Desigualdade de gênero adoece mulheres nas empresas

Ansiedade, dupla jornada e preconceito estrutural reduzem bem-estar, travam carreiras e expõem falhas nos modelos de gestão corporativa

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A desigualdade de gênero no mundo corporativo ainda gera impactos profundos na saúde e no desempenho das mulheres. Segundo o Check-up de Bem-Estar 2025, realizado pela Vidalink com mais de 11 mil profissionais, sete em cada dez mulheres sofrem com ansiedade ou desmotivação frequente, um número bem maior que o registrado entre os homens. Um dos grandes vilões é a dupla jornada, que afeta 38% das mulheres. Para Magali Frare Corrêa, executiva da Vidalink, esse acúmulo de tarefas prejudica não só a qualidade de vida, mas também o sentimento de que aquela profissional realmente pertence à empresa.

Para Taty Nascimento, especialista em liderança inclusiva, o problema não é individual, mas do sistema.

“Quando a maioria das mulheres relata ansiedade, angústia ou desmotivação, não estamos falando de fragilidade individual, mas de uma falência sistêmica na forma como o trabalho é organizado e liderado. A pergunta não deveria ser o que há de errado com elas, mas o que há de errado com os modelos de gestão provocado pela desigualdade de gênero”, afirma.

Desigualdade de Gênero e impacto na saúde corporativa

Burnout - Jornada 6X1 - escala 6X1
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Apenas 21% das mulheres se dizem satisfeitas com o próprio bem-estar, e são elas que mais correm atrás de cuidar da mente, seja com terapia ou medicação. Magali aponta que existe uma contradição nesse cenário. “É um paradoxo, pois mesmo sendo as que mais procuram ajuda, as mulheres continuam enfrentando barreiras estruturais para equilibrar suas responsabilidades e evoluir na carreira. A liderança precisa reconhecer que equidade não é um tema periférico, mas um fator estratégico de saúde organizacional”, destaca.

Essa pressão aumenta em fases específicas, como na menopausa. Segundo a pesquisa “Experiência e Atitudes na Menopausa”, da empresa farmacêutica Astellas, 47% das mulheres brasileiras sentem que sua carreira é prejudicada pelo preconceito que envolve esse período, um reflexo expressivo da desigualdade de gênero. Por causa dessas dificuldades, muitas acabam recusando promoções ou até deixando o emprego. Magali explica que isso é ruim para todos, pois as empresas perdem talentos e inovação. Taty Nascimento complementa que a cultura da disponibilidade total favorece apenas quem pode delegar os cuidados da casa para terceiros. “Modelos tradicionais de performance, que valorizam o esforço teatral e a disponibilidade 24 horas por dia, sete dias por semana, são inequitativos por natureza. Eles premiam quem pode terceirizar o cuidado e penalizam quem precisa conciliar carreira com casa, filhos, idosos ou outras responsabilidades, grupo em que as mulheres são maioria”, avalia.

Burnout - Saúde Mental - Estresse - Ansiedade - Tristeza - Desigualdade de Gênero
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A solução, segundo Taty, é trocar a valorização da presença pela entrega de resultados reais. Ela defende que os líderes protejam o tempo das equipes e tratem o bem-estar como uma meta de sucesso. Para ela, equidade em performance implica reconhecer que eficiência não é estar disponível o tempo todo, mas entregar com qualidade em um contexto de vida real, especialmente para as mulheres. Magali complementa dizendo que o custo de abrir mão da saúde pelo trabalho é alto demais e que o equilíbrio é o que garante o engajamento de verdade.

“Tenho visto, na prática, que quando gestores promovem segurança psicológica para endereçar esses desafios, as equipes se tornam mais abertas, colaborativas e produtivas. Esse é um investimento que retorna rapidamente ao negócio”, relata Magali. Ela reforça que cuidar das pessoas e lutar contra a desigualdade de gênero deve ser uma prática diária, e não apenas um discurso bonito. “Os dados deixam claro que as mulheres estão mais sobrecarregadas e menos satisfeitas com o próprio bem-estar. Reconhecer essa realidade é responsabilidade da liderança. Mas transformar esse reconhecimento em ação é o que diferencia empresas que cuidam de suas pessoas daquelas que apenas falam sobre cuidado”, afirma.

Quando o bem-estar deixa de ser prioridade nas empresas

Saúde Mental no Trabalho - Desigualdade de Gênero
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Na prática, isso exige líderes que saibam ouvir de verdade, distribuam as tarefas de forma justa e combatam qualquer tipo de preconceito que a desigualdade de gênero provoque no dia a dia. Como conclui Taty, “se os dados mostram que as mulheres seguem mais sobrecarregadas, mais adoecidas e mais expostas a microagressões e assédio, é preciso mudar a forma de gerir pessoas e de cobrar resultados das lideranças. Isso passa por colocar a equidade de gênero dentro das regras, responsabilizar gestores pelos efeitos da sua gestão, tratar o bem-estar como parte da infraestrutura do trabalho e garantir transparência com planos de ação contínuos”.

Infelizmente, essa mudança não chegou a tempo para Elaine dos Santos, moradora de Ribeirão Pires. Ela sentiu na pele o peso de uma gestão que não soube se adaptar às suas novas fases de vida. “Eu trabalhei por muito tempo em uma empresa, no começo era muito boa, bons gestores, mas minha vida foi mudando, casei, tive um filho, vieram outras responsabilidades, e ficou muito difícil conciliar tudo. Eles aumentaram minha demanda, até que eu cheguei em um nível de exaustão muito forte e preferi sair para cuidar de mim e de quem mais importa, minha família”, desabafa Elaine, mostrando que quando o equilíbrio falha, a desigualdade de gênero aparece e o custo humano acaba sendo alto demais.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 24/02/2026
  • Fonte: FERVER