Entre a culpa e o cuidado: o desafio dos pais diante da dor dos filhos
Quando o sofrimento do adolescente silencia a família: o papel dos pais no cuidado e na prevenção
- Publicado: 03/02/2026
- Alterado: 18/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Michel Teló
Assisti à peça “O Filho” e ela me atravessou em muitas camadas. Logo na cena inicial, vemos uma mãe tentando compartilhar com o pai sua preocupação em relação ao filho deles. Importante dizer que esses pais são divorciados há dois anos e o pai já está casado novamente, com um bebê recém-nascido fruto dessa nova relação. A mãe descreve mudanças sutis, porém profundas: o olhar que já não encontra o dela, a irritação sem motivo aparente, as mentiras sobre a escola e uma distância emocional que cresce sem explicação. Essa mãe não reconhece mais seu filho. E, diante disso, se pergunta onde foi que errou — se falhou, se não foi suficiente, se poderia ter evitado aquele sofrimento. A culpa, que tantas mães carregam por acharem que nunca fazem o suficiente pelos filhos, parece ganhar força e validação no comportamento dele.
Essa sensação é mais comum do que parece. Quando um adolescente começa a sofrer, é frequente que pais — especialmente as mães — sintam que falharam. O sofrimento emocional na adolescência não costuma se apresentar de forma direta. Ele raramente chega como um pedido explícito de ajuda. Ele se mostra em comportamentos. Embora eu não queira me aprofundar especificamente no caso do adolescente retratado na peça, mas sim no papel dos pais diante de situações assim, é inevitável abordar brevemente o ponto de partida.

De acordo com a OMS, a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes, e o suicídio é a terceira causa de morte nessa faixa etária. Há inúmeras razões para que um adolescente enfrente um quadro depressivo: mudanças físicas intensas, conflitos emocionais, pressões sociais e a busca por identidade tornam esse período especialmente vulnerável.
Na peça, o filho entra em depressão dois anos após a separação dos pais. A psicóloga Judith Wallerstein, em um estudo clássico sobre divórcios, identificou que muitas crianças continuam enfrentando crises emocionais significativas mesmo anos depois da separação, algumas apresentando piora em relação ao período anterior. Ela ressalta que o divórcio em si não é o problema, mas o ambiente tóxico que, muitas vezes, se instala após ele: disputas prolongadas, rivalidade entre os pais e colocar o filho no centro do conflito. Esses fatores impactam profundamente a saúde mental da criança e intensificam a sensação de ruptura familiar.
É nesse ponto que muitos pais se sentem perdidos. Querem ajudar, mas não sabem por onde começar. Na peça, isso aparece de forma tocante: o pai, tomado pela frustração e pelo desespero de não compreender o que acontece com o filho — e já sem saber como tirá-lo daquela dor — acaba reagindo com agressividade, como se a força pudesse romper o silêncio ou fazê-lo “reagir”.
Na vida real, essa cena se repete de outras formas. Os pais percebem o afastamento, a irritação, o quarto que vira refúgio. Tentam recuperar o controle impondo limites rígidos ou comparando com a própria adolescência. É comum que adolescentes ouçam frases como: “na minha época eu não tinha tempo pra isso!” ou “sua vida é ótima, não entendo por que está assim”. O resultado, quase sempre, é o oposto do desejado: a distância aumenta e o sofrimento se recolhe ainda mais para dentro.
O acolhimento é muito mais sobre ouvir do que sobre encontrar respostas. Não se trata de buscar soluções imediatas, mas de criar um espaço onde o outro possa existir sem medo de decepcionar. Às vezes, o que o adolescente mais precisa é de alguém que suporte sua dor sem transformá-la em culpa.
Muitos jovens já carregam a sensação de não serem bons o bastante — de falharem nas expectativas dos pais, de nunca fazerem “o suficiente”. Quando as cobranças aumentam, esses sentimentos tendem a se intensificar.

Do outro lado, há a culpa dos pais, que se sentem incapazes de compreender ou ajudar. Na tentativa de acertar, acabam afastando ainda mais aquele adolescente.
Os sinais que os pais devem observar
Se você é mãe ou pai e percebe mudanças de humor constantes, queda no rendimento escolar, isolamento, alterações no sono ou na alimentação, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas — é o momento de estar presente. Esses são sinais que merecem atenção.
Buscar ajuda profissional não significa rotular o filho, mas oferecer a ele um espaço de cuidado. É um gesto de amor, não de falha, e não significa que você, como mãe ou pai, não é suficiente. O que realmente ajuda não é a perfeição, mas a presença. O tratamento precoce aumenta significativamente as chances de recuperação e reduz riscos associados à depressão.

A peça termina com um silêncio que fica na plateia — o mesmo silêncio que muitas famílias vivem sem saber como preencher. Talvez o maior aprendizado seja lembrar que estar presente não significa ter todas as respostas, mas continuar perto mesmo quando não se entende tudo.
O amor dos pais nem sempre impede a dor dos filhos, mas pode ser o lugar onde ela encontra nome e cuidado.
(Artigo de Nathalia Melo (CRP 06/179189), psicóloga, atua com Terapia Cognitivo-Comportamental)