Quando o racismo no turismo vira gatilho para inovação e resistência

Vivências negativas levaram Carlos Humberto a criar a Diaspora.Black, plataforma que transforma dor em inovação, formação antirracista e experiências afrocentradas

Crédito: (Divulgação)

O Dia da Consciência Negra costuma despertar homenagens, desfiles e discursos ocasionais. Para Carlos Humberto, fundador da Diaspora.Black, a data é apenas um lembrete do que ele vive todos os dias: um compromisso inegociável com a ancestralidade, com a reconstrução das narrativas negras e com a criação de espaços onde dignidade não seja exceção, mas regra.

Sua trajetória é marcada por fronteiras rompidas. Nascido em Nova Iguaçu (RJ) e criado dentro de um terreiro de Umbanda, Carlos cresceu na confluência entre espiritualidade, coletividade e resistência, valores que moldaram sua visão de mundo e, sem saber, plantaram as primeiras sementes de um futuro que cruzaria empreendedorismo, ativismo e memória.

Ainda menino, organizava excursões para vizinhos e amigos: carregava listas, combinava horários, articulava transporte e improvisava roteiros. Era o “menino das farofadas”, aquele que unia pessoas, criava vínculos e fazia do ato de viajar um gesto de comunidade. Décadas depois, ele faria exatamente a mesma coisa, só que em 18 países.

Da universidade ao racismo institucionalizado

Carlos Humberto, fundador da Diaspora.Black
Carlos Humberto, fundador da Diaspora.Black (Divulgação)

O caminho até aí não foi linear. Carlos é fruto das ações afirmativas, políticas que garantiram seu acesso ao ensino superior e a ambientes de formação antes inacessíveis para jovens negros das periferias. Sua trajetória acadêmica o levou até um Summit School em Harvard, e sua vida profissional passou por instituições como o IBGE e a Fundação Roberto Marinho.

Mas foi justamente no setor que move sonhos, o turismo, que ele encontrou a face mais explícita do racismo. Hospedado em hotéis de grandes capitais, vivia o mesmo roteiro: olhares desconfiados, perguntas invasivas, checagens de reserva dirigidas somente a ele.

“Quando eu voltava para o hotel à noite, sempre havia algum tipo de abordagem. Perguntavam se eu realmente estava hospedado ali, ou havia confusão com a reserva, e só comigo”, relembra. “Percebi que precisava existir uma empresa que treinasse profissionais para que pessoas negras não passassem por essas situações.”

A violência simbólica se somou a uma agressão ainda mais íntima. Em 2016, ao alugar um quarto de sua casa, em Santa Teresa, Carlos viveu o episódio que o marcou definitivamente. “Teve um turista que se recusou a entrar na minha casa. Foi o ápice para mim.” A ferida se transformou em resposta. A dor virou motor. Da injustiça, nasceu um projeto.

Inspiração no Green Book e o nascimento da Diaspora.Black

A história de Carlos ecoa a trajetória de Victor Hugo Green, o carteiro norte-americano que, na década de 1930, criou o Green Book, guia que indicava lugares seguros para viajantes negros durante o apartheid racial nos Estados Unidos.

Assim como Green, Carlos entendeu que informação, cuidado e pertencimento salvam vidas, e que o turismo pode ser uma ferramenta de emancipação coletiva.

Com o apoio de parceiros e uma rede de pessoas que acreditavam na potência do projeto, nasceu a Diaspora.Black, plataforma que une tecnologia, cultura afrocentrada, memória e experiências turísticas fundamentadas em narrativas negras.

Hoje, a empresa opera em mais de 18 países, oferecendo vivências que resgatam histórias silenciadas, valorizam territórios culturais e formam profissionais para um turismo antirracista, algo que o setor ainda não oferecia estruturadamente. “A Diaspora.Black nasce de uma dor, mas se transforma em uma potência. Nosso papel é reconstruir narrativas e gerar oportunidades a partir da ancestralidade e da inovação”, resume Carlos.

Do ativismo à construção de futuro: o impacto de uma plataforma global

A força da Diaspora.Black está em sua capacidade de articular dois campos muitas vezes tratados como opostos: memória e inovação. Em cada experiência, roteiro ou curso ofertado, existe uma pedagogia do cuidado que devolve às pessoas negras o direito de circular, pertencer e existir sem medo.

A plataforma não vende apenas viagens, ela oferece reparação simbólica, constrói autoestima, reescreve geografia e memória e entrega ao Brasil e, ao mundo, uma nova forma de pensar o turismo e o impacto social.

Consciência Negra todos os dias

Diaspora.Black
(Divulgação)

No Dia da Consciência Negra, a história de Carlos Humberto e da Diaspora.Black se torna ainda mais emblemática. Ela lembra que o racismo não é uma estatística, mas uma experiência que atravessa corpos e trajetórias. E que empreender, para pessoas negras, muitas vezes não é uma escolha econômica, mas um gesto de sobrevivência.

A plataforma segue expandindo, conectando territórios, formando profissionais, inspirando coletivos e fortalecendo a circulação de saberes afrocentrados no mundo. Mais do que uma startup, a Diaspora.Black é uma construção de futuro, e um modelo de como a tecnologia pode servir à ancestralidade, e não apagá-la. É também a prova viva de que transformar dor em potência não é retórica, é política, é estratégia, é memória e, é legado.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 18/11/2025
  • Fonte: Fever