Estudo revela como exercícios físicos previnem a cronificação da dor muscular e inflamação
Atividade física faz com que células imunes envolvidas no processo inflamatório adquiram um perfil anti-inflamatório; achado abre caminho para novas abordagens terapêuticas
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 21/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
Um recente estudo realizado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) investiga a cronificação da dor muscular, um fenômeno em que a dor aguda evolui para uma condição crônica. As conclusões do estudo, publicadas na revista PLOS ONE, revelam mecanismos pelos quais a prática regular de exercícios físicos pode atuar como uma barreira contra essa transição, protegendo o corpo da inflamação e da dor persistente.
A pesquisa focou no papel dos macrófagos, células do sistema imunológico envolvidas na resposta inflamatória. Estudos anteriores já apontavam para a importância desses glóbulos brancos tanto na fase inicial da dor muscular inflamatória quanto na sua progressão para a dor crônica. A equipe de pesquisadores descobriu que o receptor P2X4, presente na superfície dos macrófagos, é um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento da dor inflamatória crônica.
Durante os experimentos com camundongos, os cientistas observaram que a ativação de uma via de sinalização associada ao receptor P2X4 é inibida pelo exercício físico. Essa inibição transforma os macrófagos em células anti-inflamatórias, contribuindo assim para evitar que a dor se torne crônica. “Notamos que o exercício impede a ativação da via do P2X4 nos macrófagos, evitando que a dor aguda se transforme em crônica. Esse é um dos mecanismos que explicam como a atividade física pode ajudar na prevenção da dor muscular”, afirmou Maria Cláudia Gonçalves de Oliveira, coordenadora do Laboratório de Estudos em Dor e Inflamação (Labedi) e autora do estudo.
Os resultados obtidos não apenas ampliam o entendimento sobre os processos biológicos envolvidos na dor muscular, mas também abrem novas possibilidades para o desenvolvimento de medicamentos e protocolos terapêuticos direcionados ao manejo dessa condição. Oliveira ressalta que países como Estados Unidos e Canadá enfrentam uma crise de dependência de opioides e há um esforço crescente para reduzir o uso desses fármacos no tratamento da dor crônica. “Compreender como o exercício físico atua na prevenção da cronificação nos permite explorar alternativas mais seguras e eficazes em combinação com novos medicamentos”, conclui a pesquisadora.
No experimento, os camundongos foram submetidos a sessões de natação periodizada com intensidade progressiva, cinco vezes por semana, durante quatro semanas. Após esse período, os pesquisadores induziram uma lesão muscular inflamatória nos animais, esperando que isso gerasse alterações no tecido muscular e aumentasse o risco de cronificação da dor. Contudo, essa expectativa não se confirmou nos camundongos que haviam praticado exercícios previamente ao estímulo inflamatório.
A análise farmacológica e biomolecular revelou que o exercício inibe uma via de sinalização associada aos receptores P2X4 nos macrófagos, mediada pela ativação dos receptores PPAR-Gama, previamente associados à prevenção da dor muscular em outros estudos. “Sugerimos que a ativação do receptor P2X4 pela proteína p38 MAPK leva à ativação dos macrófagos e ao aumento das citocinas inflamatórias. O exercício modula essa ativação por meio do PPAR-Gama”, explica Oliveira. No entanto, os mecanismos exatos ainda estão sob investigação.
A pesquisadora destaca a relevância das vias convergentes na regulação da hiperalgesia muscular inflamatória, fornecendo uma base para compreender as interações moleculares e celulares na progressão da dor em condições inflamatórias. Ela conclui que a fase aguda da inflamação é um momento crítico para intervenções terapêuticas e sugere explorar o uso de antagonistas do P2X4 ou agonistas do PPAR-Gama para otimizar tratamentos futuros.