Capela dos Aflitos revela novo achado arqueológico
Descoberta arqueológica na Liberdade reforça memória negra da região no Mês da Consciência Negra.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 19/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
Um novo achado arqueológico foi identificado nesta quarta-feira (19) durante as obras de restauração na Capela dos Aflitos, situada no bairro da Liberdade. A descoberta ocorre simbolicamente no Mês da Consciência Negra e reitera a importância do território para a memória das populações negras e indígenas desde o período colonial. Todo o processo recebe suporte técnico e acompanhamento do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), vinculado à Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa.
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Detalhes da escavação e remanescentes humanos
As escavações trouxeram à luz restos mortais de cinco a dez indivíduos, um dado que ainda passa por consolidação pelos pesquisadores. Os vestígios foram localizados em dois setores distintos da Capela dos Aflitos:
- A um metro de profundidade: Foram identificados cinco sepultamentos estruturados.
- A menos de 50 centímetros: Um conjunto de ossos desestruturados foi encontrado próximo ao banheiro e à antiga sacristia.
Essa descoberta ratifica o uso histórico do local como integrante do Cemitério dos Aflitos. O espaço funcionou entre o final do século XVIII e o século XIX, sendo destinado ao enterro de grupos marginalizados, incluindo pessoas escravizadas, indígenas, pobres e condenados à morte. As execuções eram realizadas no antigo Campo da Forca (hoje Praça da Liberdade), e os corpos não mutilados eram sepultados no entorno da capela.
Análise técnica e preservação do acervo
O arqueólogo do DPH responsável pelo acompanhamento, Fabio Guaraldo Almeida, explica que a fragmentação de algumas ossadas impede, no momento, a contagem exata dos indivíduos. Além dos restos mortais, foram encontrados fragmentos de cerâmica, louça e enxoval funerário. Um dos indivíduos portava adorno e colar, o que sugere uma posição de destaque em sua comunidade.
Por respeito à responsabilidade histórica, o material passará por análise laboratorial somente após diálogo com representantes de comunidades negras ligadas à memória da Liberdade. Foi estabelecido um acordo entre a Arquidiocese de São Paulo, lideranças comunitárias e o comitê gestor da obra: apenas os remanescentes encontrados fora de sepulturas serão removidos para estudo. Posteriormente, o material será reenterrado na própria capela, preservando o caráter sagrado do sítio.
Sobre a importância institucional do achado na Capela dos Aflitos, Almeida ressalta que “a Capela dos Aflitos é tombada pelo CONPRESP e seu entorno reconhecido como área de interesse arqueológico” pela Resolução 25/CONPRESP/18, devido à presença do sítio histórico. Ele pontua que o DPH, através do Centro de Arqueologia (CASP), atua como a instituição responsável pela guarda dos materiais descobertos durante o restauro.
Como instituição pública de salvaguarda, o arqueólogo reforça que “temos o compromisso de garantir que esse acervo seja socializado e esteja acessível aos diversos segmentos da população interessada”, algo fundamental para compreender a história da cidade e do país. “Nosso papel é assegurar que esse patrimônio, tão importante para a memória do território da Liberdade, do povo afro-brasileiro e dos povos originários, seja finalmente valorizado e integrado à narrativa histórica de São Paulo”, conclui Almeida.
Histórico e futuro das intervenções
Esta não é a primeira vez que a Capela dos Aflitos revela segredos do passado. Em 2018, escavações no entorno expuseram nove remanescentes humanos, alguns com colares de contas ligados a tradições africanas. O evento levou à desapropriação do terreno pela Prefeitura e ao reconhecimento oficial do sítio arqueológico, impulsionando o projeto do Memorial dos Aflitos.
Para 2025, estão previstas novas etapas de preservação, abrangendo a restauração estrutural da capela e a revitalização do Beco dos Aflitos. Construída em 1779 em taipa de pilão, a edificação resiste há quase 250 anos como símbolo de fé e resistência. Sua história se entrelaça com figuras como “Chaguinhas” (Francisco José das Chagas), executado em 1821 no Largo da Forca.
Para ampliar o debate, o DPH realizará uma mesa técnica sobre a Capela dos Aflitos no dia 17 de dezembro, na Biblioteca Mário de Andrade, reunindo especialistas e a comunidade para discutir as pesquisas em curso.