Entenda a operação da PF que afastou Marcelo Lima e expôs corrupção em São Bernardo

Confira tudo que se sabe sobre a ação da PF que revelou esquema milionário de propina e lavagem de dinheiro envolvendo políticos, empresários e servidores do município

Crédito: Reprodução/Facebook

A manhã de 14 de agosto de 2025 marcou um divisor de águas na política de São Bernardo do Campo. A Polícia Federal, com respaldo do Tribunal de Justiça de São Paulo e apoio do Ministério Público, deflagrou a Operação Estafeta, que atingiu o coração do poder municipal. O alvo principal: o prefeito Marcelo Lima (Podemos), foi afastado do cargo por um ano, obrigado a usar tornozeleira eletrônica e submetido a restrições de deslocamento e contato.

A ação não se limitou ao chefe do Executivo. Vereadores, empresários e servidores da alta cúpula também foram implicados em um esquema que, segundo as investigações, envolve corrupção, lavagem de dinheiro, fraude em licitações e desvios milionários em contratos públicos. A cena mais emblemática e simbólica do caso foi a descoberta de quase R$ 14 milhões em espécie, entre reais e dólares, guardados em um imóvel classificado pelos investigadores como um bunker de dinheiro ilícito.

A revelação desse esquema não surgiu de uma apuração tradicional. Ela aconteceu por acaso, durante outra operação policial sem relação direta com o prefeito Marcelo Lima, e a partir dali se desdobrou em um caso que promete ser um dos maiores escândalos políticos do ABC Paulista nos últimos anos.

O impacto foi imediato: crise administrativa, incertezas na Câmara Municipal, disputas políticas veladas e uma vice-prefeita que assume o comando em meio a dúvidas sobre sua capacidade de liderar a cidade sob tamanha pressão.

A Operação Estafeta

A Operação Estafeta nasceu de uma coincidência. Policiais federais cumpriam um mandado de prisão preventiva contra João Paulo Prestes Silveira, investigado por golpes na internet. O endereço obtido nos sistemas oficiais levou os agentes até um condomínio na Avenida Dom Jaime de Barros Câmara, em São Bernardo do Campo. No local, perceberam que o morador não era o procurado, mas sim Paulo Iran Paulino Costa, servidor comissionado da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), indicado, inclusive, por influência de Marcelo Lima.

Ao abordar Paulo Iran, os agentes descobriram que ele guardava no apartamento uma fortuna em espécie: quase R$ 14 milhões, parte em reais e parte em dólares. O dinheiro estava escondido em um escritório trancado, ao lado de documentos, planilhas e comprovantes que apontavam para pagamentos de despesas pessoais do prefeito Marcelo Lima e de seus familiares. Entre eles, boletos de cartão de crédito, mensalidades de faculdade e até serviços de personal trainer para a primeira-dama, Rosângela dos Santos Lima Fernandes.

Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Danilo Lima Operação Estafeta
Reprodução/Polícia Federal

A partir daí, as investigações sobre corrupção e lavagem de dinheiro ganharam velocidade. O desembargador Roberto Porto, da 4ª Câmara de Direito Criminal do TJ-SP, autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal de dezenas de pessoas e empresas. As conversas extraídas do celular de Paulo Iran mostravam mensagens diretas de Marcelo Lima, com frases como “vai guardando”, “anote tudo para o posterior acerto” e “encaminhe a lista do que tem para entrar para mim”.

O inquérito passou a apontar o prefeito afastado como o articulador central de um esquema de arrecadação e distribuição de valores ilícitos, com Paulo Iran atuando como operador financeiro. O modelo incluía o uso de termos cifrados e uma rede de pagamento que beneficiava políticos, empresários e servidores.

Buscas, afastamentos e prisões

Com a base probatória consolidada, a Polícia Federal deflagrou, na manhã de 14 de agosto, uma ação coordenada que cumpriu 20 mandados de busca e apreensão e duas prisões preventivas em São Bernardo do Campo, Santo André, Mauá, Diadema e São Paulo. Entre os alvos estavam residências, empresas e gabinetes ligados a Marcelo Lima e seus aliados.

O prefeito foi formalmente afastado do cargo por um ano, impedido de frequentar a Prefeitura e obrigado a portar tornozeleira eletrônica. Também foi proibido de sair de casa à noite e nos fins de semana, de manter contato com outros investigados e de deixar a cidade sem autorização judicial. O Ministério Público chegou a ser consultado sobre um pedido de prisão preventiva contra Marcelo Lima, mas opinou contra, e a Justiça acatou a recomendação.

Entre os detidos estavam o empresário Edmilson Carvalho, sócio da Terraplanagem Alzira Franco Ltda., que tinha contrato com a administração municipal, e Caio Fabbri, da Quality Medical, fornecedora de equipamentos médicos. Na casa de Edmilson, foram encontrados R$ 400 mil. Outro preso foi Antonio Rene da Silva, diretor de departamento na Secretaria de Coordenação Governamental.

O bunker dos R$ 14 milhões

O bunker encontrado por acaso tornou-se peça central da narrativa da Operação Estafeta. Nele, além dos quase R$ 14 milhões, a PF encontrou crachás de acesso à Prefeitura, planilhas manuscritas com a contabilidade do esquema e comprovantes de pagamento de despesas pessoais do prefeito Marcelo Lima.

As anotações revelavam detalhes de gastos variados: “R$ 3.430,00 boleto”, “R$ 39.445,00 apto”, “R$ 5.000,00 personal” e “R$ 5.880,00 Zana”. Para os investigadores, a precisão das cifras e a frequência dos pagamentos confirmam a função de Paulo Iran como caixa particular do prefeito.

Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Danilo Lima Operação Estafeta
Reprodução/Polícia Federal

O volume de dinheiro era tão grande que, em julho, quando o montante foi apreendido, foi necessário acionar um carro-forte para transportar os valores até a sede da Polícia Federal. A operação foi registrada em fotos e vídeos que rapidamente circularam pela imprensa, reforçando a dimensão do escândalo.

Além do valor em si, a apreensão revelou a diversidade de fontes de arrecadação, com suspeitas de desvio de contratos de obras, saúde e limpeza urbana. Segundo o inquérito, secretários municipais, vereadores e empresários participavam da engrenagem, criando uma teia de favorecimentos que se estendia a várias áreas da gestão pública.

Confira algumas imagens disponíveis no processo judicial:

Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Danilo Lima Operação Estafeta
Planilhas manuscritas registravam os pagamentos
(Reprodução/Processo Judicial)
Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Danilo Lima Operação Estafeta
Boleto e comprovante de cartão de crédito do prefeito apreendidos no chamado “bunker”
(Reprodução/Processo Judicial)
Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Danilo Lima Operação Estafeta
Credencial de acesso à Prefeitura localizada no imóvel de Paulo
(Reprodução/Processo Judicial)

Danilo Lima: Presidente da Câmara e Primo do Prefeito

O escândalo não apenas expôs uma suposta rede criminosa na administração municipal, mas também revelou conexões políticas e familiares que ampliam o alcance da crise. Entre os investigados está o presidente da Câmara Municipal, Danilo Lima Ramos (Podemos), primo direto do prefeito. As investigações indicam que ele recebeu altas quantias em dinheiro de Paulo Iran Paulino Costa, o operador financeiro apontado pela PF como peça-chave do esquema.

Interceptações telefônicas e mensagens de aplicativos mostram que Danilo Lima teria recebido valores em espécie dentro do prédio do Legislativo e por meio de transferências bancárias. Um episódio específico chamou atenção dos investigadores: a entrega de R$ 60 mil ao então deputado federal Marcelo Lima, em julho de 2024, quando ele ainda estava em campanha para a Prefeitura. O encontro, segundo a PF, ocorreu em uma adega de São Bernardo.

Marcelo Lima e Danilo Lima
Reprodução/Instagram

O inquérito descreve Danilo como parte de uma complexa rede de movimentação financeira. Essa rede teria como objetivo não apenas alimentar campanhas políticas, mas também custear despesas pessoais de figuras-chave da administração, criando um ciclo de dependência e lealdade interna.

Para investigadores e analistas políticos, a relação de confiança familiar pode ter facilitado a troca de informações e a circulação de dinheiro, tornando o rastreamento dos recursos mais difícil e aumentando a gravidade das acusações.

A ascensão e os desafios de Jéssica Cormick

Com o afastamento de Marcelo Lima, a vice-prefeita Jéssica Cormick, do Avante, assume a chefia do Executivo municipal de São Bernardo do Campo. Aos 38 anos, sargento da Polícia Militar e estreante na política, Cormick enfrenta o desafio de administrar uma das maiores cidades do estado em meio a uma das crises políticas mais graves da história local. Sua chegada ao cargo ocorre sem um histórico consolidado de gestão pública, fator que desperta apreensão nos bastidores do Paço Municipal e na Câmara.

Embora oficialmente não haja declarações de desconfiança, nos corredores da Prefeitura e do Legislativo alguns parlamentares comentam reservadamente sobre a falta de experiência política da nova prefeita. Para esses interlocutores, conduzir o município em um momento de crise exige articulação política robusta, habilidade de negociação e profundo conhecimento da máquina pública, atributos que Cormick ainda precisará demonstrar.

Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Jéssica Cormick - Operação Estafeta
Reprodução/Redes Sociais

Por outro lado, aliados acreditam que Jéssica pode usar sua trajetória militar para projetar uma imagem de disciplina, ordem e combate à corrupção, elementos que podem render capital político diante do desgaste do governo anterior. Para isso, Jéssica precisará se distanciar dos escândalos envolvendo Marcelo Lima e construir uma narrativa própria, pautada na transparência e na eficiência administrativa.

Seu mandato interino será decisivo não apenas para manter a cidade em funcionamento, mas também para garantir que serviços essenciais não sejam afetados. A capacidade de dialogar com vereadores de diferentes blocos, manter projetos estratégicos e dar respostas rápidas à população será fundamental para que Cormick se firme como liderança em meio à turbulência política desencadeada pela Operação Estafeta.

Reações no Legislativo e nos bastidores do Paço

Paço Municipal de São Bernardo
Divulgação/PMSBC

A deflagração da Operação Estafeta e o afastamento de Marcelo Lima provocaram forte impacto no Legislativo. Na Câmara Municipal, o clima inicial foi de cautela e espera por notificações oficiais. O líder de governo, vereador Julinho Fuzari (Cidadania), afirmou que ainda não havia diálogo formal entre Executivo e Legislativo sobre os próximos passos e que seguiria o regimento interno.

A vice-presidente da Casa, vereadora Ana Nice (PT), também foi pega de surpresa e afirmou que, caso precise assumir interinamente a presidência, agirá com responsabilidade. Nos bastidores, discute-se a possibilidade de convocar nova eleição para o comando da Câmara, caso se confirme o afastamento definitivo de Danilo Lima da presidência.

O impacto no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC

O afastamento de Marcelo Lima também gerou repercussões no Consórcio Intermunicipal Grande ABC, entidade formada por sete cidades que coordena políticas regionais. Pelo estatuto, o presidente do Consórcio deixa o cargo caso não esteja mais à frente da Prefeitura que representa. Com isso, o vice-presidente, Guto Volpi (PL), prefeito de Ribeirão Pires, pode assumir automaticamente.

Embora o regimento seja claro, os prefeitos das cidades consorciadas ainda avaliam o momento e estudam a transição. Volpi já declarou que seguirá o que está previsto em lei e defendeu o diálogo para garantir a continuidade dos projetos regionais.

Corrupção em São Bernardo - Marcelo Lima - Consórcio ABC - Guto Volpi - Operação Estafeta
Reprodução/Redes Sociais

A eventual mudança de liderança no Consórcio pode ter impacto direto em licitações conjuntas, obras e políticas integradas em áreas como saúde, mobilidade e segurança pública. A instabilidade política em São Bernardo do Campo, obviamente preocupa as outras prefeituras, que temem prejuízos à coordenação regional.

Com mais de 40 anos de existência, o Consórcio já enfrentou trocas de comando, mas a crise atual é considerada uma das mais complexas, pois envolve acusações graves contra um presidente em exercício e atinge também o Legislativo de sua cidade.

Movimentações partidárias: impeachment e defesa

O cenário político também se acirrou no campo partidário. O PSOL de São Bernardo do Campo anunciou que protocolará um pedido de impeachment contra Marcelo Lima e a cassação de sua chapa, argumentando que a cidade precisa de uma gestão transparente e livre de corrupção. Em nota, o partido classificou o caso como um exemplo da velha política de favorecimentos e desmandos.

Em sentido oposto, o Podemos, partido do prefeito afastado, divulgou comunicado defendendo sua conduta. A legenda afirmou confiar na lisura de Marcelo Lima e pediu prudência nas manifestações públicas, ressaltando a importância do direito de defesa.

O que está em jogo e próximos passos da investigação

A Operação Estafeta ainda está longe de seu capítulo final. As equipes da Polícia Federal seguem examinando documentos, mensagens, registros financeiros e bens apreendidos para desvendar toda a rota do dinheiro e a dimensão real do esquema. Novas quebras de sigilo, perícias e depoimentos devem ampliar o alcance das apurações e podem atingir figuras que, até agora, permanecem nos bastidores.

Mas a disputa não se limita ao campo jurídico. Politicamente, São Bernardo do Campo atravessa um momento de incerteza raro: uma prefeita interina tentando se firmar, um Legislativo pressionado a se reposicionar e partidos medindo forças para definir quem sobreviverá, ou sairá fortalecido, dessa crise.

Marcelo Lima - Corrupção - Operação Estafeta - São Bernardo
Divulgação

No fundo, o que está em jogo vai muito além de cargos ou mandatos. É sobre a confiança da população em suas instituições e a chance de se romper com práticas que, há décadas, desgastam a política brasileira. Para quem vive na cidade, o desfecho desta história não será apenas sobre culpados ou inocentes, mas sobre a capacidade de transformar um escândalo em oportunidade de reconstrução.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 14/08/2025
  • Fonte: Fever