Caso Benício: Polícia apura tentativa de adulteração de prontuário
Testemunhas relatam manipulação de documento após morte de Benício
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 07/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
A Polícia Civil do Amazonas apura a suspeita de que a médica Juliana Brasil Santos tenha tentado alterar o prontuário do menino Benício Xavier, de 6 anos, morto após receber doses incorretas de adrenalina em um hospital particular de Manaus.
Segundo o delegado Marcelo Martins, responsável pelo inquérito, ao menos três testemunhas afirmaram que a profissional tentou acessar e modificar o registro da prescrição logo após o atendimento.
A médica admitiu o erro em documento enviado à polícia e também em mensagens trocadas com um colega médico. Porém, sua defesa sustenta que a confissão ocorreu “no calor do momento”.
A técnica de enfermagem Raiza Bentes Paiva, que aplicou o medicamento, também é investigada. Ambas respondem em liberdade.
Polícia avalia possibilidade de dolo eventual
De acordo com o delegado, os depoimentos de funcionários que estavam no hospital no momento do atendimento de Benício reforçam a suspeita de tentativa de supressão da prescrição original — onde constaria o registro da adrenalina aplicada por via endovenosa, e não por nebulização.
Martins afirma que, caso a liminar de Habeas Corpus que impede a prisão preventiva da médica não estivesse em vigor, a suposta tentativa de adulteração por si só justificaria um pedido de detenção.
“Temos três testemunhas que apontam essa situação. Se não fosse o Habeas Corpus, adulteração de provas seria um motivo forte para prisão”, declarou o delegado.
A conduta da médica está sendo analisada sob a possibilidade de dolo eventual, caso fique comprovado que houve indiferença com o risco à vida de Benício.
Defesa fala em falha de sistema; família rebate
Os advogados de Juliana afirmam que o erro de medicamento do Benício teria sido provocado por uma falha do sistema automatizado do Hospital Santa Júlia, que teria modificado a via de administração durante o registro. Segundo a defesa, a médica não teria percebido a alteração.
“O sistema pode corrigir automaticamente a via de administração. Se fosse uma prescrição manual, o erro não teria ocorrido”, disse o advogado Felipe Braga.
A versão, no entanto, é contestada pela família de Benício, que divulgou uma carta aberta afirmando que não houve falha no sistema. O documento destaca que, horas depois, profissionais da UTI conseguiram registrar corretamente a via inalatória — o que, segundo eles, provaria que o software estava funcionando normalmente.
A confirmação de eventual falha técnica só poderá ser feita após perícia no sistema do hospital, de acordo com a polícia.
Novos depoimentos e investigações em andamento
Entre segunda (1º) e terça-feira (2), médicos e enfermeiros que estavam de plantão na UTI prestaram depoimento. Os pais de Benício também foram ouvidos para confirmar informações já coletadas.
O médico Enryko Garcia, que recebeu mensagens da colega após o erro, confirmou a troca de comunicação. Já o enfermeiro Tairo Maciel corroborou a versão da técnica de enfermagem, que disse ter ficado sozinha no atendimento — o que diverge do relato da médica.
O CREMAM abriu processo ético sigiloso contra Juliana, e o hospital afastou os dois profissionais envolvidos.
O atendimento que terminou em tragédia
Benício deu entrada no Hospital Santa Júlia em 22 de novembro com tosse seca e suspeita de laringite. A família afirmou que o menino recebeu lavagem nasal, medicação e três doses de adrenalina intravenosa, aplicadas a cada 30 minutos — procedimento incompatível com quadros respiratórios como o dele.
Após a administração das doses, o estado de saúde do menino se agravou rapidamente. Ele ficou pálido, com extremidades arroxeadas e relatou que “o coração estava queimando”. A saturação caiu para cerca de 75%.
Levado à sala vermelha e, mais tarde, à UTI, sofreu seis paradas cardíacas durante a intubação. Morreu às 2h55 de 23 de novembro.
A polícia investiga o caso como homicídio doloso qualificado, incluindo a hipótese de crueldade.