CdC N57: Futuro da moda autoral em exposição no CCSP

Plataforma questiona “Qual Moda, para Qual Mundo?” e denuncia descarte têxtil na vanguarda da moda autoral brasileira

Crédito: Divulgação/Casa de Criadores

A Casa de Criadores (CdC), a plataforma que se consolidou como a principal propulsora da moda autoral e de segmentos criativos no Brasil, apresenta sua 57ª edição sob o potente questionamento “Qual Moda, para Qual Mundo?”. Mais do que um mero tema, a indagação se corporifica em uma exposição central e um ciclo de mesas redondas, integrando o calendário oficial que prevê 39 desfiles e o envolvimento de 58 marcas.

A mostra, que compartilha o espaço com a passarela na sala Flávio de Carvalho do Centro Cultural São Paulo (CCSP), torna-se um manifesto espacial. O público pode conferir as instalações de 15 estilistas da vanguarda nacional no período de 3 a 10 de dezembro, das 10h às 22h. O evento transforma o tradicional espaço de desfiles em uma galeria de crítica social, arte e invenção política.

A Crítica Radical: Da sustentabilidade à regeneração

moda autoral
Divulgação/Casa de Criadores

Sob a curadoria da artista plástica Karlla Girotto, a exposição busca ampliar o debate estético, político e ambiental. A premissa curatorial desloca o foco da sustentabilidade — um conceito que, para a crítica, foi esvaziado por um sistema insustentável — para a urgência da regeneração.

Para Girotto, regenerar é mais do que manter ou reparar: é transformar as estruturas de produção e cuidado. É a ética de restaurar vínculos e imaginar ecologias onde os corpos, fazeres e saberes não sejam exauridos, mas sim ativamente nutridos pela própria criação.

O Corpo da Crítica: Esculturas de descarte e a exclarrogação

Divulgação/Casa de Criadores

A expografia de Fábio D’Elia é concebida como um manifesto físico. Textos, curadoria e pensamentos críticos tornam-se matéria expositiva. Painéis escritos instalam-se na sala Flávio de Carvalho como “corpos que falam”, confrontando o silêncio de um sistema que frequentemente produz uma abundância de imagens, mas uma notória pobreza de pensamento.

  • A Violência Materializada: O ponto de maior impacto crítico da mostra reside nas esculturas produzidas com roupas coletadas em ecopontos. A instalação é uma alusão direta às montanhas de descarte têxtil no deserto do Atacama, um resíduo visível da lógica destrutiva do luxo que prefere a aniquilação à democratização do acesso. O gesto artístico materializa a violência estrutural que, ao descartar, transforma o planeta em um depósito de resíduos.

A identidade visual, desenvolvida por Bruno Abatti, condensa a urgência da CdC N57 no símbolo da exclarrogação — a fusão entre os sinais de interrogação e exclamação. A iconografia é uma declaração de que a pergunta “Qual Moda, para Qual Mundo?” só existe porque a crise grita e exige atenção imediata. O texto crítico-afetivo de Hanayrá Negreiros atravessa o espaço como uma convocação sensorial: o mundo deve ser sentido e tocado pelo corpo que se transforma diante das obras. Nesse ecossistema, cada artista da moda autoral converte seu trabalho em uma prática de imaginação política.

Obras que questionam: Ancestralidade, violência e o sistema têxtil

As instalações dos 15 artistas na CdC N57 funcionam como células de pensamento e denúncia.

Alexandre dos Anjos, em “Função Noturna do Ouro”, usa amuletos, bolsas de mandinga e a cosmologia de avós para denunciar o ponto em que o feitiço vira fetiche, ou seja, quando a força espiritual é reduzida a produto. Em “Téssera”, Diego Gama constrói mosaicos híbridos de materiais orgânicos, deixando a luz atravessar parentescos não hegemônicos.

A crítica ao ciclo industrial é forte: Chorume Fashion, com “Boomerang”, usa cores explosivas para evidenciar como o lixo têxtil da indústria é facilmente manipulado para se tornar um novo desejo, devolvendo ao espectador a violência de um sistema que faz da crise ambiental um efeito direto de sua voracidade. Já Vou Assim, em “Útero Transmutador”, apresenta a transmutação têxtil como uma metodologia de gestação coletiva e sobrevivência política.

Jal Vieira, na instalação “Não Esqueceremos”, entrega uma das denúncias mais pungentes. A artista borda com linha vermelha sobre 14 mil pregos brancos a frase “meus sonhos não podem findar numa bala branca”. O bordado — símbolo de cuidado — fricciona com o prego — símbolo de brutalidade — para criar uma superfície que é tanto uma ferida aberta quanto um manifesto de recusa à anestesia da violência racial.

Outras obras exploram a relação entre corpo e território: A Versão + Visão Cega, com “Clóvis”, afirma a estética e a subjetividade do Bate-Bolas de Madureira. Trashrealoficial, em “Barrankera”, evoca corpos ribeirinhos e cosmologias afrodiaspóricas, marcando saberes e belezas invisibilizadas. A Plataforma Açu, com “O Que Contém”, revela a moda autoral como resultado de ecologias afetivas.

A exposição da Casa de Criadores conclama a plateia. Não se trata de buscar respostas, mas de perceber o vestível como um campo de invenção e tecnologia de cuidado. A moda autoral é proposta como um catalisador na reconstrução de mundos habitáveis, deixando de ser apenas uma engrenagem do sistema de exaustão.

Serviço

CASA DE CRIADORES 57 – EXPOSIÇÃO “QUAL MODA, PARA QUAL MUNDO?”

  • Data: De 3 de dezembro a 10 de dezembro de 2025
  • Horário: De 10h às 22h
  • Local: Centro Cultural São Paulo – Rua Vergueiro, nº 1000, sala Flávio de Carvalho, bairro Liberdade, CEP 01504-000, São Paulo – SP
  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 03/12/2025
  • Fonte: Fever