Estratégia digital força recuo e altera rumo do PL Antifacção

Mobilização digital impulsionada pelo PT adia votação do PL Antifacção e expõe desgaste na relação institucional

Crédito: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

A análise do PL Antifacção na Câmara dos Deputados reacendeu a estratégia do governo Lula e do PT de incentivar mobilização social e disputa de narrativas para tentar influenciar votações no Congresso.

Com minoria diante do centrão e da oposição bolsonarista, aliados do governo passaram a adotar campanhas coordenadas em discursos e redes sociais a fim de aumentar o custo político de determinadas propostas, comono caso do PL Antifacção.

A tática, usada anteriormente na PEC da Blindagem, na isenção do Imposto de Renda e em debates sobre impostos e anistias, mira o desgaste de parlamentares contrários às posições do Executivo. O Congresso, frequentemente retratado nessas campanhas como “afastado da vontade popular”, tornou-se alvo constante da crítica de setores da esquerda.

Efeitos do discurso e recuos no texto

Guilherme Derrite
Lula Marques/Agência Brasil

Durante a discussão do PL Antifacção, parlamentares de diferentes partidos observaram impacto na narrativa construída pelo PT de que o relatório do deputado Guilherme Derrite (PP-SP) enfraqueceria a Polícia Federal e beneficiaria políticos investigados. Com isso, o projeto passou a ser rotulado por aliados do governo como uma “nova PEC da Blindagem”.

A repercussão levou Derrite a recuar de pontos sensíveis à direita, como equiparar facções criminosas a organizações terroristas, e forçou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a defender publicamente a PF. A votação foi adiada, em meio à pressão de grupos alinhados ao governo em aplicativos de mensagens e redes sociais.

Disputa de narrativas e impacto interno

Enquanto aliados do Planalto comemoram o que consideram uma retomada de protagonismo após derrotas recentes em temas econômicos e ambientais, adversários afirmam que a escalada de discursos contra o Congresso traz risco para a governabilidade, especialmente diante das eleições de 2026,.

Parlamentares do centrão criticam o que classificam como falta de preparo político de Derrite na comunicação do PL Antifacção, o que teria contribuído para a leitura de que o relatório pretendia “tutelar” a PF. Líderes partidários também avaliam que o episódio desgastou a imagem de Motta, tanto interna quanto externamente.

O governo, por sua vez, intensificou a defesa de sua posição: ministérios atuaram de forma unificada, a Secretaria de Comunicação divulgou vídeos explicativos e ministros foram escalados para reforçar a mensagem de que o texto original fragilizaria a instituição policial.

Riscos para a relação entre Executivo e Legislativo

Mesmo com recuos e reorganizações, líderes da oposição afirmam que a ofensiva digital do PT para impedir o PL Antifacção não deve atingir o mesmo nível da mobilização contra a PEC da Blindagem, especialmente por envolver segurança pública, tema em que a opinião pública normalmente se alinha a propostas de endurecimento defendidas pela direita.

A avaliação entre setores do Congresso é de que o confronto recorrente entre Planalto e Legislativo pode trazer ganhos imediatos ao governo, mas deteriora a relação institucional. Um interlocutor ligado à cúpula da Câmara afirma que o Executivo age como se a eleição de 2026 estivesse definida e alerta que, ao final, o governo seguirá dependente do Parlamento para aprovar suas pautas.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 16/11/2025
  • Fonte: Fever