Entre cuidado e renda, mulheres impulsionam economia local

Levantamento do Instituto Grupo Volkswagen, obtido com exclusividade pelo ABCdoABC, mostra mulheres à frente de empreendimentos e da renda familiar em comunidades de São Paulo e Rio de Janeiro

Crédito: Suzana Rezende / ABCdoABC

Uma pesquisa sobre inclusão produtiva realizada pela Fundação Grupo Volkswagen revela que mulheres ocupam papel central na geração de renda e na organização de pequenos negócios em territórios marcados por vulnerabilidade social. O levantamento, obtido com exclusividade pelo ABCdoABC, apresenta um recorte específico sobre gênero e mostra que elas são maioria entre os empreendedores em diversas regiões analisadas.

O estudo faz parte do Plano de Potencialidades e Inclusão Produtiva, iniciativa que busca compreender as dinâmicas econômicas locais em territórios considerados prioritários para investimento social. A pesquisa analisou dados socioeconômicos e realizou entrevistas com moradores e empreendedores em regiões como Jabaquara, na capital paulista; Montanhão e Pós-Balsa, em São Bernardo do Campo; e bairros da região das Barras, em Resende, no Rio de Janeiro.

Os dados indicam que, além de liderarem negócios locais, muitas mulheres também acumulam responsabilidades familiares e tarefas de cuidado, o que evidencia desafios adicionais para quem busca empreender nesses contextos.

Segundo o levantamento, em alguns territórios a presença feminina chega a ultrapassar 80% entre os respondentes da pesquisa e também se destaca na liderança de iniciativas econômicas.

Mulheres lideram negócios e geração de renda

Infográfico pesquisa exclusiva mulheres pós-balsa, montanhão e Jabaquara. Fundação grupo Volkswagen

Os resultados mostram que mulheres são maioria entre as pessoas que responderam ao levantamento e também entre aquelas que lideram empreendimentos locais.

No Jabaquara, por exemplo, 82,8% das respostas foram dadas por mulheres, e todos os 18 empreendimentos mapeados na região são liderados por mulheres.

No território do Montanhão, em São Bernardo do Campo, 79,1% das respostas foram dadas por mulheres, enquanto 68,1% dos empreendedores identificados são do sexo feminino.

Já na região do Pós-Balsa, também em São Bernardo, 72,6% das respostas vieram de mulheres, e elas representam 51,3% dos empreendedores locais.

Em Resende, no Rio de Janeiro, a pesquisa identificou que 70% dos 120 empreendedores mapeados são mulheres, sendo a maioria delas pretas e pardas.

A coordenadora de projetos sociais da Fundação Grupo Volkswagen, Maria Ruanes Coelho, explica que a pesquisa surgiu da necessidade de compreender melhor como funcionam as economias locais nesses territórios antes da criação de projetos sociais.

“A gente precisa entender que território. A gente está falando de inclusão produtiva, mas em que momento a gente consegue entender como os negócios funcionam no território e como é a relação e a dinâmica econômica do lugar.”

Segundo ela, a iniciativa está vinculada à estratégia da fundação para o período entre 2024 e 2030, voltada ao desenvolvimento de territórios prioritários com foco em mobilidade social.

“Essa ideia está atrelada à estratégia da Fundação Volkswagen, a estratégia 2024-2030, que tem a ver com o desenvolvimento de territórios prioritários na perspectiva de mobilidade social.

Diagnóstico para orientar projetos sociais

A pesquisa faz parte de um processo mais amplo de diagnóstico territorial realizado pela instituição. O objetivo é identificar necessidades locais e orientar o desenvolvimento de projetos sociais voltados à geração de renda e oportunidades econômicas.

Segundo Maria Ruanes, o levantamento inicial utilizou dados públicos para traçar um panorama socioeconômico das regiões. No entanto, a equipe percebeu que era necessário aprofundar o conhecimento sobre o funcionamento da economia local.

“O primeiro diagnóstico não conseguiu dar conta, porque ele é um diagnóstico apenas socioeconômico, que tem uma visão geral e abrangente do lugar.”

A partir dessa constatação, surgiu a ideia de desenvolver o Plano de Potencialidades com foco específico na inclusão produtiva.

A primeira etapa do projeto foi realizada em Resende, no estado do Rio de Janeiro.

“O plano de potencialidade surgiu como um piloto na região de Resende. A gente fez uma pesquisa entrevistando mais de 500 famílias no território prioritário.”

Os resultados obtidos nessa etapa motivaram a ampliação da pesquisa para outros territórios, incluindo regiões da Grande São Paulo.

Mulheres também são maioria entre provedoras do lar

Infográfico pesquisa exclusiva mulheres pós-balsa, montanhão e Jabaquara. Fundação grupo Volkswagen

Além da liderança em atividades econômicas, a pesquisa aponta que mulheres frequentemente assumem responsabilidades centrais na manutenção financeira das famílias.

No Jabaquara, 49,8% dos entrevistados afirmaram ser a única pessoa responsável pelo sustento do lar. Entre esses casos, 45,1% são mulheres.

No território do Montanhão, o dado é ainda mais expressivo: 82,5% das pessoas que se identificam como únicas provedoras do lar são mulheres.

Na região do Pós-Balsa, 25% das mulheres entrevistadas afirmaram ser as únicas responsáveis pela renda familiar.

Os dados indicam que o empreendedorismo feminino nesses territórios muitas vezes surge como alternativa diante da necessidade de geração de renda.

Desafios do cuidado e da dupla jornada

Infográfico pesquisa exclusiva mulheres pós-balsa, montanhão e Jabaquara. Fundação grupo Volkswagen

O levantamento também evidencia a sobrecarga de trabalho de cuidado assumida por mulheres.

No Jabaquara, 45,1% das mulheres afirmaram cuidar sozinhas de outra pessoa, enquanto apenas 4,2% dos homens relataram a mesma situação.

No Montanhão, 24,9% das mulheres disseram ser as únicas responsáveis pelos cuidados com outras pessoas, enquanto 1,5% dos homens relataram a mesma condição.

Já na região do Pós-Balsa, 13,9% das mulheres afirmaram ser cuidadoras principais, enquanto 32,9% disseram dividir essa responsabilidade com outras pessoas da família.

Segundo o relatório, essas responsabilidades influenciam diretamente o tempo disponível para trabalho, formação profissional e desenvolvimento de negócios.

Interesse em educação e capacitação

Apesar das dificuldades socioeconômicas, a pesquisa mostra que há forte interesse por educação e qualificação profissional entre os entrevistados, especialmente entre mulheres.

No território do Montanhão, 65,2% das pessoas manifestaram interesse em cursos técnicos ou profissionalizantes.

No Jabaquara, esse índice chega a 53,6%, enquanto no Pós-Balsa 86,9% dos entrevistados demonstraram interesse nesse tipo de formação.

O levantamento também aponta interesse em ensino superior. Entre os participantes:

  • 56,8% no Jabaquara disseram ter interesse em cursar faculdade
  • 60,2% no Montanhão manifestaram a mesma intenção
  • 48,8% no Pós-Balsa também demonstraram interesse

Em Resende, 64,5% dos empreendedores que ainda não cursaram ensino superior afirmaram que desejam ingressar em uma graduação.

Outro destaque da pesquisa é o interesse por capacitação digital.

Nos territórios analisados na Grande São Paulo, mulheres relataram maior interesse em desenvolver habilidades relacionadas a tecnologia e marketing digital. No Pós-Balsa, o interesse geral por habilidades digitais chegou a 96,4%.

Vulnerabilidade social ainda é realidade

Infográfico pesquisa exclusiva mulheres pós-balsa, montanhão e Jabaquara. Fundação grupo Volkswagen

Os dados também evidenciam níveis significativos de pobreza e vulnerabilidade nos territórios pesquisados.

No Montanhão, 26% das famílias vivem em situação de extrema pobreza, enquanto 22,1% estão abaixo da linha de pobreza.

No Jabaquara, 22,5% das famílias estão em extrema pobreza, e 10% vivem em situação de pobreza.

Já no território do Pós-Balsa, os índices são ainda mais elevados: 33,5% das famílias estão em extrema pobreza, e 26,2% vivem abaixo da linha de pobreza.

Quando se observa especificamente o recorte feminino, a pesquisa aponta que:

  • 19% das mulheres no Jabaquara vivem em extrema pobreza
  • 16,4% das mulheres no Montanhão estão nessa condição
  • 29,3% das mulheres no Pós-Balsa vivem em extrema pobreza

Redes comunitárias e liderança local

Além dos dados quantitativos, a pesquisa também dialoga com lideranças locais e iniciativas comunitárias presentes nos territórios.

Uma das pessoas ouvidas pela reportagem foi Rosa Maria de Souza, moradora do Montanhão, em São Bernardo do Campo.

Conhecida na região como Tia Rosa, ela atua há mais de duas décadas na associação de bairro e desenvolve projetos sociais voltados principalmente para educação e apoio a mulheres.

Ela conta que chegou ao território ainda criança, na década de 1980.

“Eu tô aqui no território desde 1984. O nosso território se deu o nome de bairro Cafezais devido aos pés de café plantados pelo meu avô.”

Ao longo dos anos, Tia Rosa passou a desenvolver iniciativas sociais voltadas à educação e ao acolhimento de moradores.

“O acolhimento faz parte da minha vivência e é assim que eu levo a vida, podendo acolher pessoas e principalmente as mulheres.”

Histórias de superação e atuação comunitária

Tia Rosa montanhão
Tia Rosa. Foto: Reprodução

A líder comunitária também relata que sua atuação social começou após experiências pessoais marcadas por violência doméstica e dificuldades financeiras.

“Eu voltei numa situação muito vulnerável, eu voltei oprimida, agredida, com cinco B.Os [Boletins de Ocorrências] de tentativa de espancamento mesmo.”

Ela retornou ao território com duas filhas e passou a se dedicar ao trabalho comunitário.

“Levantei a cabeça e comecei a fazer coisas que outras mulheres, infelizmente, oprimidas não fazem. Que é lutar pela minha vida e pela vida de outros.”

Entre as iniciativas desenvolvidas na associação estão atividades educacionais, cursos e ações culturais.

Aqui a gente tem uma biblioteca. O meu sonho de consumo é transformar esse ponto em um ponto de cultura.”

Quando as mulheres avançam, o território também muda

Maria Ruanes Coelho. Foto: reprodução

Ao final das entrevistas concedidas à reportagem, duas das mulheres ouvidas deixaram mensagens voltadas diretamente a outras mulheres que vivem em contextos semelhantes de vulnerabilidade.

Maria Ruanes Coelho destacou que discutir inclusão produtiva também exige olhar para desigualdades estruturais da sociedade brasileira. Ao comentar qual mensagem deixaria para outras mulheres, ela citou a filósofa e ativista Angela Davis.

“Eu acho que sou uma mulher preta, uma mulher travesti, eu acho que eu não posso falar qualquer coisa e pensar em qualquer coisa se não me referenciar na Angela Davis que fala quando as mulheres pretas que são a base da pirâmide se movimentam, toda a estrutura se movimenta.”

Ela afirmou que essa reflexão ajuda a compreender o impacto coletivo das lutas conduzidas por mulheres em contextos de desigualdade.

“Se a gente está falando de uma sociedade onde subjugam mulheres negras na base, enfim, e mulheres negras que estão lutando pelos seus filhos que morrem, pelos seus filhos que não têm acesso à educação, estão lutando por direitos básicos.”

No Montanhão, Tia Rosa também deixou uma mensagem direcionada a outras mulheres.

“O recado eu acho que eu levaria pra todas as mulheres: se amem, não deixem de se amar, não deixem de viver, não deixem de se olhar no espelho, foca nos sonhos, busca o que te acrescenta como uma pessoa melhor.”

Ela também ressalta a importância de refletir sobre escolhas ao longo da vida.

“Mas também que nas atitudes delas, elas não venham a fazer coisas que venham a arrepender futuramente.”

As duas falas, vindas de contextos diferentes, um ligado à gestão de projetos sociais e outro à atuação comunitária, apontam para uma mesma direção: o fortalecimento das mulheres como parte central de processos de transformação social e econômica nos territórios onde vivem.

  • Publicado: 07/03/2026
  • Alterado: 07/03/2026
  • Autor: 07/03/2026
  • Fonte: ABCdoABC