Escassez de mão de obra pressiona setor de serviços no Brasil
Queda no tempo de permanência e aumento das contratações revelam mercado mais aquecido, mas com maior rotatividade e dificuldade de retenção
- Publicado: 21/04/2026 08:15
- Alterado: 21/04/2026 08:22
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: FecomercioSP
A escassez de profissionais no setor de serviços tem se intensificado no Brasil e já impacta diretamente a dinâmica das empresas. Responsável por 57% dos empregos formais e cerca de 70% do Produto Interno Bruto, o segmento enfrenta um cenário em que a oferta de vagas cresce, mas a permanência dos trabalhadores diminui, elevando custos e dificultando a estabilidade das equipes.
Levantamento da FecomercioSP mostra que o tempo médio de permanência no emprego caiu de forma relevante nos últimos anos. Entre fevereiro de 2021 e fevereiro de 2026, o indicador recuou 6,8 meses no Brasil e 6,3 meses em São Paulo, ambos com queda próxima de 27%. O dado evidencia relações de trabalho mais curtas e reforça o desafio das empresas em manter profissionais por períodos mais longos.
Mais contratações, menos permanência nas empresas

Apesar da redução no tempo de vínculo, o mercado de trabalho segue aquecido. No mesmo período analisado, o volume de admissões cresceu cerca de 80%, indicando que as empresas continuam expandindo seus quadros. A contradição está no resultado prático desse movimento. Contrata-se mais, mas também se perde mais rapidamente.
Esse comportamento aumenta a rotatividade, pressiona os custos operacionais e exige investimentos constantes em treinamento. O ciclo de contratação e desligamento passa a ser mais frequente, afetando a produtividade e a continuidade das operações.
Segundo o presidente do Conselho de Serviços da FecomercioSP, Marcelo Braga, o cenário exige mudança de estratégia por parte dos empresários. Ele afirma que “hoje, mais do que contratar, o empresário precisa pensar em como reter. O mercado está mais dinâmico e o profissional circula mais”.
Mudança no perfil dos trabalhadores amplia mobilidade

O estudo também aponta alterações no perfil da força de trabalho, com aumento da mobilidade entre diferentes faixas etárias. A redução no tempo de permanência foi registrada em todos os grupos, mas se mostrou mais intensa entre profissionais de 50 a 64 anos, que passaram a trocar de emprego com mais frequência.
Ao mesmo tempo, cresce a participação de trabalhadores mais experientes nas contratações. Esse movimento indica uma reconfiguração do mercado, em que a experiência volta a ganhar espaço, mas não necessariamente se traduz em vínculos mais longos.
A combinação desses fatores reforça a percepção de um mercado mais dinâmico, em que oportunidades surgem com maior frequência, incentivando a circulação de profissionais entre empresas.
Setores de serviços operacionais concentram maior pressão
Entre as atividades analisadas, alguns segmentos de serviços apresentam impacto mais direto da escassez de mão de obra. Alojamento e alimentação lideram o crescimento das contratações em São Paulo, com alta superior a 150%, seguidos por outros serviços e transporte e armazenagem.
São áreas tradicionalmente intensivas em mão de obra e com histórico de maior rotatividade, o que amplia os efeitos da escassez. A dificuldade de retenção nesses setores tende a ser mais evidente, exigindo ajustes na gestão de pessoas e na organização das equipes.
De acordo com Marcelo Braga, compreender essas dinâmicas é essencial para decisões mais estratégicas. O dirigente destaca que a análise deve considerar não apenas o número de vagas abertas, mas também fatores como perfil dos trabalhadores, características de cada segmento e índices de rotatividade.
O cenário atual reflete a retomada das atividades de serviços após a pandemia, a recomposição dos quadros em setores presenciais e o aumento da mobilidade entre trabalhadores. O resultado é um mercado aquecido, mas com vínculos mais curtos e maior pressão sobre as empresas para manter seus profissionais.