Como não ser enganado pela IA nas Eleições 2026?

Especialista em IA mapeia táticas para proteger o voto das manipulações digitais e do ecossistema de desinformação nas Eleições 2026

Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil

Você sabe identificar uma fake news, ou um conteúdo gerado por IA? Segundo dados do Instituto Locomotiva, divulgados pela Agência Brasil, quase 90% da população brasileira admite já ter acreditado em conteúdos falsos na internet.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante com a aproximação das eleições 2026 para a presidência. Uma vez que a tecnologia pode se tornar um instrumento para a disseminação de desinformação política. 

O CEO da Vortice.ai, empresa especializada em Inteligência Artificial, Giovanni La Porta, explica que o avanço tecnológico transformou as campanhas e mudou a velocidade e o custo de produção dessas mentiras.

Eleições 2026
Créditos: Gabriel Laranja

Vídeos, imagens e áudios que antes eram caros e levavam muito tempo para serem forjados, agora podem ser feitos de forma barata, rápida e com uma precisão superior. 

“As ferramentas baseadas em inteligência artificial generativa vêm evoluindo exponencialmente. O que significa isso? Elas vão ficando melhores a cada dia que passa, não mais a cada ano. Você consegue gerar conteúdos enganosos em poucos minutos “, diz o especialista. 

Essa facilidade afeta a autonomia do eleitor, que passa a acreditar em tudo que chega a ele. De acordo com Laporta, para o cidadão não ser manipulado, é preciso entender o arsenal de ferramentas disponíveis e mudar sua postura digital.

A Armadilha Psicológica do Viés de Confirmação

 Eleições 2026

A polarização política funciona como um ponto cego psicológico que sabota a nossa capacidade de avaliar um fato de forma isenta. Em cenários extremos, a inteligência artificial é usada de forma não ética para reforçar preconceitos e opiniões já existentes.

O eleitor se torna o alvo perfeito porque tende a diminuir os seus filtros de desconfiança diante de conteúdos que validem suas preferências. Giovanni Laporta detalha o funcionamento dessa perigosa dinâmica psicológica.

“A IA tem sido utilizada para reforçar opiniões. Se eu já tenho a minha própria convicção, eu vou ser uma potencial vítima daquelas pessoas que querem utilizar IA para me influenciar. Como eu já estou tendendo a acreditar naquilo que eu tenho como verdade, e chega para mim um vídeo que reforça ainda mais aquilo, eu pego e compartilho de primeira, e assumo que aquilo é verdade. O que a gente tem que fazer nas eleições agora é desconfiar e nunca compartilhar na emoção do momento”, afirma o CEO. 

De acordo com o executivo, minorias políticas mal-intencionadas se aproveitam desse cenário inflamado para espalhar mídias sintéticas fora de contexto. O objetivo principal é desestabilizar o debate e tentar induzir o voto da população a partir de falsas premissas.

Os Rastros Físicos: Como Identificar a Fraude a Olho Nu

Embora a inteligência artificial generativa consiga simular a realidade com alta fidelidade, ela ainda deixa rastros. Giovanni Laporta afirma que aprender a reconhecer esses pequenos defeitos físicos é a primeira linha de defesa do cidadão.

O especialista ensina que a fala humana e a sincronia corporal ainda desafiam os algoritmos nos vídeos manipulados. O primeiro grande sinal de alerta visual para o eleitor está no descompasso fonético do material analisado.

“A olho nu, as principais características são a voz, a boca e o som: eles vão estar um pouco descompassados. Você consegue perceber que existe uma diferença sutil entre o movimento da boca e o som que está chegando no seu ouvido. Outra coisa importante: a voz costuma ficar meio robotizada e a pronúncia pode soar estranha para quem é nativo brasileiro”, explica Laporta.

Além da audição, Laporta destaca que a anatomia das imagens geradas por computador costuma apresentar deformações em detalhes. “Você consegue ver pequenas falhas na própria imagem, como a pessoa com seis dedos, cortes de cabelo estranhos ou orelhas meio tortas”, revela o executivo.

As Quatro Armas da IA: Do Face Swap aos Gêmeos Digitais

Eleições 2026
Divulgação

A desinformação tecnológica divide-se em diferentes categorias de complexidade. Laporta faz um mapeamento essencial para que o eleitor saiba exatamente o que está enfrentando nas redes sociais, a começar pelo face swap:

“A face swap é capaz de pegar uma foto ou um vídeo existente e substituir o rosto daquela pessoa pelo de outra. Isso tem gerado muita polêmica, porque muita gente está utilizando essa técnica para pegar vídeos totalmente fora do contexto e colocar rostos de políticos e pessoas conhecidas”.

O deepfake estrutural vai além e cria cenários inteiros do zero, sem precisar de uma gravação de origem como base. Ele utiliza bancos de dados massivos para colocar candidatos em locais onde eles nunca estiveram e ao lado de pessoas que nunca viram.

O terceiro pilar é a clonagem de áudio, que exige apenas alguns minutos de exposição da voz da vítima para ser bem-sucedida. Mas o perigo máximo, segundo Laporta, reside na criação dos chamados digital twins (gêmeos digitais):

“A partir de um vídeo e de uma fala real, é possível criar um clone digital completo de você. E, a partir daquele gêmeo digital, gerar novos vídeos com scripts de coisas que você nunca falou na realidade. Seria possível gerar uma entrevista inteira com palavras falsas a partir de um texto digitado no computador”.

O Guia de Sobrevivência de Laporta para o Eleitor

Fake News. Eleições 2026
Wilson Dias/Agência Brasil

Para blindar o voto e não repassar conteúdos criminosos ou fraudulentos no WhatsApp e no TikTok, Giovanni Laporta estabelece uma cartilha prática. A regra primordial é desconfiar de qualquer conteúdo bombástico que pareça perfeito demais.

“Viu um vídeo, uma imagem ou um áudio que quer te convencer de primeira daquilo que você já acredita? Desconfie. Procure outras fontes e valide em meios de comunicação se aquela informação faz parte do contexto real daquela pessoa. Se o assunto só existir em um post isolado de rede social, investigue”.

Caso a dúvida persista, Laporta orienta o uso da própria tecnologia a favor da verdade através de softwares verificadores. O eleitor pode recorrer a sites e aplicativos que cruzam dados digitais para rastrear a manipulação.

“Existem várias ferramentas gratuitas na internet para verificação de foto, vídeo e áudio, com uma acurácia de quase 100% de acerto. Submeta o arquivo suspeito a essas ferramentas e elas vão te avisar se o conteúdo foi gerado por IA. Identificou que é fake news? Não comente, não compartilhe e denuncie”.

  • Publicado: 02/06/2026 15:44
  • Alterado: 02/06/2026 15:44
  • Autor: Daniela Ferreira
  • Fonte: ABC do ABC