Gestão Nunes: asfalto supera verba de saúde e educação

São Paulo investiu 15% do orçamento em pavimentação entre 2021-2024, mas críticos alertam sobre prioridades e segurança viária.

Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

A administração municipal de São Paulo, sob o comando dos prefeitos Bruno Covas (PSDB) e Ricardo Nunes (MDB), alcançou um marco histórico na alocação de recursos públicos para pavimentação e recapeamento de vias, segundo um estudo da Folha, que analisou dados orçamentários disponíveis desde 2003.

Entre os anos de 2021 e 2024, a gestão dedicou impressionantes 15% de seus investimentos totais para o setor de pavimentação, totalizando quase R$ 7 bilhões. Este montante representa os maiores gastos em termos proporcionais e nominais, considerando valores corrigidos, nos últimos cinco mandatos completos.

O segundo maior investimento proporcional foi realizado durante o governo de João Doria e Covas entre 2017 e 2020, quando 10% do orçamento foi destinado à pavimentação, somando cerca de R$ 1,7 bilhão em valores atualizados.

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A proporção de recursos alocados para pavimentação na gestão atual é comparável a outros setores importantes, como educação (9,9%), saúde (3,9%), assistência social (0,7%) e segurança pública (0,3%). Vale ressaltar que esses números se referem apenas aos investimentos diretos, não incluindo despesas obrigatórias como salários ou outras obrigações correntes.

Em resposta à cobertura da Folha, a administração Nunes afirmou que a publicação ignora os investimentos significativos feitos em áreas essenciais como educação e saúde. Em sua defesa, a prefeitura listou diversas realizações, incluindo a inauguração de sete hospitais, a operação contínua de 13 unidades de saúde, a entrega de 46 escolas e a eliminação da fila para creches. Além disso, destacou um investimento de R$ 2 bilhões na manutenção da infraestrutura existente.

Ricardo Nunes assumiu o cargo em maio de 2021 após a morte de Bruno Covas. Sob sua gestão, em 2023, os investimentos em pavimentação atingiram 26%, superando os 15% registrados em 2020. No entanto, após sua reeleição em 2024, o percentual destinado ao setor caiu para 6% do orçamento previsto para 2025 até agosto deste ano.

A proporção dedicada à pavimentação durante a gestão Covas/Nunes ainda supera as porcentagens observadas nas administrações dos ex-prefeitos Fernando Haddad (2%), Gilberto Kassab (5%) e José Serra (3%). Dados mais antigos indicam que o empenho médio no último governo de Marta Suplicy foi de aproximadamente 4%.

Esse aumento nos investimentos pode ser atribuído a um contexto econômico favorável gerado pela elevação na arrecadação do Imposto sobre Serviços (ISS) e pela negociação com o governo federal para a concessão do aeroporto Campo de Marte, resultando na redução de R$ 23,9 bilhões nas dívidas municipais.

Segundo Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da FGV Eaesp, essa prioridade dada à pavimentação pode refletir uma estratégia voltada para resultados eleitorais em vez de atender necessidades sociais. “Em cidades carrocêntricas como São Paulo, a mensagem é clara: priorizar o motorista em detrimento do transporte coletivo”, observou.

No entanto, especialistas alertam que um aumento rápido nos gastos pode comprometer a saúde financeira futura da cidade. Gustavo Fernandes, professor da FGV especializado em finanças públicas, argumenta que existem prioridades mais urgentes do ponto de vista das políticas públicas a longo prazo do que simplesmente aumentar os gastos com pavimentação.

Além disso, Diogo Lemos, coordenador-executivo da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, critica a falta de iniciativas voltadas para melhorar a segurança viária junto ao recapeamento das vias. Ele destaca que sem obras adicionais voltadas à segurança dos pedestres e à redução da velocidade dos veículos, o problema mais grave da mobilidade urbana — as mortes no trânsito — permanece sem solução. “Apenas recapar vias pode incentivar motoristas a acelerar ainda mais“, alerta.

Por outro lado, consultores afirmam que a cidade realmente necessita de uma renovação abrangente na infraestrutura viária. O engenheiro de tráfego Paulo Bacaltchuk ressalta que os danos nas ruas são frequentemente agravados por reparos realizados por concessionárias e pela necessidade constante de manutenção.

Dados do Infosiga revelam um aumento alarmante nas mortes no trânsito na capital paulista entre 2021 e 2024 — subindo de 577 para 860 casos registrados.

O tipo de material utilizado no pavimento também levanta questões sobre segurança. João Merighi, professor do Instituto Federal de Tecnologia, observa que o uso atual do polímero asfáltico resulta em superfícies menos aderentes. Em resposta às críticas sobre segurança viária e qualidade dos materiais usados nas obras de recapeamento, a prefeitura assegurou estar utilizando tecnologia avançada que prioriza tanto segurança quanto durabilidade diante das condições climáticas e intensidade do tráfego.

A administração ainda esclareceu que as intervenções no asfalto não se restringiram apenas aos investimentos destinados especificamente ao último mandato; entre 2021 e 2022 foram gastos R$ 2 bilhões em operações para tapa-buracos da máquina pública.

Contudo, o preço dos materiais utilizados sofreu um aumento considerável pela primeira vez durante a gestão Nunes devido ao impacto da Guerra da Ucrânia. Após uma queda inicial em 2021, os preços dos asfaltos aumentaram anualmente entre 2022 e 2024: com altas significativas registradas em três anos consecutivos.

Merighi conclui afirmando que embora o asfalto tenha um impacto no custo total das obras de pavimentação — representando cerca de 5% do peso total do material — aumentos acentuados não elevam proporcionalmente o preço final das intervenções realizadas nas vias urbanas.

Em resposta às críticas recebidas por parte dos especialistas consultados sobre os gastos com pavimentação e suas implicações sociais e financeiras futuras, a prefeitura reafirmou seu compromisso com uma política integrada que visa melhorar as condições viárias da cidade enquanto busca reduzir acidentes e garantir deslocamentos mais seguros para todos os cidadãos.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 05/10/2025
  • Fonte: Sorria!,