Favelas sofrem com falta de ambulância e coleta de lixo
Quase 20% da população das favelas vive em ruas sem acesso a veículos pesados, dificultando a chegada de serviços essenciais
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 05/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Mais de 3,1 milhões de brasileiros que residem em favelas enfrentam dificuldades significativas no acesso a serviços essenciais, como a chegada de ambulâncias e a coleta de lixo. Este cenário é alarmante, considerando que 19,1% dos habitantes dessas comunidades vivem em ruas que suportam apenas o tráfego de motos, bicicletas e pedestres. Em contraste, fora das favelas, esse número se reduz a apenas 1,4% da população.
IBGE aponta “exclusão histórica” nas favelas
Os dados fazem parte do suplemento intitulado “Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios”, publicado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (5). As informações foram coletadas durante o Censo 2022.
A pesquisa revela que 93,4% dos moradores que habitam fora das favelas vivem em ruas adequadas para caminhões, ônibus e outros veículos pesados. Por outro lado, entre os residentes de favelas, apenas 62% têm acesso a vias que atendem a essas condições.
Filipe Borsani, chefe do Setor de Pesquisas Territoriais do IBGE, destaca que para 38% dos habitantes de favelas, as condições das vias dificultam o acesso a serviços públicos. “Isso implica na dificuldade de acesso a serviços essenciais, como a coleta de lixo”, explica.
O Brasil contava com 16,4 milhões de habitantes vivendo em 12.348 favelas no ano de 2022, conforme dados já divulgados pelo IBGE em novembro de 2024. O instituto considera como vias os becos, vielas e escadarias presentes nas comunidades. Para essa análise, o IBGE focou na população dos 656 municípios onde as favelas estão registradas.
A presença de calçadas é outro indicador que ilustra as disparidades nas condições de vida entre as comunidades e outras áreas urbanas. Nas regiões fora das comunidades, 89,3% dos moradores têm calçadas disponíveis; esse percentual cai drasticamente para 53,9% nas favelas.
A pesquisa ainda indica que em comunidades menores, com até 2,5 mil habitantes, cerca de 50% dos moradores têm calçadas em suas ruas. Já nas favelas com mais de 10 mil habitantes, essa proporção aumenta para 61,4%. No entanto, na Rocinha, a maior favela do país localizada no Rio de Janeiro, apenas 12,1% da população reside em vias com calçadas.
Os pesquisadores também avaliaram a presença de calçadas sem obstáculos que dificultem a locomoção. Enquanto fora das favelas esse índice é de 22,3%, dentro das comunidades cai para alarmantes 3,8%, o que representa cerca de 611 mil pessoas. Na Rocinha, essa porcentagem é quase inexistente: apenas 0,1% dos moradores possuem acesso a calçadas livres de obstáculos.

A situação não é diferente quando se trata da acessibilidade para cadeirantes. Fora das favelas, aproximadamente 18,5% dos habitantes possuem rampas nas proximidades de suas residências; nas favelas este número é reduzido para apenas 2,4%.
Em relação à pavimentação das vias, o IBGE considera pavimentadas aquelas que têm mais de 50% do trecho coberto por materiais como asfalto ou cimento. Dentro das comunidades brasileiras, cerca de 78,3% dos residentes vivem em áreas pavimentadas; no restante da população urbana esse número sobe para impressionantes 91,8%.
A pesquisa mostra que quanto maior a comunidade, maior a proporção de vias pavimentadas. Nas localidades com até 250 habitantes, somente 65,8% possuem pavimentação adequada; enquanto nas com mais de 10 mil moradores esse percentual atinge 86,7%. A Bahia se destaca por apresentar uma realidade peculiar: lá a porcentagem de moradores em vias pavimentadas (92,1%) supera a da população fora das favelas (89,7%). Borsani sugere que essa discrepância pode ser atribuída ao fenômeno da “autoconstrução” dessas comunidades.
A iluminação pública se mostra como um ponto mais positivo nas favelas; conforme o censo realizado pelo IBGE indica que 91,1% dos moradores têm acesso à iluminação nas ruas ao redor de suas casas. Contudo, fora das comunidades esse percentual atinge impressionantes 98,5%. Na Rocinha, esse número reduz-se para apenas 54,3%, revelando uma realidade preocupante.
Os dados apresentados pelo IBGE evidenciam uma “exclusão histórica” vivida pelas populações que habitam as favelas. Borsani enfatiza que existe uma clara desigualdade na oferta desses serviços por parte do governo: “É possível observar uma diferença significativa na intensidade com que os equipamentos públicos são promovidos em algumas áreas em comparação com outras.”
A gerente do setor responsável por Favelas e Comunidades Urbanas no IBGE, Leticia Giannella, acredita que os resultados deste estudo podem servir como uma ferramenta poderosa para reivindicações sociais. “Que esses dados sejam utilizados por populações e organizações locais para exigir melhorias nos serviços públicos”, conclui.