BRT-ABC enfrenta atrasos e governo ameaça romper contrato
Obra prevista para 2023 segue com 58% de avanço; Artesp aplica penalidades e avalia encerrar contrato com a Next Mobilidade
- Publicado: 17/03/2026 16:35
- Alterado: 19/03/2026 13:28
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: ABCdoABC
O governador paulista indicou a possibilidade concreta de romper o acordo do BRT-ABC. Tarcísio de Freitas (Republicanos) cobrou publicamente a concessionária Next Mobilidade pelo ritmo lento das obras do corredor de ônibus elétricos. O projeto metropolitano do BRT-ABC deveria ligar São Bernardo do Campo à capital paulista ainda em 2023, mas sofre com sucessivas postergações de cronograma.
Atrasos e risco de caducidade no BRT-ABC

O governo estadual mudou a postura frente à concessionária. A Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) assumiu a fiscalização do contrato no início de 2025 e já iniciou a aplicação de penalidades. A decretação de caducidade surge como a principal ferramenta jurídica do Estado para encerrar o vínculo com a empresa de forma unilateral. Em nota a Artesp foi categórica sobre as falhas contratuais do BRT-ABC e as punições:
“A ARTESP acompanha e fiscaliza a execução das obras desde o início de 2025. A Agência identificou atrasos na execução das obras e dos investimentos previstos e já iniciou as providências cabíveis, que incluem notificações, aplicação de penalidades e outras medidas previstas em contrato.”
O governador endossou a insatisfação governamental.
“A gente deve tomar medidas mais firmes. A gente tem um acordo que não está sendo honrado, não está sendo cumprido”, afirmou o governador Tarcísio de Freitas.
Status da obra e exigência de investimentos

A construtora sustenta que o avanço físico do canteiro de obras atingiu 58%. O empreendimento de 17,3 km exige um aporte financeiro robusto da iniciativa privada, estimado entre R$ 1,2 bilhão e R$ 1,5 bilhão.
- Ligação expressa entre o centro de São Bernardo e a capital.
- Paradas estruturadas nos terminais integrados Tamanduateí e Sacomã.
- Operação prevista com uma frota de 82 ônibus elétricos articulados.
Histórico de mudanças no transporte do Grande ABC
O imbróglio de engenharia na região metropolitana completou uma década. A gestão de Geraldo Alckmin aprovou a construção da Linha 18-Bronze em 2014, um projeto de monotrilho avaliado em R$ 4,2 bilhões. João Doria assumiu o Palácio dos Bandeirantes anos depois e cancelou a ferrovia. O ex-governador alegou inviabilidade financeira, substituiu os trilhos pela proposta do BRT-ABC, firmando o contrato pelo modelo atual em 2022.

Essa troca de modalidade gerou custos pesados ao erário público. O Estado precisou indenizar a antiga concessionária do monotrilho em R$ 335 milhões. A atual administração estadual concordou com o pagamento milionário para encerrar o litígio judicial travado com o consórcio anterior.
Promessas de operação do novo sistema
O formato atual foca na velocidade de deslocamento diário. A infraestrutura do corredor prevê a instalação de semáforos inteligentes e faixas de ultrapassagem para garantir a agilidade das viagens.
- Serviço expresso: 40 minutos de trajeto ponta a ponta.
- Serviço semi-expresso: 43 minutos de viagem média.
- Serviço parador: 52 minutos com embarque em todas as estações.
NEXT Mobilidade responsabiliza Enel por atrasos estruturais
A Next Mobilidade enviou nota oficial à reportagem após a repercussão das cobranças estaduais. A empresa reconhece que o andamento das obras do BRT-ABC foi impactado por uma série de fatores, incluindo a atuação de concessionárias de serviços públicos e a complexidade dos processos de licenciamento ambiental ao longo da execução do projeto.
Segundo a concessionária, a liberação de trechos importantes esteve condicionada à realização de intervenções externas, como a remoção e adequação de redes de infraestrutura, além de etapas regulatórias que exigiram tempo maior que o previsto inicialmente. Nesse contexto, a empresa afirma que diferentes frentes de trabalho foram impactadas ao longo do cronograma.
Em nota, a Next Mobilidade destacou que “apesar de reiteradas solicitações, alguns destes trabalhos só foram entregues depois de cerca de 500 dias”, o que, segundo a concessionária, contribuiu para atrasos em diferentes trechos da obra, somados a outras questões técnicas e ambientais que influenciaram o ritmo de execução do projeto.
A companhia detalhou os pontos críticos de estrangulamento operacional. Os prazos extrapolam qualquer planejamento viário de grande porte.
- Rua do Grito (SP): A retirada da infraestrutura elétrica consumiu 499 dias.ompanhia reforçou seu histórico positivo de operação no Corredor ABD e que mantém diálogo aberto com a Artesp.
- Praça dos Andarilhos: A obra do viaduto Mauá exigiu 510 dias de espera. A Enel concluiu o serviço apenas em 9 de março de 2026.
- Rua Abraão Braga: A remoção de redes aéreas paralisou o trecho por 503 dias.
Avanços físico e testes da frota
A concessionária afirma que o canteiro de obras segue ativo. A empresa declarou manter um efetivo de 900 operários em dois turnos diários. O expediente inclui escalas aos sábados e domingos. A Next Mobilidade apresentou um balanço técnico próprio na tentativa de contrapor as críticas do Palácio dos Bandeirantes.
O consórcio garante que o avanço físico do empreendimento já atingiu 58% do previsto. A concessionária relata a entrega de 7 quilômetros contínuos de pista de concreto rígido até a Vila Império. O comunicado oficial defende o andamento dos trabalhos nas áreas restantes. “Nos demais trechos, as obras de arte são a maioria do trajeto, porém o último trecho também já possui 800m concretados. São 58% das obras já concluídas”, destacou a empresa.
A nota da companhia lista o avanço de nove estações no eixo urbano. As paradas Metrópole, Aldino Pinotti e Senador Vergueiro constam como semiprontas no cronograma apresentado pela construtora. O ponto Winston Churchill recebe acabamento interno, segundo a gestão da obra. As bases de Fundações do ABC, Afonsina, Rudge Ramos, Instituto Mauá e Vila Império possuem a estrutura pronta. A empreiteira pontua que a unidade da Vila Império já conta com vidros instalados.
A Next Mobilidade informou também a chegada dos primeiros 20 ônibus elétricos. Os veículos repousam nas garagens da companhia para a realização de testes. A operação comercial da frota aguarda a conclusão do pavimento para tirar do papel a promessa original do sistema viário à população metropolitana.
Procurada, a Enel informou que realiza reuniões semanais com a equipe técnica do BRT-ABC e executa as entregas conforme as prioridades definidas pelo cliente.