Falsa bomba no Rodoanel visava expor condições de trabalho
Motorista de caminhão Dener Laurito dos Santos admitiu ter forjado um ataque com 'bomba' de papelão para expor dificuldades da categoria
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 20/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
O incidente da falsa bomba no Rodoanel que paralisou o tráfego no Rodoanel Mário Covas, na altura de Itapecerica da Serra (SP), por aproximadamente cinco horas, chegou a um desfecho surpreendente e dramático. O motorista de caminhão Dener Laurito dos Santos, de 52 anos, admitiu à polícia ter forjado toda a situação. Ele utilizou um dispositivo que simulava ser uma bomba, encenando um ataque criminoso com o objetivo de chamar a atenção pública para as precárias condições de trabalho e as dificuldades enfrentadas pela categoria de motoristas profissionais no país.
Em um novo interrogatório conduzido recentemente pelo delegado Marcio Fruet, da cidade de Taboão da Serra, a confissão do caminhoneiro desmontou a versão inicial de sequestro e assalto. Santos revelou que sua intenção era deliberada: destacar os desafios e a falta de apoio que afetam os profissionais da estrada. Em razão da farsa, o motorista de caminhão foi indiciado por falsa comunicação de crime e teve seus aparelhos celulares apreendidos para a continuidade das investigações.
Da vítima ao indiciado: O desenho da farsa

No dia da ocorrência, Dener Laurito dos Santos alegou ter sido atacado por criminosos. Sua versão inicial detalhava que uma pedra teria sido atirada contra o para-brisa do caminhão, forçando-o a parar no acostamento. Após estacionar, ele afirmava ter sido capturado, amarrado pelos supostos assaltantes, que teriam deixado o artefato de falsa bomba ao seu lado. A história, que mobilizou o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate) da Polícia Militar, revelou-se uma mentira cuidadosamente planejada.
As investigações posteriores, conduzidas pelo Gate no local, foram cruciais para desvendar a fraude. Foi constatado que o objeto que se passava por bomba era composto apenas por tubos de papelão, fios e papel alumínio.
A Decisão: De um posto na Rodovia dos Bandeirantes ao bloqueio no Rodoanel

O delegado Fruet detalhou que o motorista de caminhão confessou ter planejado a ação na noite anterior ao incidente. A ideia surgiu enquanto ele descansava em um posto de serviço na Rodovia dos Bandeirantes, logo após concluir uma jornada de trabalho.
Mais do que apenas simular a ameaça, Dener também admitiu a autoria da depredação do veículo. O profissional confessou que foi ele próprio quem quebrou o vidro da frente da carreta pertencente à empresa Sitrex, especializada no transporte rodoviário internacional. No primeiro depoimento, o motorista de caminhão havia mencionado um homem em um veículo que teria arremessado a pedra. No entanto, no novo relato, ele assumiu total responsabilidade pelo ato, contradizendo as informações dadas anteriormente à polícia.
A ação do motorista, além de configurar um crime, causou um enorme transtorno e desvio de recursos públicos, mobilizando equipes especializadas para lidar com uma ameaça inexistente no Rodoanel Mário Covas. A reportagem tentou contatar Dener Laurito dos Santos, que não possui advogado constituído até o momento, bem como a empresa Sitrex, mas não obteve sucesso até o encerramento desta edição.
Ex-policial militar expulso por conduta desonrosa em 2006
O histórico de Dener Laurito dos Santos adiciona uma complexa camada ao seu ato extremo. Foi revelado que o motorista de caminhão é um ex-policial militar. Ele foi expulso da corporação em 2006 sob a acusação de conduta desonrosa durante seu serviço.
À época de sua expulsão, Santos atuava no 22º Batalhão da Polícia Militar, que é responsável pela segurança na região de Interlagos, na zona sul de São Paulo. A informação sobre o desligamento do ex-policial foi confirmada pelo governo do estado, sob a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que assegurou que a expulsão está registrada em documentos oficiais. A gestão estadual orientou que mais informações sobre o caso e o passado do motorista de caminhão podem ser solicitadas através dos canais de acesso à informação. A gravidade da falsa comunicação de crime, somada ao seu passado na corporação, coloca Dener em uma situação judicial delicada, enquanto a categoria que ele pretendia defender observa as consequências de seu ato.