Atena desconstrói a vingança em suspense brutal e sem redenção
Mel Lisboa estrela thriller psicológico que questiona os limites entre dor, justiça e violência em um país de cicatrizes abertas
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 28/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Após passagens por diversos festivais e premiações, estreia hoje (31), o longa “Atena”, dirigido por Caco Souza, mesmo realizador de “400 contra 1 – Uma História do Crime Organizado”, que aqui aborda temas como abuso e justiça com as próprias mãos, ao mergulhar o espectador num thriller de suspense atmosférico que revela, sob camadas de névoas e luzes urbanas da cidade de Gramado, no Rio Grande do Sul, um insistente desejo de vingança.
O texto da trama tem a assinatura de Enrico Peccin, e reflete o lado oculto do interior do sul do país, e que de acordo com o próprio roteirista, trata-se de uma história parcialmente baseada em um amalgama de relatos de amigos e pessoas próximas. A narrativa acompanha a protagonista Atena, encarnada pela atriz Mel Lisboa (Coisa Mais Linda), que faz o trabalho de camadas e forte intensidade, ao interpretar uma mulher atormentada por fantasmas do passado que decide ir em busca do paradeiro de seu pai e abusador desaparecido, ao mesmo tempo em que se arrisca durante noites a fio, servindo de isca para capturar predadores sexuais.
A narrativa cinza de Atena, traz na figura do ator Thiago Fragoso (Salve-se Quem Puder), uma espécie de side-kick (“ajudante do herói” em tradução livre), na pele do jornalista-investigativo Carlos, que ao lado de Atena (Mel Lisboa), tem a árdua missão de seguir avançando neste suspense policial, ao passo em que desvendam um amargo quebra-cabeça, que quanto mais se desnuda, mais revela-se um caminho sem volta numa teia de acontecimentos macabros.
Em meio aos festivais pelo Brasil e no mundo, Atena acabou entrando para a lista de selecionados pela Mostra Competitiva de Longa-Metragem da 17ª edição do Los Angeles Brazilian Film Festival (LABRFF), nos Estados Unidos, com uma indicação na categoria de “Melhor Ator” para a performance do ator Thiago Fragoso. Por aqui o longa abocanhou ainda os prêmios de “Melhor Filme”, “Montagem” e “Roteiro” no Festival Cine Santo André, além de receber o reconhecimento como “Melhor Trilha Sonora” e “Melhor Ator Coadjuvante”, no Festival Bananeiras de Cinema (II FEBANCINE).
Acerca dos prêmios, o diretor falou em entrevista exclusiva para o Portal ABC do ABC, sobre a importância não apenas no suspense como gênero em um país tão acostumado com as comédias, mas também destacou o valor do reconhecimento em premiações.
“É importante para nós como realizadores ter esse tipo de reconhecimento, tanto nacional, como internacionalmente, depois de tanto ralar é gratificante ser percebido como merecedor desse tipo de chancela, que de certa forma avalizam o nosso trabalho. […] Nosso cinema pode explorar tanto o suspense, drama, comédia, como terror […] o importante é que nós possamos produzir bons filmes dentro da nossa realidade e contexto”, avaliou o diretor.
Montagem crua e protagonista entre caça e caçadora
Pela ótica como condução, em Atena o diretor Caco Souza procura trabalhar resgatando momentos de brutalidade ao utilizar recursos como flashs de “lembranças esfumaçadas”, que se misturam a momentos atuais, tudo em meio a uma atmosfera fria e de constante perturbação.
Ao mesmo tempo, Atena aposta em uma edição crua e de cortes secos, dessa forma, justifica suas decisões em uma montagem “áspera”, que conferem a trama um elevar de tons em um realismo mais “cru”, e de perturbação constante da protagonista e anti-heroína — que ora se alterna entre “medo persecutório”, ora se transmuta numa corajosa caçadora — para novamente virar uma presa, que conforme a trama avança, aumentam mais as chances de torná-la a qualquer momento a próxima vítima.
Atena traz participações como a do ator Lui Mendes (Solteira Quase Surtando), figurinha carimbada das novelas da rede Globo no personagem Cabral, como detetive de polícia. O elenco de apoio, conta ainda com um núcleo regionalizado de atores que não fingem ser do sul, além de entregar um importante destaque para o ótimo trabalho do ator Gilberto Gawronski, para seguir sem spoilers.
Justiça pelas próprias mãos e o risco da alegoria
A direção possui o olhar atento de Caco Souza, que vindo de uma comédia seguida de um suspense (“Solteira Quase Surtando” e “Até a Noite Terminar” respectivamente), mas que aqui constrói uma atmosfera refletida em um universo bem particular da protagonista, quase onírico por entre névoas e um trauma reprimido que se soma a uma sede de vingança. Assim, esta deusa Atena — ainda em formação —, sem experiência bélica, age por instinto, de modo a partir quase cega em uma jornada inconsequente nesse acerto de contas, mas não se engane, isso é um acerto. Em um ritmo frenético, direção e atriz constroem uma deusa-menina que se vê obrigada a virar justiceira, e instintivamente carrega uma “fúria sensível” no lidar com uma alcateia de predadores sexuais em pele de cordeiro.
Sob a batuta de Caco, este suspense policial de tirar o folego, é construído em planos curtos, de movimentos de câmera brutos, no acompanhar de uma protagonista que vagueia pelas ruas escuras ao revelar um outro lado da cidade turística de Gramado, onde vemos um misto de cerração desertas, passando por caminhos escuros e mal iluminados. A fotografia de Atena é assinada por Juliano Dutra, que propõe um exercício de sombras com o uso recorrente do azul e o cinza transmitindo a frieza silenciosa de uma cidade acostumada as luzes e badalação, mas que aqui entrega o cinismo conivente embalado na indiferença de nossas autoridades policiais.
O mais novo longa de Caco, opta por uma estética rústica na abordagem de um relato real, mas embebida sob uma carga dramática bem mais onírica do que de costume, entretanto, não menos pesada, bem pelo contrário. O suspense confere-nos uma tonalidade suja e amarga de nossa insistente realidade, trazendo ao espectador cenas de violência, misoginia e trauma familiar, seja no vai em vem de uma esposa que denuncia, e rapidamente volta para o agressor, ou mesmo pela indiferença das autoridades e sua parcela de responsabilidade por certas chagas emocionais que podem levar décadas para curar.
Catarse, brutalidade e o silêncio que não se cura
Para a atriz Mel Lisboa em uma fala exclusiva ao Portal ABC do ABC, a sétima arte serve como conexão, afim de trazer maior aproximação entre público e a realidade, de modo que, deve-se sim reconhecer o valor do papel artístico não apenas na obra fílmica, mas ao mesmo tempo compreender que um comportamento violento não pode servir de resposta ou justificativa para mais violência.
“A arte possui uma característica que é muito poderosa, de tocar e sensibilizar as pessoas por uma outra vertente, que não a da realidade nua e crua, e que […] junto a uma série de outras informações, [dados] ou números, muitas vezes faz com que nós não tenhamos o envolvimento que um caso mereceria”, reflete a atriz e protagonista de Atena.
No longa, a personagem mergulha em uma busca implacável por justiçamento, como modo de resolução de seus traumas, se metendo em situações de extremo perigo, mas faz um alerta salientando que devemos interpretar a personagem, como figura alegórica:
“Atena é uma anti-heroína, mas não é assim que [as coisas] deveriam se resolver, entretanto, é compreensível que a personagem queira agir [dessa forma], mas espero que sirva como reflexão, e não no sentido de encorajar que as mulheres façam o mesmo”, avalia.

Mesmo assim, o tema “vigilantismo” é quase sempre carregado de polêmica, ainda que encontre abrigo em justificativas na violência doméstica, vista em casos como o de Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o marido. E neste escopo, elenco e direção de Atena concordam ao afirmar que não há meio-termo, “o filme é a alegoria de um tema absolutamente escandaloso e brutal”, opina o ator Thiago Fragoso. Na esteira consonante, a avaliação do diretor Caco Souza é de que o melhor caminho esteja na missão de “abrir uma discussão mais ampla de como lidar um problema seríssimo, [até porque] Atena é um personagem de ficção, então eu prefiro que fique na ficção”.
“Eu espero que a nossa busca seja sempre por justiça por meio de nossos trâmites legais, então [essa história de lidar por uma abordagem] fora da curva, ou como falava o cara lá, dentro das quatro linhas e que depois vimos que não era coisa nenhuma, não dá certo”, afirmou o diretor.
Assim, Atena retira aquela paleta de cores luminosas e glamour suntuoso de Gramado, ao dar lugar as sombras do rural, de cidadezinha pequena, não tão longe a ficção do que é real, mas pela ótica do diretor brasileiro, reascende um debate sobre justiça de mãos sujas, e dos fins que justifiquem o vermelho entre os dedos. Mesmo assim, o sentimento de indignação é tão forte quanto as cores roxas em uma boca, ou talvez tão intensa como o preto pálido de braços marcados. A sua moda, a Atena escancara em uma história (infelizmente) repetida, mas sobretudo com resultados diversos acerca do preço a ser pago por longos silêncios guardados no sangue, seja familiar ou não, mas que de toda a forma, as consequências sentidas por uma vítima de agressão sexual são sempre terríveis.
Dessa forma, ao menos no campo da ficção, tanto os fãs do diretor norte-americano Quentin Tarantino têm um ponto em comum ao desejarem na obra do brasileiro Caco Souza a mesma recompensa pós desconforto. Ambos são unânimes na semelhança por aquilo que só a sétima arte poderia nos entregar, tido como tão importante, quanto a vontade torta pelo “justo” neste tipo de situação: uma audiência sedenta por justiça em tela grande, e ao menos assim, certamente poderemos ter nossa catarse com uma boa dose de vingança em um prato que ainda que se coma frio, é recheado de um tempero quente, e claro, bem brasileiro.
SERVIÇO:
Título: Atena (2023)
Gênero: Suspense Policial, Drama
Diretor: Caco Souza
Roteirista(s): Enrico Peccin
Elenco: Mel Lisboa, Thiago Fragoso, Gilberto Gawronski e Lui Mendes
Distribuidor: A2 Filmes
Duração: 85 min