Felicidade Interna Bruta: do Butão ao Brasil

Modelo pioneiro de bem-estar que prioriza a felicidade e orienta políticas públicas no Butão começa a ser implantado no Brasil por iniciativa da Aguama

Crédito: Martina

Enquanto a maior parte do mundo mede o progresso por indicadores econômicos, como o Produto Interno Bruto (PIB), o Butão segue na contramão desde a década de 1970, adotando a Felicidade Interna Bruta (FIB) como referência. Mais que uma métrica, trata-se de uma filosofia nacional de desenvolvimento que busca o equilíbrio entre crescimento econômico, preservação ambiental, fortalecimento cultural e bem-estar social.

“O FIB mede a prosperidade de uma sociedade de forma holística, indo além dos números puramente econômicos. No Butão, a felicidade interna bruta é mais importante que o PIB”, explicou Renata Rocha, fundadora do YOUniversality e uma das especialistas que trouxe o conceito ao Brasil.

O índice é estruturado em nove domínios, entre eles: bem-estar psicológico, uso do tempo, vitalidade comunitária, educação e governança, que são desdobrados em 33 subdomínios e 140 variáveis. A cada cinco anos, 12 mil cidadãos butaneses são entrevistados por quatro a cinco horas para medir o grau de satisfação e orientar todas as políticas públicas.

A ponte entre o Butão e o Brasil

Butão felicidade interna bruta
Reprodução

A chegada oficial do FIB ao Brasil acontece por meio da Aguama, empresa liderada por Caio Queiroz, que desde 2017 desenvolve projetos socioambientais em regiões como Fernando de Noronha e Preá (CE). A aproximação com o Butão se deu por meio da especialista em felicidade Renata Rocha, que mantém relação próxima com o Centro de Estudos de Felicidade do país asiático.

No ano passado, o presidente do Centro de Estudos do Butão e Pesquisa de Felicidade Nacional Bruta, Karma Ura, esteve no Brasil, palestrou sobre o modelo e se encantou com Noronha. Este ano, será assinado um memorando de intenções para aplicar a metodologia na ilha, com apoio do governo local e acompanhamento técnico butanês.

Nós esperamos poder fazer muitas outras cidades, porque quando um paradigma muda, ele torna o antigo obsoleto. Quando a gente começa a ver o sucesso em um lugar, essa referência permite mudar várias realidades”, afirmou Rocha.

Noronha: laboratório brasileiro do FIB

Fernando de Noronha foi escolhida como o primeiro território brasileiro a receber a aplicação oficial do índice. A decisão nasceu de um diagnóstico social preocupante: apesar do cenário paradisíaco, a ilha enfrenta alto custo de vida, sobrecarga de trabalho e índices significativos de depressão.

Segundo Caio, a estratégia da Aguama foi ampliar o foco, antes centrado no pilar ambiental da sustentabilidade, para o aspecto social, fortalecendo o bem-estar comunitário. “As portas estão mais do que abertas. Falar do tema felicidade mobiliza as pessoas, todo mundo quer saber mais”, contou.

O trabalho envolve escuta ativa das necessidades locais, ações estruturantes e eventos de impacto, como a revitalização de praças e áreas públicas. Em Preá, no Ceará, uma iniciativa semelhante mobilizou 52 empresários e dezenas de moradores, que participaram desde o desenho da maquete até o mutirão final para a reforma de uma praça central da cidade.

Heineken: felicidade como estratégia de negócio

No setor corporativo, a Heineken Brasil se destaca por ter criado uma Diretoria de Felicidade, liderada por Lívia Azevedo, que integra o bem-estar à estratégia da companhia desde 2023. “Felicidade e bem-estar são responsabilidade primária da liderança, e estão na estratégia do negócio antes da lucratividade”, destacou.

A empresa utiliza a metodologia PERMA-V, desenvolvida pelo psicólogo Martin Seligman, criador da Psicologia Positiva, que inclui pilares como emoções positivas, engajamento, relações positivas, propósito, realizações e vitalidade. A cada 15 dias, é feita uma pesquisa interna de felicidade, respondida voluntariamente por 84% dos 14 mil colaboradores, e os resultados embasam rodas de conversa entre líderes e equipes.

Para disseminar o conceito, a Heineken também forma “embaixadores da felicidade”, colaboradores voluntários que recebem capacitação e multiplicam práticas e conhecimentos dentro da empresa. “Hoje, no Dia Internacional da Felicidade, eu já não preciso fazer muita coisa, quem faz são eles”, relatou Lívia.

Psicologia Positiva e FIB: conexões complementares

Embora o FIB seja um modelo macro, voltado a países e comunidades, seus princípios dialogam diretamente com a Psicologia Positiva, abordagem científica que estuda os fatores que promovem o florescimento humano. A metodologia PERMA-V é um exemplo de como empresas podem aplicar esses conceitos internamente.

A base é comum: colocar o ser humano no centro, medir indicadores de bem-estar, compreender “gargalos de felicidade” e agir sobre eles de forma planejada e contínua. No Butão, esse processo orienta diretamente os investimentos públicos; nas empresas, define políticas internas, programas e práticas de gestão.

Um novo paradigma para desenvolvimento e negócios

A adoção do FIB no Brasil, ainda em estágio inicial, já desperta interesse de comunidades indígenas, organizações sociais e empresas que buscam um modelo mais equilibrado de crescimento. “Acredito que a gente tem nas mãos a oportunidade de criar um futuro onde o progresso seja cuidar melhor uns dos outros”, afirmou Caio.

Para Caio, sustentabilidade e felicidade são faces da mesma moeda: “Muitas das coisas que fazemos para melhorar o meio ambiente impactam diretamente na vida das pessoas. Um bairro mais limpo, organizado e saudável torna seus moradores mais felizes”.

Desafios e potencial

O maior desafio para consolidar o FIB no Brasil é garantir continuidade, independentemente de mudanças políticas. “Queremos que isso seja entendido como um legado para o ser humano, não apenas como um projeto de governo”, reforçou Rocha.

No ambiente empresarial, a tarefa envolve transformar a cultura organizacional e engajar lideranças. A experiência da Heineken mostra que, quando o bem-estar é assumido como prioridade estratégica, os resultados podem incluir maior engajamento, retenção de talentos e prevenção de problemas de saúde mental.

Caminhos para o futuro

As lições do Butão e as experiências iniciais no Brasil indicam que é possível, e necessário, repensar a ideia de desenvolvimento, integrando dimensões sociais, ambientais, culturais e econômicas. O sucesso do projeto em Noronha pode abrir portas para que outras cidades e organizações adotem a metodologia, criando uma rede de territórios comprometidos com o florescimento humano.

“Quando perguntam o que é desenvolvimento, eu acredito que é um lugar harmônico, onde a natureza e o ser humano possam florescer juntos”, concluiu Rocha

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 08/08/2025
  • Fonte: Fever