Faraó dos Bitcoins diz ter senha para pagar 77 mil vítimas
Faraó dos Bitcoins: preso, Glaidson garante que carteira apreendida pela Polícia Federal tem fundos para ressarcir dívida de R$ 3 bilhões
- Publicado: 07/09/2026 10:34
- Alterado: 07/09/2026 10:34
- Autor: Daniela Ferreira
O empresário Glaidson Acácio dos Santos, conhecido como o “Faraó dos Bitcoins”, declarou à Justiça Federal que possui a senha de acesso a uma carteira fria (cold wallet) de criptomoedas, atualmente apreendida em um cofre da Polícia Federal (PF). Em depoimento na fase final do processo que apura o esquema da G.A.S. Consultoria, cujos detalhes foram revelados com exclusividade pelo programa Fantástico e pelo portal G1, Glaidson garantiu que o dispositivo contém fundos suficientes para quitar a dívida de quase R$ 3 bilhões cobrada por mais de 77 mil credores.
Questionado pela juíza do caso sobre a quantia armazenada no aparelho do tamanho de um pen drive, Glaidson evitou revelar o valor exato, alegando temer por sua integridade física, mas foi enfático ao confirmar que o dinheiro cobrado pelas vítimas está garantido. “A senha, agora de cabeça, eu não sei. Mas tá lá. Tá tudo lá”, afirmou. Ao ser perguntado diretamente se o montante pagaria todos os credores, respondeu: “Dá. Dá. Dá”.
Preso desde agosto de 2021 durante a Operação Kryptos, Glaidson responde por organização criminosa e crimes contra o sistema financeiro. A empresa, sediada em Cabo Frio (Região dos Lagos), atraía milhares de clientes, de pequenos investidores a celebridades, com a promessa irreal de rendimentos fixos de 10% ao mês.
Helicópteros e Manipulação de Mercado
Os depoimentos de Glaidson e de sua esposa e sócia, Mirelis Yoseline Diaz Zerpa, revelaram os bastidores operacionais de um esquema que, segundo a PF, movimentou mais de R$ 38,2 bilhões sem regulação oficial.
O empresário detalhou que o recolhimento de dinheiro físico dos investidores exigia uma logística complexa. “Os meus funcionários iam, através de helicóptero, até São Paulo, levavam o recurso em espécie dos clientes, e as pessoas lá de São Paulo transferiam pra minha carteira da G.A.S.”, relatou.
Glaidson também assumiu ter agido deliberadamente para manipular o valor global das criptomoedas. Ele se classificou como uma “baleia” jargão do mercado para grandes detentores de ativos capazes de influenciar preços. Segundo ele, o grupo combinava ataques coordenados de alavancagem para “derreter” intencionalmente o preço de determinadas moedas. Questionado pelo Ministério Público Federal (MPF) sobre a ilegalidade da prática, ele minimizou: “Não é ilegalidade, né? É falta de ética.”
Pedidos de Condenação e Fuga de Capital
Nas alegações finais do processo, o MPF pediu a condenação de Glaidson, de Mirelis e de outros 15 acusados. Se a Justiça acatar integralmente os pedidos, as penas podem ultrapassar 37 anos de prisão.
Um dos pontos centrais da acusação contra Mirelis, que atualmente cumpre prisão preventiva no Rio de Janeiro, é a transferência de 4.500 bitcoins, avaliados à época em mais de R$ 1 bilhão, de uma conta ligada à G.A.S. logo após a prisão do marido.
O que dizem as defesas: A defesa de Glaidson sustenta sua inocência, alegando que as atividades da empresa não configuravam crime contra o sistema financeiro, e argumenta que os pagamentos só foram interrompidos devido a bloqueios judiciais, contestando ainda o tamanho da lista de credores.
Já a defesa de Mirelis afirma que ela não possuía cargo na estrutura administrativa da empresa, atuando apenas com negociação (trader), e justifica que a movimentação bilionária de bitcoins após a operação policial serviu para devolver valores a clientes.
Glaidson segue custodiado na Penitenciária Federal de Catanduvas (PR). Além dos crimes financeiros, ele também responde a processos paralelos (com previsão de ir a júri popular) por homicídio e tentativa de homicídio contra concorrentes no mercado de criptoativos da Região dos Lagos.