Deputados eleitos gastam de R$3,05 a R$17,61 por voto no ABC

Análise mostra raio-x dos gastos de campanha dos oito deputados eleitos pelo Grande ABC. A forma como o recurso foi usado também teve variação

Deputados eleitos gastam de R$3,05 a R$17,61 por voto no ABC

Crédito: Montagem ABCdoABC

Uma análise detalhada das prestações de contas dos oito deputados eleitos com base eleitoral no Grande ABC (Átila Jacomussi do PRD, Barba, Luiz Fernando e Rômulo Fernandes do PT, Carla Morando do PSD, Ediane Maria do Psol, Paulo Serra e Ana Carolina Serra do PSDB e Thiago Auricchio do PL)  revela disparidades marcantes na eficiência financeira e nas estratégias de campanha. 

Um levantamento feito exclusivamente pelo ABCdoABC cruza o total investido com a votação obtida por cada parlamentar, evidenciando como diferentes abordagens, sejam o corpo a corpo tradicional ou o tráfego pago nas redes, moldaram os custos de cada voto conquistado na região.

No topo da lista dos votos mais caros, a liderança ficou com Átila Jacomussi, que desembolsou R$ 951.835,15 para obter 54.065 votos, resultando em um custo individual de R$ 17,61 por voto. Ele é seguido por Thiago Auricchio, cuja campanha investiu R$ 878.277,37 para conquistar 59.942 votos (R$ 14,65 por voto). Curiosamente, os dois que tiveram menos votos foram os que gastaram mais para convencer seu eleitor.

O terceiro da lista é Paulo Serra, que registrou o maior orçamento absoluto do grupo (R$ 1.451.374,39 para obter 132.866 votos), com um custo de R$ 10,92 por voto.

Na outra ponta, o voto mais barato de toda a região foi o da deputada Ediane Maria, que alcançou 170.844 votos com um investimento de R$ 521.796,75, ou seja, uma média de apenas R$ 3,05 por voto. A alta eficiência financeira também marcou as candidaturas dos petistas Barba (R$ 4,26 por voto, com R$ 315.808,51 e 74.115 votos) e Luiz Fernando (R$ 4,57 por voto, com R$ 434.080,75 e 94.901 votos).

A ex-primeira dama de São Bernardo do Campo e atual deputada estadual Carla Morando investiu R$ 5,73 por voto com R$ 541.667,30 de despesa para obter 94.596 votos. Na faixa intermediária ficaram Ana Carolina Serra (R$ 7,87 por voto) e Rômulo Fernandes (R$ 9,48 por voto).

Veja a seguir como cada deputado administrou seu orçamento durante a campanha:

Átila Jacomussi gastou 21% do orçamento com advogados

Átila Jacomussi | voto no ABC
Deputado Estadual Átila Jacomussi, do PRD (foto: Divulgação)

A campanha de Átila Jacomussi registrou a maior média de custo por voto no ABC, impulsionada por uma forte aposta no trabalho presencial de rua. A maior fatia do seu orçamento foi direcionada para a turma de panfletagem e de porta-bandeiras, somando R$ 285.928,25, ou 30% do total distribuído em 186 registros de pagamentos. 

Para complementar a presença física nas cidades, o candidato destinou R$ 155.775,80 (16%) para publicidade impressa em 39 operações e R$ 67.416,00 (7%) para despesas diretas com pessoal.

Outra particularidade marcante da prestação de contas de Jacomussi foi o peso do suporte jurídico. O candidato reservou R$ 200 mil (21% do orçamento global) em apenas 2 contratos de serviços advocatícios, representando a maior proporção de gastos com assessoria jurídica entre todos os eleitos da região. Átila vem sofrendo sério revés nos tribunais, o que tem tirado o sono do político.

Além disso, a campanha despendeu R$ 30.630,46 com combustível ao longo de 247 lançamentos, o que representa uma média de R$ 124 por lançamento  (ou 20 litros de combustível em cada pagamento). Outros R$ 30 mil foram gastos com contabilidade.

Em contrapartida, a presença digital paga teve papel marginal na conquista dos seus 54.065 votos. A despesa com impulsionamento de conteúdos digitais somou R$ 38 mil (apenas 4% da verba total em 8 aportes), demonstrando uma estratégia que priorizou a panfletagem, os cabos eleitorais e a defesa jurídica em detrimento do tráfego pago nas redes sociais.

Thiago Auricchio gastou quase metade do dinheiro com pessoal de rua

Thiago Auricchio | voto no ABC
Deputado Estadual Thiago Auricchio, do PL (foto: Divulgação)

Com o segundo voto no ABC mais caro do grupo, Thiago Auricchio estruturou sua campanha com foco maciço na contratação direta de equipe. O maior item de sua prestação de contas refere-se a despesas com pessoal, que consumiram R$ 365.940,00 (42% de todo o orçamento) em 120 contratos formais de trabalho. Essa opção por uma grande força de trabalho em campo superou significativamente os investimentos em materiais de divulgação.

A logística e a comunicação visual tradicional absorveram as parcelas seguintes do orçamento. A publicidade por materiais impressos somou R$ 102.950,00 (12% da verba) em 9 contratos, enquanto a locação de veículos representou R$ 96 mil (11%) em 13 registros. A campanha também investiu R$ 35 mil em carros de som, R$ 30 mil na produção de jingles e vinhetas e R$ 30.564,00 em alimentação para toda sua força de trabalho (essa despesa é curiosa, porque para sustentar 120 pessoas ao longo da campanha, o valor desembolsado com alimentação representa uma média de R$ 254,70 por pessoa para um período de 45 dias, parece pouco).

No ambiente digital, Auricchio manteve um aporte moderado de R$ 75 mil (9% do orçamento) em 9 operações de impulsionamento de conteúdo. Os serviços advocatícios somaram R$ 49,5 mil (6%) em 3 contratos, e a infraestrutura foi complementada pelo aluguel de imóveis para comitês por R$ 37 mil (4%), desenhando uma campanha altamente ancorada em capital humano.

Paulo Serra forrou as cidades com windbanners

Paulo Serra | voto
Deputado Federal Paulo Serra, do PSDB (Foto: Divulgação)

Único deputado federal eleito e responsável pela maior arrecadação e pelo maior volume absoluto de gastos entre os parlamentares analisados, o tucano Paulo Serra investiu pesado em serviços especializados de grande porte. A maior fatia orçamentária foi destinada a serviços prestados por terceiros, totalizando R$ 453.800,00 (31% do total) concentrados em apenas 3 grandes contratos, especialmente as gráficas que forneceram seus windbanners.

Essa estrutura corporativa permitiu sustentar uma campanha de grande alcance territorial na região. Ainda na primeira semana da campanha, a equipe do ABCdoABC contabilizou 140 windbanners distribuídos em uma única via (na Av. Príncipe de Gales, entre a Fundação ABC e a Av. José Antônio de Almeida Amazonas, próximo do viaduto da Acisa).

O candidato também registrou o maior investimento financeiro bruto em marketing digital do Grande ABC. Foram alocados R$ 286 mil (20% do orçamento) em 9 aportes de impulsionamento de conteúdo nas redes sociais, rivalizando diretamente com a produção de material impresso tradicional, que somou R$ 318.229,20 (22%) em 35 operações.

A logística de Paulo Serra envolveu uma infraestrutura robusta, com R$ 245 mil (17%) voltados para a cessão e locação de 16 veículos, além de R$ 51.957,20 (4%) para o aluguel de 8 imóveis. Os custos operacionais contaram ainda com R$ 25 mil para advocacia, R$ 25 mil para contabilidade e R$ 13.740,69 em combustível, divididos em 76 abastecimentos (mais generoso que Átila, Serra distribuiu 30 litros de combustível por abastecimento ou pagou mais caro na gasolina).

Rômulo Fernandes despejou dinheiro em uma gráfica

Rômulo Fernandes | voto
Deputado Estadual Rômulo Fernandes, do PT (foto: Divulgação)

A prestação de contas do petista Rômulo Fernandes revela uma forte dependência da comunicação impressa em grande escala. O candidato alocou R$ 307.192,05 (44% do seu orçamento global) na confecção de folhetos, santinhos e cartazes, registrando expressivos 116 contratos e compras de material impresso. Trata-se do maior volume individual de lançamentos desse tipo entre os deputados analisados, para alegria da Ziuloscar Gráfica Editora LTDA, responsável pela maior parte do material de campanha.

A estratégia de comunicação foi complementada pelo ecossistema digital, no qual investiu R$ 80 mil (11%) em 13 lançamentos de impulsionamento de conteúdos e mais R$ 14 mil (2%) para a criação e desenvolvimento de páginas na internet. O custeio de pessoal e mobilização direta incluiu R$ 62.048,17 (9%) para pagamentos de equipes e R$ 22.701,35 (3%) com militância de rua em 23 eventos.

Rômulo também registrou gastos com eventos de promoção da candidatura, que somaram R$ 27 mil (4%) e locação de imóveis por R$ 40.406,50 (6%) em 6 contratos. Na parte administrativa, os serviços contábeis exigiram R$ 40 mil (6%), enquanto a assessoria jurídica ficou em R$ 12 mil (2% – equivale a 6% do que seu adversário Átila gastou com advogados), demonstrando um perfil focado na panfletagem massiva acompanhada de apoio digital e eventos.

Ana Carolina Serra se beneficiou com materiais divididos com o marido

Deputada estadual Ana Carolina Serra. PSDB - Pix Pensão
Deputada Estadual Ana Carolina Serra, do PSDB (foto: Divulgação/Alesp)

A deputada estadual reeleita Ana Carolina Serra foi a mais votada do bloco regional com 132.881 votos. A esposa de Paulo Serra construiu sua campanha com base na produção industrial de material impresso, tal qual seu marido. Isso explica a desproporcionalidade de windbanners do casal Serra espalhados pela cidade. 

Quase metade de todo o seu orçamento de mais de R$ 1 milhão (exatamente R$ 484.445,60 ou 46%), foi destinada à publicidade impressa em 55 contratos. Em valores absolutos, foi o maior investimento individual em impressão entre todos os eleitos.

Para fazer a distribuição desse volume de material e gerenciar a campanha, a parlamentar alocou R$ 213.800,00 (20%) em serviços prestados por terceiros através de 3 contratos. A logística de deslocamento exigiu a locação de 14 veículos, somando R$ 145 mil (14%), além de R$ 18.346,86 alocados em combustível ao longo de 84 abastecimentos registrados.

O impulsionamento de conteúdo nas redes virtuais consumiu R$ 120 mil (11% da verba) em 10 operações digitais. A campanha ainda investiu R$ 19.417,20 (2%) em adesivos e manteve custos enxutos com assessoria jurídica (R$ 15. mil, ou 1% do orçamento) e contábil (outros R$ 15 mil), obtendo um custo unitário por voto de R$ 7,87.

Carla Morando empregou mais de 200 cabos eleitorais e mandou muita carta

Carla e Orlando Morando acompanham Tite Campanella na votação
Deputada Estadual Carla Morando, do PSD (foto:Divulgação/Redes Sociais)

Registrando uma das campanhas mais eficientes da região, Carla Morando destacou-se por uma estratégia baseada no engajamento de pessoas e ferramentas modernas de comunicação. O carro-chefe das suas despesas foi a contratação de pessoal, somando R$ 217.255,72 (40% do orçamento) para remunerar um contingente de 212 colaboradores diretos, o que representou o maior número de pessoas contratadas entre todas as prestações de contas analisadas.

Além do exército de apoiadores, a parlamentar apresentou a maior proporção de investimento em tráfego pago digital do grupo. Foram R$ 105 mil (19% do total) alocados em apenas 3 grandes aportes de impulsionamento online. Parte se justifica devido a uma denúncia surgida na última semana de campanha, em que a parlamentar teria humilhado uma servidora pública. Para se justificar, Carla Morando foi às redes sociais com o clássico formato de fundo preto e cara lavada para tentar reverter o estrago a tempo. Aparentemente a estratégia deu certo.

Outro diferencial único da sua campanha foi o uso ostensivo de serviços postais e malas diretas, totalizando R$ 55.464,65 (10%) em 9 operações junto aos Correios.

Curiosamente, o material impresso tradicional ficou em patamar secundário, somando R$ 53.195,30 (10% da verba) em 37 compras. A frota de apoio exigiu R$ 39 mil (7%) para 4 veículos e os serviços advocatícios consumiram R$ 15 mil (3%). Com essa fórmula combinada de militância remunerada, tráfego na internet e mala direta residencial, a candidata conquistou seus votos a R$ 5,73 cada.

Luiz Fernando distribuiu os ovos em várias cestas

Deputados estaduais do ABC reeleitos para o novo mandato
Deputado Estadual Luiz Fernando, do PT (foto: Reprodução)

Luiz Fernando alcançou a marca de 94.901 votos, registrando o segundo voto no ABC mais barato (R$ 4,57), fruto de uma gestão de recursos descentralizada e diversificada. A maior despesa da campanha foi com material impresso, que absorveu R$ 118.182,73 (27% do orçamento) ao longo de 75 aquisições.

O trabalho de campo teve peso equivalente na prestação de contas. O candidato destinou R$ 104.229,00 (24%) para despesas com pessoal, contratando 72 companheiros. A estrutura logística-operacional foi mantida com o aluguel de 12 veículos por R$ 49.436,10 (11%), contratos com terceiros no valor de R$ 46.800,00 (11%) e locação de 8 imóveis comitês por R$ 25.811,94 (6%).

A comunicação digital do candidato foi mantida com R$ 50 mil (12%) divididos em 2 aportes de impulsionamento. As despesas burocráticas foram enxutas, com R$ 8 mil para serviços contábeis (2%), valores residuais para combustível (R$ 8.058,34) e materiais de expediente (R$ 6.847,30 em 61 compras), resultando em um modelo equilibrado de baixo custo.

Barba fez uma campanha barata e tradicional e quase sem internet

Deputado Estadual Barba, do PT (foto: Suzana Rezende/ABCdoABC)

Com o segundo menor custo por voto do Grande ABC (R$ 4,26 por voto), o deputado, do PT, operou com o orçamento mais enxuto de todo o grupo analisado (R$ 315.808,51). A estratégia da candidatura concentrou-se quase inteiramente no marketing impresso tradicional, que absorveu R$ 198.993,55, ou expressivos 63% de todo o dinheiro da campanha em 67 notas fiscais.

A estrutura de rua foi complementada pelo uso de carros de som, categoria na qual investiu R$ 27 mil (9% do total) em 3 contratos e no aluguel de 5 imóveis de apoio por R$ 24.045,13 (8%). A contratação de equipes diretas de pessoal ficou limitada a 15 pessoas, somando R$ 26 mil (8%) e a frota contou com apenas 1 veículo alugado por R$ 16 mil (5%).

O dado mais discrepante da campanha de Barba foi a ausência quase total de investimento nas redes digitais. O candidato alocou apenas R$ 839,66 em impulsionamento de conteúdo (0,26% da verba) ao longo de toda a eleição. 

Os custos administrativos também foram reduzidos ao mínimo legal, com R$ 10 mil para advocacia (3%) e outros R$ 10 mil para contabilidade (3%), comprovando a viabilidade de campanhas tradicionais focadas em panfleto e carro de som.

Ediane Maria investiu em carisma e ainda doou para outros candidatos

Deputada Ediane Maria (PSOL-SP)
Deputada Estadual Ediane Maria, do Psol (foto: Divulgação/Alesp)

A deputada estadual Ediane Maria alcançou a maior votação e a maior eficiência financeira entre todos os eleitos analisados na região, registrando o voto mais barato da lista (R$ 3,05). A espinha dorsal da sua campanha esteve na contratação de serviços prestados por terceiros, que absorveram metade de todo o seu orçamento de R$ 259.102,04 (50%) distribuído em 26 contratos.

A estratégia de campo combinou mobilização popular e presença de rua, destinando R$ 89.537,18 (17%) para atividades de militância em 27 operações. A produção de material impresso foi altamente concentrada e enxuta, somando R$ 77.444,60 (15%) em apenas 2 grandes aquisições.

A comunicação digital seguiu a mesma linha enxuta, com R$ 33.700,00 (6%) alocados em impulsionamento de posts. O restante dos recursos foi direcionado para serviços contábeis (R$ 32.400,00; 6%), doações para outros candidatos do partido (R$ 8 mil; 2%) e carros de som (R$ 4.500,00; 1%), consolidando um modelo de votação massiva com custo unitário reduzido.

Analisando a estratégia Tradicional vs. Digital pelo voto no ABC

A discrepância nos padrões de gastos das nove campanhas vitoriosas expõe um abismo estratégico que divide a política do Grande ABC em duas grandes escolas:

De um lado, sobram candidaturas ancoradas no modelo clássico do corpo a corpo ostensivo, carros de som rodando os bairros, militância de base e produção quase industrial de santinhos. Os casos de Ediane Maria (Psol) e do petista Barba são os exemplos mais marcantes dessa força de rua e trabalho de base, provando ser possível alcançar os votos mais baratos da região no gogó, na panfletagem e na mobilização popular. Essa mesma lógica do papel e da militância física ditou os passos de Ana Carolina Serra e Rômulo Fernandes, além de Átila Jacomussi, que preferiu priorizar bandeirinhas e equipes de rua em vez de algoritmos.

Na outra ponta, consolida-se uma abordagem híbrida e altamente profissionalizada, onde a internet deixa de ser só uma vitrine e passa a ser ferramenta de gestão de crise e captação de votos. Carla Morando simboliza esse equilíbrio ao liderar o investimento proporcional em tráfego pago e mala direta postal.

Ficou muito claro também que o poder econômico faz grande diferença. Paulo Serra demonstrou como a musculatura financeira do maior orçamento do ABC consegue cobrir os dois mundos ao despejar recursos nas plataformas digitais ao mesmo tempo em que domina as ruas com centenas de windbanners.

Essa convivência de métodos mostra que não existe uma receita única de sucesso na região. A eficiência financeira depende menos do canal escolhido e mais da capacidade do candidato em ler seu eleitorado e mobilizar suas bases.

Esta reportagem foi elaborada com base nas prestações de contas oficiais declaradas pelos próprios candidatos e enviadas à Justiça Eleitoral (TSE). Todos os dados e valores citados integram registros públicos do processo eleitoral. O portal ABCdoABC mantém seus canais de comunicação permanentemente abertos para eventuais esclarecimentos, contrapontos ou manifestações de todos os parlamentares citados.

Thiago Quirino

  • Publicado: 09/10/2026 14:55
  • Alterado: 09/10/2026 15:37
  • Autor: Thiago Quirino