Diplomacia adulta de governo isola Eduardo Bolsonaro após fiasco com EUA

De Brasília a Washington, o vexame que transformou Eduardo Bolsonaro em persona non grata da política adulta

Crédito: Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Abertura — O herdeiro sem reino

Antes de se tornar protagonista involuntário de uma das maiores trapalhadas diplomáticas recentes, Eduardo Bolsonaro acreditava comandar um projeto político global para acabar com o STF e seu inimigo jurado, Alexandre de Moraes. Entre emendas, viagens e bravatas internacionais, tentou vestir o terno da influência — e acabou descobrindo que o mundo real não tem paciência para delírios tropicais. A ambição era grande, mas a execução parecia um roteiro de improviso com orçamento de figurante.

A trajetória foi sendo registrada, como quem acompanha uma crônica de autossabotagem em tempo real, desde as planilhas de orçamento às notas diplomáticas, que Eduardo Bolsonaro vinha escalando degrau por degrau rumo ao próprio isolamento. E a cada tropeço, o mito de eficiência evaporava, deixando no ar apenas o barulho do marketing político.

O enredo ganhou contornos de tragédia doméstica quando o próprio pai, Jair Bolsonaro, decidiu se afastar. Em público, afirmou não concordar com o que o filho vinha fazendo — frase simples, mas fatal. A lealdade familiar, que sempre sustentou o enredo bolsonarista, se rompeu no palco certo: o da exposição internacional. Eduardo não perdeu apenas o crédito político, perdeu o fiador.

O Pix que não pingou

As emendas Pix nasceram como promessa de eficiência: transferências diretas da União para municípios, sem burocracia, com ares de revolução contábil. Na prática, viraram atalho para barganhas políticas embaladas em discurso de agilidade. Eduardo Bolsonaro tentou surfar nessa onda, vendendo a imagem de um parlamentar “eficiente”, capaz de irrigar prefeituras e fidelizar aliados.

O problema é que das seis emendas que apresentou, cinco foram barradas por falta de detalhamento. Eram repasses com endereço indefinido, justificativas frágeis e tecnicamente inviáveis. Brasília chamou de falha; a Controladoria, de descuido. No subtexto, ficou a velha marca do improviso.

A história ganhou ar de tragédia farsesca: o deputado, que se dizia guardião da moral pública, tropeçou em planilhas mal preenchidas. Enquanto os prefeitos esperavam o dinheiro, o Tesouro esperava explicações. E a verba não chegou.

Eduardo reagiu como de costume: procurando culpados, e nunca o espelho. O roteiro se repetia — um erro administrativo virava teoria da conspiração. Mas dessa vez, o estrago saiu do quintal de casa.

Exportando o vexame

Incomodado com a repercussão das emendas barradas, Eduardo decidiu mudar de cenário. Cruzou o Equador com o fiel escudeiro Paulo Figueiredo, na tentativa de se projetar internacionalmente. O objetivo era impedir que Lula estabelecesse um diálogo com o novo governo republicano nos EUA — especialmente com Donald Trump, a quem o bolsonarismo ainda trata como oráculo.

Nos corredores de Washington, a dupla tentou plantar a ideia de que o Itamaraty estaria forjando uma aproximação entre Lula e Trump. Era a reedição da velha estratégia: criar ruído para capitalizar ressentimento. O problema é que lá fora o barulho não ecoa igual.

O Departamento de Estado tratou a intriga como nota de rodapé, e diplomatas americanos confidenciaram que “a desinformação foi recebida com espanto”. Traduzindo: ninguém quis brincar. A direita brasileira havia levado seu reality político para um palco onde o script não colava.

Enquanto Eduardo ensaiava manchetes, o Itamaraty consertava bastidores. E, no silêncio metódico da diplomacia, a reputação dele começava a ruir — primeiro como piada, depois como problema.

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Caricatura mostra Eduardo Bolsonaro em cena infantil com brinquedos e telefone, observando Lula e Trump dialogando ao fundo.
Ilustração gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

A direita cansou do próprio eco

Foi o senador Ciro Nogueira, presidente do PP, quem verbalizou o que muitos preferiam cochichar. “A atuação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos causou um prejuízo gigantesco para o projeto político da direita”, disse, sem dó nem verniz. O diagnóstico veio de dentro: o problema não era mais ideológico, era estratégico.

Enquanto Eduardo tentava parecer líder global, seus pares percebiam que ele virara um ativo tóxico. O deputado colecionava desgastes e entregava dividendos à esquerda. Até Lula, entre risos, disse que Eduardo era o “camisa dez do PT”, já que cada gafe dele rendia pontos de popularidade ao governo.

Para Eduardo Bolsonaro, a agonia irônica se completou quando, nas redes bolsonaristas, parte da base começou a questioná-lo como legítimo herdeiro capaz de assumir o espólio político do pai. Aquele que jurava combater o sistema já soava como peça decorativa de um enredo que envelheceu de modo constrangedor.

Foi o início da solidão política — o momento em que a retórica de “guerra cultural” se mostrou apenas ruído de fundo num cenário que voltava a exigir pragmatismo. O Brasil oficial começava a falar outra língua.

Trump, Lula e a química petroquímica

Para o desespero de Eduardo Bolsonaro, o início do ponto de virada estava por vir durante a participação do Brasil na ONU, ali tudo ganharia novos contornos. Lula discursou com a segurança de quem sabia que o microfone era planetário, e Trump, do alto da retomada republicana, resolveu estender a mão. Disse que havia “química” entre os dois — gesto improvável, mas calculado.

A cena teve efeito anestésico sobre a extrema-direita brasileira. Ver o próprio mito americano sorrindo para o inimigo petista foi demais para a digestão ideológica. O bolsonarismo descobriu, ao vivo, que afinidade diplomática vale mais do que fidelidade de palanque.

Mais tarde, Lula respondeu com o humor que falta à maioria dos analistas: “Não pintou química, pintou uma indústria petroquímica”. A piada selou o episódio com leveza e ironia, contrastando com a histeria dos que tentaram fabricar crise.

A aproximação entre os dois presidentes mostrou o óbvio que o extremismo recusa: o mundo se move por interesses, não por idolatrias. E enquanto Trump elogiava Lula, Eduardo Bolsonaro já era tratado, nos bastidores, como peso morto.

A pá de cal da diplomacia

Dias depois, o Itamaraty publicou nota conjunta com o governo americano. Mauro Vieira, Marco Rubio e Jamieson Greer assinaram o documento reafirmando laços, prometendo cooperação comercial e anunciando conversas para um encontro entre Lula e Trump “na primeira oportunidade possível”.

Foi o carimbo oficial de uma reaproximação que Eduardo Bolsonaro tentou sabotar e acabou consagrando — o diplomata acidental de uma história que o ultrapassou. A diplomacia adulta, serena e quase silenciosa, fez o que o barulho populista jamais entendeu: construir pontes sem precisar quebrar nada.

A cena seguinte beirou o tragicômico: o filho que bateu boca com o pai, rompeu em público e depois “fugiu de casa” — mesmo morando sozinho. É o cúmulo da rebeldia birrenta, o adolescente eterno que se rebela contra o espelho. A infantilidade e o egocentrismo, cultivados num mundo mágico de fantasias e perseguições imaginárias, cavaram o buraco em que ele mesmo despencou.

De Brasília a Washington, sobrou o eco. Eduardo Bolsonaro virou o símbolo involuntário de uma era em que se confundiu volume com voz, drama com protagonismo. E agora, sem plateia, descobre que o silêncio é o castigo mais adulto que existe — coisa de gente grande.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 22/10/2025
  • Fonte: Fever