Dia Mundial de Conscientização do Autismo
Desafios e avanços na inclusão de crianças com autismo no Brasil
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 02/04/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A neurocientista e biomédica Emanoele Freitas, residente em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, observou sinais de dificuldades de comunicação em seu filho, Eros Micael, quando ele completou dois anos. Após um diagnóstico inicial incorreto de surdez profunda, exames realizados aos cinco anos revelaram que Eros não tinha problemas auditivos, mas sim um diagnóstico de autismo. “Naquela época, o tema não era amplamente discutido”, relata Emanoele sobre a trajetória de seu filho, que atualmente possui 21 anos.
Classificado como nível 3 de suporte dentro do espectro autista, Eros enfrentou sérios obstáculos durante sua vida escolar, frequentando instituições até os 15 anos. A mãe destaca que inicialmente matriculou o filho em uma escola particular, mas a transição para uma escola pública proporcionou melhores condições de aceitação e suporte profissional. “Na escola pública, encontrei profissionais dispostos a desenvolver um trabalho mais focado nas necessidades dele”, acrescenta.
Eros teve dificuldades em se integrar em salas de aula regulares devido ao comprometimento cognitivo acentuado. Para sua inclusão escolar, foi necessário contar com mediadores educacionais que o ajudassem no processo de aprendizagem. “Ele não tinha condições de permanecer em uma sala comum e foi direcionado para uma sala multidisciplinar”, explica Emanoele.
A inclusão educacional e a alfabetização de crianças e adolescentes no espectro autista representam desafios significativos para a garantia dos direitos dessa população. Em 2 de abril, Dia Mundial de Conscientização do Autismo, promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU), é um momento para disseminar informações sobre essa condição do neurodesenvolvimento e combater o estigma associado.
Luciana Brites, psicopedagoga e diretora-executiva do Instituto NeuroSaber, esclarece que o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é caracterizado por déficits na interação social e na comunicação verbal e não verbal, além de comportamentos repetitivos. Sinais indicativos do autismo podem ser percebidos já aos dois anos, sendo o diagnóstico precoce crucial para o tratamento adequado. Luciana destaca que algumas crianças podem apresentar dificuldades significativas na comunicação mesmo que consigam falar.
De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), as apresentações do TEA são categorizadas em níveis que variam conforme a necessidade de suporte: nível 1 (necessidade mínima), nível 2 (necessidade moderada) e nível 3 (necessidade substancial).
A psicopedagoga também enfatiza que a alfabetização é viável para muitas crianças autistas. A inclusão no ensino regular representa um grande desafio para as escolas, exigindo formação adequada dos educadores. O planejamento pedagógico deve considerar a individualidade dos alunos e implementar adaptações conforme necessário.
Luciana sugere atividades que estimulem a consciência fonológica em crianças autistas. Exemplos incluem exercícios com sílabas ou rimas que ajudem a criança a reconhecer sons e padrões linguísticos. Apesar das dificuldades enfrentadas na alfabetização, muitas crianças conseguem identificar palavras diretamente.
A especialista reitera que a inclusão eficaz depende da colaboração entre famílias, instituições educacionais e profissionais da saúde. “O papel do professor é fundamental, mas é essencial que haja capacitação adequada para lidar com diferentes necessidades”, conclui Luciana.
Isabele Ferreira da Silva Andrade é moradora da Ilha do Governador e mãe de dois filhos com autismo: Pérola, de sete anos, e Ângelo, de três anos. Ela relata que Pérola apresentou sinais precoces de atraso no desenvolvimento da fala e comportamento isolado. Após orientação médica, começou a buscar acompanhamento psicológico e terapias específicas. No caso de Ângelo, houve um retrocesso significativo após seu primeiro ano de vida.
Ambas as crianças estão inseridas em ambientes educacionais adaptados às suas necessidades; Pérola frequenta uma turma regular com suporte especializado enquanto Ângelo está em uma creche municipal com outras crianças autistas.
A história familiar também revela questões mais amplas sobre o autismo: Isabele descobriu que seu pai também era autista após o diagnóstico da filha mais velha.
Em termos de políticas públicas, o Ministério da Educação (MEC) implementa desde 2008 a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. O MEC reafirma seu compromisso com a inclusão educacional como parte fundamental dos direitos das pessoas com deficiência, buscando promover um ambiente escolar que respeite as diversas formas de comunicação e interação social.
O ministério destaca a importância da identificação das barreiras à escolarização e propõe planos para enfrentá-las por meio do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Embora 36% das escolas contem com salas multifuncionais dedicadas ao apoio inclusivo, desafios persistem na implementação efetiva dessas políticas no cotidiano escolar.