Bolsonaro, Sete Picaretas e a Caixa de Vinho
Entre togas, fardas e uma caixa de vinho invisível, o julgamento expõe Bolsonaro largado aos tubarões pelos próprios aliados
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 03/09/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
1º Ato — O Teatro dos Dados
O Supremo amanheceu com o som de cinco pares de passos medidos no mármore e uma respiração coletiva contida, como se uma peça invisível tivesse tomado o palco. No centro, trancado, o cofre guardava o dossiê que ninguém queria nomear — três alvos, três rotas, três execuções em potencial — e, sobre a mesa, pilhas que prometiam 80 terabytes de mundo comprimido esperando para ser decodificado. A liturgia se cumpria no relógio: às 9 em ponto, microfones testados, telas acesas, gravatas puxadas meio milímetro para trás. Lá fora, milhões aguardavam o feed; aqui dentro, oito olhos atentos colhiam cada vírgula como se pudessem pesar 225 milhões de áudios com a ponta da caneta.
Dois nomes — 2 — já haviam confessado a participação na arquitetura do horror: o general Mário Fernandes e o tenente-coronel Hélio Ferreira Lima. A peça tinha título de brincadeira (Operação Luneta), mas respirava pólvora de manual: mapas, janelas de 15 minutos, redundâncias de duas e três camadas, um circuito paralelo de mensagens em n saltos que pretendia sobreviver ao apagão. E a defesa, disciplinada, empurrava Bolsonaro para a borda como quem redesenha órbita: “Assistiu de longe” ficou na prisão de casa. Longe quanto? Mais de uma sala, duas portas ou quatro minutos de distância. Longe o bastante para jamais reclamar autoria, mas perto o suficiente para não perder um único sinal.
Quando o primeiro advogado ergueu a muralha digital, a plateia respirou fundo: “oitenta terabytes”; “duzentos e vinte e cinco milhões de áudios e mensagens”; “oito prints adulterados” — a aritmética do convencimento. Anunciaram números como quem convoca uma tropa de cem mil pixels por frame. Era um espetáculo de dados e, assim, o tribunal foi arrastado para dentro de um teatro de números. Entre um 0 e um 1, o subtexto era claro: se há demais, não há suficiente. Se cabe em 80 TB, evapora em 8 capturas de tela. Uma conta do ceticismo que pareceu caber muito bem em duas mãos.
Os cinco ministros mantiveram o corpo imóvel, mas a acústica das pequenas coisas entregou a pressão: três batidas de caneta por segundo; duas pausas longas demais; um assessor que trocou dois bilhetes dobrados antes de voltar a fitar a tela. Foi quando a pergunta atravessou a sala como um bisturi: “Demover do quê?” A resposta não coube em metáfora, coube em quatro palavras: “de medidas de exceção.” O impacto não precisou de decibéis. Em um golpe, a defesa salvava um general e rubricava o incêndio; trocava a posição do fósforo, não a existência da chama.
O nome de Mauro Cid entrou ecoando pela porta no fundo das frases, como um 1 que insiste na coluna de unidades. A defesa martelou: contraditório, coagido, instável; “esquece voluntariedade” repetido duas vezes por minuto. Mas datas carimbadas em 24 horas, minutas com versões 3.1, 3.2, 3.3, mensagens saindo às 23h59 e chegando às 00h07 – detalhes que só um corpo por dentro do circuito teria para contar. O roteiro batia com a cronologia do Telegram em vários saltos, e a frase de efeito (“8 prints não derrubam 80 teras”) soou menos como aritmética e mais como fé.
No meio da cena, a caixa de vinho virou personagem número 1. Para uns, recheada de notas em maços de 50 e 100; para outros, um objeto de cena sem miolo. Ninguém abriu. Ninguém viu. Zero verificação, 100% disputa simbólica. É o tipo de prova que cresce quando a tampa permanece fechada: ocupa todo o espaço do não-dito e, por isso mesmo, não sai da cabeça — nem dos autos.

Outro flanco buscou inocência na desordem: se a reunião era “decisiva”, por que alguém pediu o endereço dez minutos antes? Juntaram 30 minutos de zap e perguntaram se era com esse tempo que se escrevia a história. O sarcasmo veio medido em duas colheres de riso e uma de veneno. A plateia não riu; o algoritmo do senso comum, talvez.
No relógio institucional, a folha de serviços registrava 14:15 de abertura de sessão no dia anterior e 1 leitura de ata para autorizar a continuação; no subsolo do nervo, o que se lia eram vários pares de olhos calculando danos. O primeiro ato encerrou com uma certeza: já não se discutia se havia plano. Discutia-se quem orbitava o núcleo — e a que distância.
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2º Ato — A Coreografia das Fardas
O Supremo tentava manter a liturgia, mas era impossível disfarçar a combustão subterrânea. O mármore brilhava, as togas caíam no mesmo tom, os microfones testados estavam alinhados — mas o ar carregava tensão de quem sabe que cada palavra dita poderia ser um detonador. A sessão parecia uma peça ensaiada, mas os bastidores vibravam como um thriller político.
Cármen Lúcia, impassível na ponta, rabiscava anotações mínimas em bilhetes que dobrava ao meio, sem assinatura. Um deles chegou a Fux com três palavras circuladas: “dosimetria, coerência, pressão.” Fux ergueu o queixo num gesto mínimo, sem mover um músculo além dos olhos: “segura a linha.”
Alexandre de Moraes, alvo central do dossiê, sustentava uma postura estudada, quase militar. Um assessor sussurrou para outro, lá no fundo: “Ele não bebeu um gole d’água desde cedo… para não se levantar, para não se expor.” Imóvel, negava espetáculo à defesa. Mas, dentro do silêncio, cada respiração dele soava como aviso: ninguém ousa me ler.
Foi quando um dos advogados de Braga Netto disparou com voz calma, como quem lança um anzol no meio da sala: “Se um país aceita prints adulterados e versões contraditórias de um delator coagido, o que estamos julgando aqui? Um roteiro de ficção?”
O plenário respondeu com silêncio. Ninguém moveu um músculo, mas três ministros trocaram olhares longos. Um deles dobrou um bilhete com força demais e murmurou, quase sem abrir os lábios: “Isso não é só sobre eles. É sobre nós.”

A defesa confirmava os palpites sobre a previsão do tempo, o céu se fechando no escuro — e deixava Bolsonaro sozinho sob o para-raios, com a tempestade já à vista. Não que ele não seja culpado — isso já estava precificado antes mesmo do julgamento. Mas havia uma ironia densa no ar, dessas que escorrem devagar, como um prato no maremoto servido frio: ser largado aos tubarões pelos próprios aliados.
Nada muito diferente do que a família Bolsonaro sempre fez quando não precisava mais de alguém — vira peso morto na correnteza. Nos olhares cruzados entre os ministros, sem uma palavra sequer, formava-se uma compreensão implícita: os advogados das fardas haviam combinado o roteiro. Era como assistir a um capitão ter a patente arrancada, não por inimigos, mas pelo próprio pelotão — cada defesa garantindo a própria sobrevida ao custo de empurrar o comandante para o meio do campo minado.
Mais adiante, cada argumento reforçava o isolamento de Bolsonaro. A defesa de Paulo Sérgio Nogueira pintava o general como “bombeiro” tentando apagar incêndios que Bolsonaro queria acender. A de Augusto Heleno insinuava que ele estava fora do núcleo decisório e quase não falava mais com o ex-presidente Bolsonaro. Uma narrativa depois da outra, os advogados dos homens de farda construíam um pacto tácito de sobrevivência: quanto mais limpas as fardas, mais sujas as digitais do capitão.
Nos gabinetes, essa percepção escorria em silêncios. Um ministro apoiou o queixo na mão e olhou longo demais para o quadro de Ruy Barbosa na parede, como quem revisita o peso das instituições. Outro, com o lápis parado no ar, rabiscou devagar uma única palavra na lateral do voto: “isolado”. No elevador de serviço, um assessor cochichou para outro:
“Eles o deixaram no centro do tabuleiro.”
O colega respondeu sem levantar os olhos:
“E quebraram as próprias peças para não voltarem.”
Até a defesa de Bolsonaro reforçava, talvez sem querer, essa sensação. A cada sustentação, passavam a impressão de um cliente infantilizado, um homem perdido entre adultos, quase incapaz de entender a engrenagem que o cercava, como se fosse um comandante que assinava sem ler, um capitão que obedecia sem saber. Nos cochichos, ministros trocavam impressões rápidas, quase sem mover os lábios: “Querem pintar um presidente que não sabia o que fazia.” Outro respondeu, baixo, com os olhos ainda nos autos: “Mas os números sabem por ele.”
E no meio disso tudo, a caixa de vinho permanecia como símbolo perfeito da disputa. Invisível, intocada, pesava como chumbo. Dois ministros trocaram certezas opostas fora do microfone:
“Se essa caixa cair, o resto desaba.”
“Se ficar fechada, pesa mais que todas as provas.”
Nos bastidores, a movimentação dos advogados só confirmava o jogo. Celulares virados para baixo, bilhetes manuscritos deslizando por mesas, portas que se fechavam com pressa. Um defensor comentou com outro, antes de sumir por um corredor lateral:
“A linha foi traçada. Cada um salva o seu.”
Ao fundo, a tempestade seguia crescendo. A cada sustentação, um passo atrás dos generais, dois à frente de Bolsonaro. O capitão, sob o para-raios, parecia esperar o relâmpago. E, na mente coletiva dos ministros, mesmo que ninguém dissesse, a sensação era clara: ele estava sozinho.
Por fim, quando Zanin levantou o olhar para encerrar a sessão, o som do martelo ecoou como sino de missa de sétimo dia. O plenário se dispersou devagar, como quem entende que o filme ainda não acabou, mas o roteiro já está escrito. No silêncio pesado que ficou, um pensamento parecia atravessar a sala sem dono, meio inconsciente, meio debochado:
“Melhor Jair se despedindo.”
E lá fora, sem ultrapassar 10 palavras, um refrão invisível riscava o ar com sorrisos num confortável camarote imaginário ao assistir sem contar o número de baldes de pipocas ainda seriam necessários pra cantar baixinho: “Luís Inácio falou, Luiz Inácio avisou…”.
João Pedro Mello

𝐏𝐞𝐫𝐟𝐢𝐥 𝐞𝐦 𝐕𝐞𝐫𝐬𝐨𝐬: à 𝐥𝐚 𝐋𝐞𝐦𝐢𝐧𝐬𝐤𝐢 (𝐉. 𝐌𝐞𝐥𝐥𝐨)
𝘌𝘯𝘵𝘳𝘦 𝘱𝘢𝘭𝘢𝘷𝘳𝘢𝘴, 𝘵𝘦𝘭𝘢𝘴 𝘦 𝘴𝘢𝘶𝘥𝘢𝘥𝘦𝘴 (𝘦)𝘵𝘦𝘳𝘯𝘢𝘴
𝚅𝚒𝚟𝚎 𝚍𝚎 𝚙á𝚐𝚒𝚗𝚊𝚜, 𝚍𝚎 𝚕𝚒𝚗𝚑𝚊𝚜 𝚎𝚖 𝚋𝚛𝚊𝚗𝚌𝚘,
𝚓𝚘𝚛𝚗𝚊𝚕𝚒𝚜𝚝𝚊 𝚏𝚘𝚛𝚖𝚊𝚍𝚘 𝚗𝚊 𝚏𝚘𝚖𝚎 𝚍𝚘 𝚎𝚗𝚌𝚊𝚗𝚝𝚘.
𝚎𝚜𝚌𝚛𝚎𝚟𝚎 — 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚘𝚞𝚝𝚛𝚘𝚜, 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚜𝚒 𝚎 𝚙𝚊𝚛𝚊 𝚘 𝚝𝚎𝚖𝚙𝚘 𝚚𝚞𝚎 𝚙𝚊𝚜𝚜𝚊,
𝚝𝚊𝚕𝚟𝚎𝚣 𝚗ã𝚘 𝚙𝚛𝚘𝚌𝚞𝚛𝚎 𝚜𝚎𝚛 𝚜𝚊𝚗𝚝𝚘 𝚎𝚖 𝚌𝚊𝚜𝚝𝚎𝚕𝚘 𝚍𝚎 𝚐𝚛𝚊ç𝚊.
𝚝𝚊𝚕𝚟𝚎𝚣 𝚜ó 𝚜𝚎 𝚙𝚎𝚛𝚌𝚊 𝚎𝚖 𝚙𝚊𝚕𝚊𝚟𝚛𝚊𝚜 𝚍𝚎 𝚙𝚛𝚊𝚗𝚝𝚘 𝚊𝚖𝚊𝚛(𝚎𝚕𝚘) 𝚍𝚊𝚜 𝚝𝚛𝚊ç𝚊𝚜
𝙳𝚎 𝚋𝚊𝚗𝚍𝚊𝚜, 𝚙𝚛𝚘𝚓𝚎𝚝𝚘𝚜, 𝚙𝚘𝚎𝚝𝚊 𝚎𝚖 𝚙𝚘𝚎𝚒𝚛𝚊,
𝚍𝚎 𝚋𝚕𝚘𝚐𝚜, 𝚗𝚘𝚝í𝚌𝚒𝚊𝚜, 𝚍𝚎 𝚛á𝚍𝚒𝚘 𝚎𝚖 𝚋𝚎𝚜𝚝𝚎𝚒𝚛𝚊
𝚊𝚜𝚜𝚎𝚜𝚜𝚘𝚛 𝚍𝚎 𝚏𝚘𝚗𝚎𝚖𝚊𝚜 𝚎𝚖 𝚙𝚘𝚍 (𝚜𝚎𝚖) 𝚌𝚊𝚜𝚝 𝚟𝚒𝚟𝚒𝚊,
𝚌𝚒𝚗𝚎𝚖𝚊 𝚙𝚞𝚕𝚜𝚊𝚗𝚝𝚎 𝚗𝚘 𝚙𝚎𝚒𝚝𝚘 𝚎𝚖 𝚌𝚊𝚍𝚎𝚒𝚛𝚊 𝚟𝚊𝚣𝚒𝚊.
𝚊𝚜𝚜𝚎𝚜𝚜𝚘𝚛 𝚍𝚎 𝚏𝚘𝚗𝚎𝚖𝚊𝚜 𝚎 𝚗𝚎𝚕𝚎 𝚎𝚍𝚒𝚝𝚊𝚟𝚊 𝚎𝚖 𝚙𝚒𝚗𝚌𝚎𝚕
𝚙𝚊𝚕𝚊𝚍𝚒𝚗𝚊𝚟𝚊 𝚗𝚊𝚜 𝚕𝚎𝚝𝚛𝚊𝚜, 𝚊𝚛𝚖𝚊𝚍𝚞𝚛𝚊 𝚎𝚖 𝚙𝚊𝚙𝚎𝚕,
𝚂𝚎 𝚏𝚎𝚣 𝚜𝚎𝚖 𝚝𝚛𝚘𝚏é𝚞, 𝚌𝚘𝚖 𝚖𝚒𝚜𝚝𝚘 𝚍𝚎 𝚏𝚎𝚕, 𝚌𝚑𝚎𝚐𝚊𝚍𝚊 𝚎𝚖 𝚕𝚒𝚗𝚑𝚊
𝚌𝚘𝚖𝚙𝚘𝚗𝚍𝚘 𝚗𝚊 𝚏𝚛𝚊𝚜𝚎 𝚜𝚎𝚖 𝚏𝚘𝚖𝚎 𝚘𝚞 𝚖𝚊𝚍𝚛𝚒𝚗𝚑𝚊
𝚖𝚊𝚜 𝚊𝚝é 𝚚𝚞𝚊𝚗𝚍𝚘 𝚎𝚜𝚌𝚛𝚎𝚟𝚘? 𝙽ã𝚘 𝚜𝚎𝚒, 𝚗ã𝚘 𝚌𝚘𝚗𝚝𝚘.
𝚝𝚊𝚕𝚟𝚎𝚣 𝚊𝚝é 𝚖𝚘𝚛𝚛𝚎𝚛 𝚍𝚎 𝚜𝚊𝚞𝚍𝚊𝚍𝚎, 𝚝𝚊𝚕𝚟𝚎𝚣 𝚊𝚝é 𝚖𝚘𝚛𝚛𝚎𝚛 𝚍𝚎 𝚎𝚗𝚌𝚊𝚗𝚝𝚘.
𝚂𝚎𝚓𝚊 (𝚎)𝚝𝚎𝚛𝚗𝚘. 𝚂𝚎𝚖𝚙𝚛𝚎