Estreia polêmica em Brasília: filme com sósia de Bolsonaro falecido chega aos cinemas após investigação da PF gerar burburinho nacional
Aos 93 anos, Ruy Guerra desafia censura e estreia "A Fúria", filme que aborda fascismo em uma trama sem líderes reais; destaque no Festival de Brasília de Cinema
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 08/12/2024
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
Em um cenário cinematográfico que ecoa questões políticas contemporâneas, o cineasta Ruy Guerra, aos 93 anos, apresenta “A Fúria“, filme que encerra uma trilogia iniciada há seis décadas com “Os Fuzis” (1964) e seguida por “A Queda” (1976). O novo longa-metragem, embora ficcional, evoca elementos do atual panorama político brasileiro, sem personificar figuras reais como o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Guerra deixa claro que seu objetivo não é focar em indivíduos específicos, mas sim em ideologias. “Nos interessa o fascismo“, explica ele à Folha de S.Paulo. O filme retrata um Brasil onde o presidente, mesmo presente, tem pouca relevância na narrativa. Em vez disso, o poder é exercido por figuras como um influente presidente da Câmara dos Deputados, um general das Forças Armadas, um empresário de destaque, um líder religioso e um ministro do Supremo Tribunal Federal.
A trama segue Mário, um personagem que retorna à vida após ser morto durante a ditadura militar para buscar justiça. Este tema ressoou fora das telas quando imagens vazadas do set provocaram a abertura de um inquérito pela Polícia Federal sob ordens do governo Bolsonaro em 2022. Ruy Guerra relata ter enfrentado ameaças e pressões durante as filmagens.
Apesar desses desafios, a equipe seguiu determinada. Luciana Mazzotti, co-diretora ao lado de Guerra, menciona dificuldades financeiras agravadas pelo clima político da época. Segundo ela, apenas com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições foi possível assegurar os recursos necessários para finalizar o filme.
“A Fúria” estreou no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, onde recebeu aplausos e manifestações do público contra a anistia aos crimes da ditadura. O diretor agradeceu ao festival pela exibição corajosa do filme e reiterou sua postura firme diante das tentativas de intimidação que enfrentaram.
O longa não apenas encerra uma trilogia significativa na carreira de Guerra, mas também presta homenagem a figuras importantes. Grace Passô interpreta uma deputada inspirada em Marielle Franco, enquanto o filme é dedicado à memória do ator Nelson Xavier e conta com Paulo César Pereio em seu último papel antes de falecer.
Com inovação técnica através do uso de video mapping para criar seus cenários, “A Fúria” não apenas revisita temas históricos mas também critica a perpetuação de dinâmicas de poder contemporâneas. Apesar das nuances cômicas e paródicas mencionadas por Guerra, ele reforça a seriedade subjacente da obra: “É um filme sério em sua essência”, conclui o cineasta.