a porção ideal seja de 30 gramas diários (cerca de duas colheres de sopa). Para quem deseja apenas dar um toque especial às receitas sem exagerar nas calorias, a recomendação é utilizar entre 10 e 20 gramas em saladas frias, farofas ou aves assadas.

Seja você um defensor fervoroso ou um crítico ferrenho, é inegável que a uva passa é mais do que um ingrediente: é um elo vivo com as tradições mais antigas da humanidade que, ano após ano, garante seu lugar de destaque — e de debate — na mesa dos brasileiros.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 24/12/2025
  • Fonte: Sorria!,