COP30: Brasil quer adaptar SUS às mudanças climáticas

País detalha na cúpula de Belém estratégia para adaptar o sistema de saúde às novas emergências do clima.

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O Brasil apresentará uma estratégia pioneira durante a COP30, a conferência climática da Organização das Nações Unidas (ONU) sediada em Belém. O foco é adaptar o sistema de saúde nacional aos impactos severos das mudanças climáticas, o que inclui uma reestruturação profunda da rotina de hospitais e unidades de saúde para enfrentar o calor extremo.

Este novo plano analisará horários de atendimento, escalas de descanso de profissionais e até protocolos clínicos para ajustar doses de medicamentos durante picos de temperatura. Ethel Maciel, epidemiologista e representante do Brasil na conferência, que atuou como secretária de Vigilância em Saúde, destaca a urgência da medida.

se as ondas de calor se tornarem mais frequentes, os serviços precisarão se adaptar. Não é viável manter os mesmos horários de atendimento quando sair à rua entre meio-dia e quatro da tarde se torna perigoso para a população”, afirma a ex-secretária.

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O custo da inação e o “Plano de Belém”

A urgência é sublinhada por projeções da Organização Mundial da Saúde (OMS): a crise climática pode causar aproximadamente 250 mil mortes anuais entre 2030 e 2050 devido a causas como desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico. Os custos anuais associados para os serviços de saúde podem variar entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões.

Batizado de “Plano de Ação para a Saúde de Belém”, o projeto foi desenvolvido em colaboração direta com a OMS e visa mobilizar a comunidade internacional para estabelecer sistemas de saúde que sejam, ao mesmo tempo, resilientes ao clima e ambientalmente sustentáveis.

Os três pilares da adaptação climática na saúde

O plano brasileiro está organizado em três frentes fundamentais de ação:

  1. Fortalecimento da vigilância e monitoramento: Propõe a criação de um sistema integrado que cruze dados de saúde e clima. O objetivo é capacitar estados e municípios a antecipar riscos como ondas de calor, picos de poluição e a disseminação de doenças transmitidas por vetores. Ethel Maciel observa que o Brasil carecia dessa integração. “Agora temos essa ferramenta, que transforma completamente o cenário, pois informação é essencial para desenvolver políticas públicas eficazes”.
  2. Preparação dos serviços e profissionais: O segundo pilar foca em como preparar a infraestrutura e as equipes de saúde para condições ambientais extremas, com políticas baseadas em evidências. A especialista admite que o Brasil está atrasado na formação. “Os currículos das áreas médicas quase não abordam as mudanças climáticas. Apenas em 2024 foi publicado pelo Ministério da Saúde o primeiro protocolo sobre clima e saúde”. A expansão de doenças como o vírus oropouche e a dengue para novas regiões é um exemplo dessa urgência. Após uma morte trágica por calor no Rio de Janeiro em 2023, a cidade criou um protocolo de resposta. “Esse caso gerou um alerta e tornou-se uma referência nacional”, diz Maciel.
  3. Promoção da inovação sustentável: O terceiro pilar mira a cadeia produtiva do setor, reconhecido como um dos três mais poluentes globalmente. “A área da saúde consome grandes quantidades de plástico, gera resíduos excessivos e utiliza intensamente energia. É imperativo rever processos industriais e promover o uso de energias renováveis”, destaca a epidemiologista. O Brasil, segundo ela, pode liderar essa transição: “Estamos aprimorando o complexo econômico-industrial da saúde; se novas instalações industriais forem concebidas com uma pegada de carbono reduzida desde o início, o impacto será considerável”.

COP30 como laboratório e o desafio pós-evento

A versão brasileira do plano, denominada Adapta-SUS, buscará integrar essas ações adaptativas aos orçamentos de estados e municípios. O setor privado também é visto como crucial. “É necessário planejar o sistema como uma rede coesa entre os setores público e privado, considerando rotas de evacuação, estoques estratégicos de medicamentos e protocolos para situações críticas”.

A própria COP30 em Belém funcionará como um teste prático para as ações propostas. O Ministério da Saúde montou um centro dedicado à emergência sanitária para a conferência e está rodando simulações para responder a surtos, usando como laboratório eventos locais massivos, como o Círio de Nazaré.

Eventos dessa magnitude sempre apresentam riscos à saúde pública. Assim como ideias se espalham rapidamente, vírus e bactérias também podem viajar com as pessoas. Por isso estamos treinando equipes e testando fluxos desde o ano passado”, conclui Ethel Maciel, envolvida na organização da COP30.

COP30: Brasil quer adaptar SUS às mudanças climáticas
Wilson Dias/Agência Brasil

A preocupação é real. O Ministério Público Federal (MPF) já manifestou temor de um possível colapso na rede de saúde em Belém durante a COP30, que deve receber cerca de 50 mil visitantes. Ethel confirma que profissionais de outros estados foram designados para reforçar o atendimento durante a cúpula.

Após a COP30, o verdadeiro desafio será garantir que a estratégia saia do papel. “É essencial que isso se concretize nas cidades, nas instituições educacionais voltadas à saúde e no cotidiano das pessoas”, afirma. Para a especialista, o plano que o Brasil apresenta na COP30 é uma resposta necessária, pois o setor de saúde precisa evoluir junto com a nova realidade climática. “O que está em jogo é nossa capacidade contínua de cuidar das pessoas em um planeta cada vez mais quente”.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 26/10/2025
  • Fonte: FERVER