Exposição em SP revisita a memória de desaparecidos na ditadura

Com abertura marcada para o dia 18 de setembro, a mostra Ausências Brasil faz sensíveis paralelos fotográficos que retratam a presença da ausência de familiares por meio de espaços temporais.

Crédito: Gustavo Germano

Uma das principais referências no trabalho de memória política no país, o Núcleo de Preservação da Memória Política (NM), em parceria com o Arquivo Histórico Municipal de São Paulo (AHM), instituição que tem exercido um papel central na preservação da memória política e social da cidade de São Paulo, apresenta a exposição “Ausências Brasil”, do fotógrafo argentino Gustavo Germano, de 18 de setembro a 8 de outubro de 2025.

Com o objetivo de lançar um olhar sensível para o tema da perseguição política e para os desaparecidos do período da ditadura civil-militar (1964-1985), os visitantes conhecerão rostos, histórias e farão uma reflexão das possibilidades das vidas ceifadas pela brutalidade do sistema repressor. Neste sentido, as ausências nas obras do fotógrafo argentino Gustavo Germano revelam muitas presenças. A presença da dor e da saudade, a presença da injustiça e seus paradoxos, a presença da própria pessoa desaparecida.

O projeto da Exposição Ausências iniciou-se na Argentina, motivado pelo desaparecimento de seu irmão, Eduardo Raúl Germano, que foi detido e desaparecido pela ditadura argentina em 17 de dezembro de 1976, e cujos restos mortais foram identificados em 2014 pela Equipe Argentina de Antropologia Forense. O projeto se expandiu para outros países latinos, a maioria alvos da Operação Condor – campanha de repressão e terrorismo de Estado orquestrada pelas ditaduras no Cone Sul, com o apoio dos Estados Unidos. Anos depois, nasceu o projeto “Ausências Brasil”, que conta com 12 histórias de pessoas brasileiras desaparecidas durante a ditadura militar, cobrindo locais do Ceará ao Rio Grande do Sul.

“A mensagem estampada é gritante: houve um abalo tremendo naquelas famílias e elas tiveram que viver – e enfrentar – uma dor indescritível. Elas estão alegres nos primeiros retratos. É possível imaginar os sonhos que tinham, seus abraços, os desentendimentos comuns em qualquer família, as pazes… Mas, na segunda foto, tudo isso desaparece. Não é apenas uma pessoa que desapareceu. O desamparo é palpável. A segunda foto mostra também quanto tempo se passou com essa dor, certamente agravada pela injustiça, pela falta de respostas do próprio Estado que desapareceu com os corpos de seus entes queridos. E esse tempo continua se esvaindo.” Diz Eugênia Augusta Gonzaga, Procuradora Regional da República e Presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Além das fotografias, haverá uma série de atividades educativo-culturais, como visitas mediadas, rodas de conversa com ex-presos políticos e exibição de filme relacionado ao tema, fomentando debates sobre os impactos da violência de Estado, tanto no passado quanto no presente. Com o objetivo de formar cidadãos mais conscientes e críticos, a exposição reflete sobre os abusos de poder, as perseguições e os desaparecimentos forçados ocorridos durante a ditadura militar no Brasil (1964–1985) e suas repercussões na atualidade.

Um dos objetivos do projeto, segundo a museóloga do Núcleo Memória, Kátia Felipini, é refletir sobre a democracia e rechaçar a ditadura. “Cada vez que a gente apresenta essa exposição, é uma forma de reparar essas famílias”, diz. Já para o historiador e educador da instituição, “A história do Brasil é pautada na violência”, afirma. “Há muitos vínculos entre a violência de Estado da ditadura com os desaparecimentos e assassinatos pelas mãos de policiais hoje em dia”. “Estas violências do presente são sinais da impunidade permitida após a redemocratização”, finaliza Novelli.

Núcleo Memória é uma instituição dedicada à preservação da memória política e à promoção dos direitos humanos e conta com uma vasta agenda de ações, como as visitas mensais ao antigo DOI-Codi/SP e os Sábados Resistentes, no Memorial da Resistência de São Paulo.

A exposição é realizada com o apoio do Deputado Estadual Antonio Donato e parceria com diversas instituições, que possibilitaram a sua circulação por diferentes espaços públicos.

Agenda da Exposição

18 de setembro

– 14h: Formação de Educadores

– 15h: Visita Educativa 

– 17h: Abertura Oficial 

Mesa com Maurice Politi e Katia Felipini (NM), Antonio Donato (dep. estadual), Bernardo Kucinski (escritor e irmão de Ana Rosa Kucinski, desaparecida política) e Paulo Yuzo (AHM).

26 de setembro

– 15h: Visita Educativa mediada com historiador.

27 de setembro

– 15h: Visita Educativa mediada com historiador.

04 de outubro

– 14h: Visita Educativa

– 15h: Rodas de Conversa com ex-presos políticos, com Maurice Politi e Dulce Muniz.

– 17h: Projeção do Filme “O Dia que Durou 21 Anos” + Debate com Diretor Camilo Tavares.

* Formação de Educadores e mediação das Visitas Educativas com os historiadores César Novelli Rodrigues (educador do NM), e Renan Beltrame (colaborador do NM).  No dia 26/09, a visita será acompanhada pela museóloga e diretora técnica do Núcleo Memória, Katia Felipini, e pelo ex-preso político e diretor executivo do Núcleo Memória, Maurice Politi.

Serviço:

Exposição Ausências Brasil no Arquivo Histórico Municipal

De: 18 de setembro a 8 de outubro de 2025

Onde: Praça Coronel Fernando Prestes, 152 – Bom Retiro – São Paulo – SP

Entrada: Gratuita

Horário de Visitação: De segunda a sexta, das 9h às 17h; sábados, das 10h às 16h

IMPORTANTE: no dia 19/09 o AHM estará fechado.

  • Publicado: 20/01/2026
  • Alterado: 20/01/2026
  • Autor: 16/09/2025
  • Fonte: Farol Santander São Paulo