"O Drama" converte trauma em impacto moral e desafia a comédia romântica
Na estreia de "O Drama", Kristoffer Borgli usa Zendaya e Robert Pattinson como isca para uma comédia sombria que arranca o tapete do público e se recusa a pedir desculpas
- Publicado: 08/04/2026 12:14
- Alterado: 08/04/2026 12:22
- Autor: João Pedro Mello
- Fonte: ABC do ABC
Abertura: Contexto e Subversão da Comédia Romântica
A urgência de reinventar os códigos do cinema contemporâneo encontra em “O Drama”, a provocativa aposta da A24 dirigida pelo norueguês Kristoffer Borgli, um terreno vasto e perturbador. O filme atrai o espectador com a promessa superficial de um romance magnético, apenas para estraçalhar sumariamente qualquer ilusão de conforto assim que a trama começa a se estabelecer em tela.
A trama central acompanha os tortuosos dias que antecedem a suntuosa cerimônia matrimonial de um casal aparentemente inabalável, interpretado com intensidade asfixiante por Zendaya e Robert Pattinson, cuja estabilidade entra em colapso irreversível após uma revelação sombria. O verniz de perfeição é violentamente estilhaçado quando vem à tona um segredo que passa a contaminar silenciosamente toda a dinâmica doméstica. A partir daí, o planejamento festivo converte-se em um campo de batalha psicológico, onde a tentativa desesperada do noivo de manter as aparências perante a sociedade, colide de frente com o peso esmagador de um trauma que se recusa a ser esquecido.
O cinismo inerente à visão do Borgli, traz na bagagem a acidez lapidada por sua parceria pregressa com um gigante do incômodo, o diretor Ari Aster (Hereditário) que também produz o longa — um mestre absoluto em esfacelar a sanidade relacional sob a luz do dia em obras viscerais como Midsommar —, que aqui se manifesta de forma brilhante pela introdução insidiosa de elementos de tragédia real dentro do invólucro de um relacionamento supostamente perfeito. Ao posicionar o horror absoluto no centro exato do planejamento fútil de um casamento, a obra expõe a fragilidade absurda das convenções modernas e o vazio insuperável da nossa própria elite burguesa.

Essa escolha narrativa, mas “brutal”, recusa sem piedade qualquer tentativa de conciliação ou catarse reconfortante, optando por deixar que a tensão se acumule indefinidamente sobre os ombros da audiência. O roteiro prefere arrastar os seus personagens por uma espiral de degradação passiva, transformando o silêncio, em algo a mais que mera testemunha, mas um cúmplice. E está justamente nesse “conforto” que vira “confronto” calado, o maior e mais devastador de todos os pecados possíveis. Ou seja, ao invés de trilhar os caminhos seguros da redenção que costumam guiar as produções de apelo massivo de Hollywood, o longa-metragem nos obriga a presenciar o desmoronamento moral bem de pertinho. Assim, o público é forçado a observar, com um misto de repulsa instintiva e fascinante atração mórbida, como segredos indizíveis são meticulosamente varridos para debaixo do impecável tapete da convivência social.
Trata-se de uma paralisia coletiva e incômoda que o cineasta articula com maestria ímpar para criar sua crítica sociológica mais feroz, pintando um retrato devastador de uma geração completamente adoecida. A direção consolida o filme como um verdadeiro divisor de águas entre aqueles que buscam apenas entretenimento escapista mastigado e os que suportam o cinema visceral como dissecação da psique.
O colapso das expectativas
Em “O Drama”, a desconstrução meticulosa do romance idílico serve como o motor implacável de uma narrativa que se recusa ferozmente a oferecer qualquer tipo de porto seguro afetivo para seus personagens. O relacionamento central passa por um processo de oxidação moral tão letal e acelerado que a intimidade vira, quase de imediato, uma arena sanguinária de ressentimentos velados e palavras não ditas.
A verdade inominável, revelada subitamente durante um jogo trivial entre amigos de longa data, funciona na trama como a detonação silenciosa de uma bomba de retardo longo e incrivelmente destrutivo. O que era para ser apenas mais uma noite leve e regada a vinho desmorona em segundos, enquanto as máscaras sociais desabam ao vivo diante de nós. A intimidade forjada por décadas vira cinzas, substituída por uma asfixia imediata que paralisa cada personagem em sua própria cadeira.
A genialidade cruel do filme está em arrastar os minutos logo após essa excruciante confissão, forçando o público a chafurdar naquele silêncio sepulcral e absolutamente insuportável que preenche todo o ambiente.
Ao abandonar as saídas melodramáticas fáceis e as resoluções rapidamente mastigadas, a obra transforma o ato de observar a dinâmica fragmentada do casal em uma experiência profundamente invasiva e desconfortável. O espectador sente que está bisbilhotando um abismo privado que jamais deveria ter sido exposto à luz do dia, tornando a recepção inteira do filme um intenso exercício de voyeurismo culpado.

As interações sociais que circundam o casal tornam-se, a partir daquele exato ponto, uma coreografia macabra de sorrisos falsos e palavras cuidadosamente polidas que apenas evidenciam o quão fraturada aquela união se tornou. Personagens secundários atuam meramente como espelhos deformantes que refletem e amplificam a podridão moral que agora infesta o núcleo do relacionamento principal com uma força silenciosa, porém altamente corrosiva.
Essa abordagem implacável exige uma maturidade emocional considerável da audiência, que é frequentemente testada e provocada a abandonar a sala diante da absoluta incapacidade de processar o tamanho cinismo projetado. Torna-se cristalino que a intenção da obra nunca foi fazer rir de forma convencional, mas provocar um engasgo intelectual profundo que impossibilita a deglutição pacífica de quaisquer escapismos idealizados.
A performance do caos
Se aquela aura intocável de estrela pop já tinha sido atirada pela janela lá nos surtos de Euphoria, na trama de “O Drama”, Zendaya cava ainda mais fundo para mergulhar de cabeça numa vulnerabilidade que é pura toxina. Ela arranca de si mesma qualquer tique confortável ou sorriso fácil, segurando a barra da personagem apenas no olhar — um vazio tão assustador que parece sugar o ar de quem ousa dividir a cena com ela.
O grande trunfo dessa atuação é que ela se recusa a te dar a mão. Não espere um roteiro mastigado ou uma desculpa psicológica barata para passar pano pro passado violento dela. Zendaya te entrega o caos nu e cru, obrigando o público a decifrar cada tremor no canto da boca dela sem nenhuma legenda moral para facilitar o serviço.

Conforme a narrativa avança, a personagem se transforma num autêntico buraco negro afetivo. Assim torna-se tão letal, que qualquer um que chegue perto buscando um pingo de conexão humana acaba sendo engolido e tem a própria sanidade destroçada por essa órbita perigosa.
E repare na frieza com que ela modula a própria voz. Trocar duas palavras com a personagem vira um jogo sádico de roleta-russa, onde qualquer escorregão no tom é fatal. É um espetáculo sufocante de contenção, provando que aquilo que ela escolhe não dizer espanca a plateia com o peso absoluto de uma confissão arrancada a fórceps.
É justamente nessa falência moral entregue na ponta da faca, sem um único traço de caricatura de vilã de gibi, que mora o terror da coisa toda. A força esmagadora desse projeto nasce direto dessa autossuficiência perversa que ela exala — e fica simplesmente impossível desviar os olhos da tela.
A arquitetura do desconforto
Do outro lado, Robert Pattinson entrega a espinha dorsal de um sujeito encurralado que assiste, em absoluto estado de choque, o seu ideal de amor água com açúcar descer direto pelo ralo. Ao trancá-lo no banco do carona, o filme chuta para escanteio aquele velho clichê do masculino no controle de tudo, e desse jeito nos esfregar na cara a extrema fragilidade exposta em ferida de osso aberto de um homem reduzido a um mero espectador da própria ruína.
O seu denso trabalho de atuação foca primariamente na construção minuciosa de uma linguagem corporal que transborda ansiedade reprimida, de ombros tensionados e olhares vacilantes ininterruptos diante de uma tempestade em seu castelo de cartas. Em vez de recorrer a monólogos grandiloquentes, o ator opta corajosamente por internalizar quase todo o impacto da grande revelação, mastigando o ressentimento em um silêncio aterrador e incrivelmente claustrofóbico.
É angustiante e ao mesmo tempo fascinante testemunhar a forma como o seu personagem tenta inutilmente performar a rotina de um noivo diligente enquanto seus olhos entregam o profundo pânico que o consome. A sua performance impecável serve como a ponte empática fundamental para o lado de cá da tela, permitindo ao público mensurar a verdadeira gravidade e o alcance destrutivo da insanidade central da trama.

A direção inteligente aproveita magistralmente a capacidade do ator em transmitir constrangimento existencial crônico para forçar a audiência a experimentar a mesmíssima sensação de sufocamento que paira sobre a residência do casal. O filme transforma a figura tradicional do homem seguro em um estudo de caso clínico sobre a covardia passiva, demonstrando que o medo do escândalo aprisiona o indivíduo em jaulas emocionais severas.
A simbiose completamente tóxica e calcada na repressão entre as performances de ambos os protagonistas é o alicerce absoluto sobre o qual toda a premissa desta comédia sombria se sustenta bravamente. São duas engrenagens completamente quebradas que, ao girarem em falso uma contra a outra, fazem o motor ácido do roteiro funcionar com uma perfeição assustadora. Assistir a esse choque de atuações é o equivalente cinematográfico de ver a velha cartilha do romance ser dilacerada ao vivo.
Existe um abismo inegável de comunicação de uma química doentia que não nasce de beijos apaixonados, mas da percepção compartilhada e sufocante onde ambos estão inegavelmente presos em um pesadelo cíclico e inevitável.
Quando você coloca a insanidade letal dela para engolir a passividade de pedra dele, o resultado é uma valsa macabra que beira o insuportável. Nenhum dos dois tem a coragem de explodir a ponte de vez ou quebrar os pratos na parede. Em vez disso, eles preferem sustentar um teatro de aparências que apodrece a olhos vistos a cada nova cena. É justamente nessa recusa doentia de apertar o botão vermelho que a tensão se multiplica, transformando a casa inteira em uma panela de pressão.
O reflexo da hipocrisia e desconstrução
O peso temático irrefutável da obra recai incansavelmente sobre a constatação sombria de que a sociedade moderna repulsa instintivamente qualquer trauma que não possa ser empacotado e perfeitamente higienizado. Borgli alarga brutalmente o espectro de sua mira crítica para atingir de forma letal a postura complacente e o voyeurismo perverso daqueles que consomem a tragédia alheia como mero entretenimento barato.
O roteiro afiado e livre de qualquer condescendência desmascara implacavelmente a fragilidade das relações interpessoais pautadas puramente pelo status e pela estética fabricada das nossas redes de convivência social. De modo lento e sangrando aos poucos, a obra sugere de modo agressivo que a civilidade moderna é apenas uma camada extremamente fina de tinta sobreposta a uma infinita e aterradora reserva de indiferença humana mútua e fria.

Em vez de celebrar o ápice celebratório do amor, a festa de casamento é exposta aqui como um campo minado de rituais absurdos e sem alma. A tensão de brigar por arranjos florais que custam uma fortuna serve apenas como uma cortina de fumaça patética para a verdadeira atração da noite: um surto psiquiátrico total que vai ganhando cada vez mais força nas sombras.
A destruição sistemática e meticulosamente premeditada do mito do romance cinematográfico perfeito é o grande legado e a conquista indiscutível deste arriscado projeto encabeçado pela produtora independente A24. O diretor utiliza brilhantemente a carcaça estrutural vazia das comédias românticas clássicas como um autêntico Cavalo de Troia para infiltrar temas letalmente corrosivos e profundamente antissociais direto na veia da cultura pop.
O conceito tradicional reconfortante de que o amor verdadeiro cura feridas irremediáveis é arrastado pela lama até perder todo o seu significado, sendo substituído sumariamente por uma visão esmagadoramente pessimista. A narrativa atesta de forma contundente que os laços sentimentais atuam com muito mais facilidade como amarras prisionais pesadas do que como eventuais correntes de salvação abençoadas e puramente libertadoras.
Fechamento
Ao fim desse massacre implacável contra as ilusões do amor ideal, a única coisa que sobra na sala de cinema é o gosto amargo de um veneno absurdamente bem servido. É revigorante ver que a obra não cede à tentação covarde de entregar uma redenção barata antes de subir os letreiros. A história morre abraçada à própria tragédia, esfregando na nossa cara a resignação de um casal que quebrou e parece não ter o menor conserto.
Não se trata, de maneira alguma, de uma simples experiência casual e inofensiva de fim de semana com pipoca e refrigerante, a obra age implacavelmente como um gigantesco moedor incansável de carne humana e sentimental. O filme tritura sem clemência alguma as frágeis tolerâncias dos espectadores menos habituados a vislumbrar o próprio abismo existencial camuflado debaixo das vestes cintilantes de uma cerimônia ricamente decorada pela hipocrisia.

O brilhantismo incômodo evidenciado pelas interpretações cruas do par central, atua de forma definitiva como a pá de cal inescapável nas nossas antigas expectativas clássicas, infantis e demasiado simplórias acerca da essência do amor. Há uma força indigesta nessas atuações que, garante que o assombro e a vergonha induzida continuem corroendo a consciência do público muito tempo depois que a escuridão do cinema engolir as últimas imagens desse desfecho fúnebre.
O aplauso nervoso e amplamente reticente que ecoa fatalmente pelas poltronas da sala prova que a direção não falhou na sua missão de arrancar do vulnerável público pagante a mais conturbada das reações fisiológicas. É a constatação dolorosa de que rir estridentemente com genuína culpa moral continuará sendo sempre um ato libertador e plenamente válido de desespero perante a catástrofe social incontrolável em que vivemos atualmente.
Ao fim de duas horas mastigando atrocidades, quando o público finalmente solta o ar que prendia sem perceber, a realidade bate na cara: a subversão é o desfibrilador do cinema atual. Para manter essa arte respirando e não morrer de tédio, a melhor saída ainda é sufocar a plateia. Então, quando sobe o letreiro, fica a certeza letal de que a obra cumpriu sua missão. E num mercado completamente anestesiado por finais felizes de plástico, uma cicatriz bem feita segue sendo o mais valioso troféu. E sobretudo, essa marca, guardada em segredo com o peso metálico de uma tragédia engatilhada na mochila, se prova, (e)ternamente muito mais fria e duradoura do que qualquer aliança trocada no imaculado altar.
Ficha Técnica
Título: O Drama (The Drama)
Gênero: Romance, Comédia de Humor Negro, Drama
Diretor: Kristoffer Borgli
Roteirista(s): Kristoffer Borgli
Elenco: Zendaya (Noiva), Robert Pattinson (Noivo)
Distribuidor: A24
Duração: 110 min