Brics supera impasses e garante declaração conjunta em cúpula marcada por ausências

Negociações em torno do Irã e da reforma da ONU evitaram fracasso diplomático em encontro no Rio de Janeiro

Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Após dias de intensas negociações, os países do Brics chegaram neste sábado (5) a um consenso sobre os dois temas mais sensíveis da cúpula de 2025: o conflito no Oriente Médio e a reforma do Conselho de Segurança da ONU. O Irã, que resistia à inclusão de uma menção à criação de dois Estados — um israelense e outro palestino — acabou isolado. Teerã considerava a referência um reconhecimento implícito ao Estado de Israel, algo que o regime dos aiatolás rejeita desde 1979.

Contudo, diplomatas relataram que a posição iraniana perdeu força diante do apoio à solução de dois Estados por parte de outros membros do Brics, incluindo países árabes como Egito e Emirados Árabes Unidos. Além disso, o Irã já havia aceitado textos semelhantes em outros fóruns internacionais, como a declaração da Organização para a Cooperação Islâmica e a cúpula do Brics do ano passado.

Segundo negociadores, a declaração final da cúpula, que será divulgada neste domingo (6), incluirá ao menos uma referência à solução de dois Estados como caminho para o fim do conflito israelo-palestino. A manutenção dessa menção foi vista como uma vitória diplomática do chamado Sul Global.

Reforma da ONU avança com apoio a Brasil e Índia

Outro ponto de impasse envolvia a reforma do Conselho de Segurança da ONU. O Brasil buscava garantir uma menção clara à sua aspiração de se tornar membro permanente do órgão. Já Etiópia e Egito resistiam a apoios individualizados a países em detrimento da posição conjunta do continente africano sobre o tema.

A solução encontrada agradou ao Itamaraty: o texto negociado traz o reconhecimento de China e Rússia — membros permanentes do Conselho — de que Brasil e Índia devem ter papel mais ativo nos assuntos globais e nas Nações Unidas, incluindo o Conselho de Segurança.

Em contrapartida, foi retirada do documento uma menção semelhante à África do Sul, que constava na declaração de 2023. A medida teve como objetivo evitar novos atritos com os países africanos recém-incorporados, que defendem tratamento igualitário para as nações do continente no processo de reforma.

A dificuldade para alcançar um texto comum evidencia o desafio trazido pela expansão do Brics. A entrada de seis novos membros — Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Irã e Arábia Saudita — trouxe peso político ao bloco, mas também complexidade nas negociações.

Cúpula marcada por ausências e busca por protagonismo global

Mesmo com os avanços diplomáticos, a cúpula enfrenta desafios de representatividade. Líderes importantes estarão ausentes no encontro deste domingo no Rio de Janeiro. Entre os que não comparecerão estão o presidente da China, Xi Jinping; o presidente da Rússia, Vladimir Putin (alvo de mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional); o presidente do Egito, Abdel Fattah al-Sisi; e o recém-eleito presidente do Irã, Masoud Pezeshkian.

Para o governo Lula, a aprovação do documento conjunto representa um alívio político. O Brasil, que preside temporariamente o Brics, também tenta usar o encontro para marcar posição em debates globais. Entre as pautas da cúpula estão o financiamento climático e o combate a doenças negligenciadas como tuberculose e malária. Uma iniciativa de colaboração financeira entre os países do bloco e a Organização Mundial da Saúde (OMS), que perdeu 15% de seu orçamento com a saída dos EUA, deve ser anunciada.

A presença de autoridades como o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom; a diretora da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala; e o secretário-geral da ONU, António Guterres, sinaliza a tentativa do Brics de se firmar como um polo de influência diante do vácuo deixado pelo retraimento dos Estados Unidos em fóruns multilaterais.

Inteligência artificial e big techs também entram na pauta

Além das questões geopolíticas, a cúpula também abordará a regulação da inteligência artificial. Em uma declaração separada, os países do Brics devem criticar a postura do governo Trump, que tem retaliado nações que adotam medidas contra big techs.

O Brasil lidera a defesa por uma remuneração justa pelo uso de dados para treinar modelos de IA, enfrentando resistência das empresas de tecnologia, que alegam que isso sufocaria a inovação. O governo brasileiro, por sua vez, argumenta que esse discurso é semelhante ao utilizado por países ricos no passado para impedir a quebra de patentes de medicamentos por nações em desenvolvimento.

O novo Brics e os desafios de integração

Desde a ampliação em 2023, o Brics passou de cinco para onze membros: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia, Irã e Arábia Saudita. Além disso, mantém parcerias com países como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã.

A expansão reforça a ambição do bloco de atuar como alternativa de poder global, especialmente entre os países emergentes. No entanto, as divergências internas, como as vistas nas discussões sobre o Oriente Médio e a reforma da ONU, revelam os obstáculos à formação de uma frente unificada.

Para o Brasil, anfitrião da cúpula, manter o protagonismo nas negociações e garantir resultados concretos é estratégico para reforçar sua posição no cenário internacional e no próprio Brics.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 06/07/2025
  • Fonte: Sorria!,