Black Machine: Motivos para ver a peça no Itaú Cultural
Com entrada franca, a peça Black Machine reimagina Hamlet e Ofélia em corpos negros no século 21 para debater necropolítica, raça e desejo
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 26/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Sorria!,
De 20 de novembro a 14 de dezembro de 2025, o Itaú Cultural abrigou a instigante temporada de Black Machine, um espetáculo que ressoou como um manifesto no cenário teatral brasileiro. Com a assinatura dramatúrgica de Dione Carlos e a direção de Eugênio Lima, a peça colocou em cena os talentos de Fernando Lufer e Marina Esteves, que deram vida a uma versão radicalmente contemporânea dos clássicos Hamlet e Ofélia. A montagem explorou, em um confronto visceral, as complexas intersecções de raça, necropolítica, masculinidade tóxica, dor e desejo.
A obra, que se equilibra em um limite tênue entre delírio, manifesto e performance, é um experimento polifônico no qual o cânone é atravessado pelo presente. Ela propôs uma investigação profunda sobre a identidade e a violência sistêmica, utilizando os personagens clássicos para expor as ruínas de um mundo pós-colonial e a necessidade urgente de reconstrução de novas subjetividades. Black Machine navegou da colonização à globalização, das dores íntimas à violência estrutural. A seguir, destacamos os principais motivos para ver a peça Black Machine e mergulhar nesta experiência teatral:
O confronto com o dilema Existencialista

A grande força motriz da peça reside no questionamento direto à universalidade do dilema existencialista de Hamlet: “ser ou não ser“. O diretor Eugênio Lima esclareceu que a premissa central é ver os personagens clássicos tentando se adaptar à pele de atores negros no século 21. Tal “incorporação” serve de gatilho para uma profunda reflexão sobre as implicações de raça e tempo.
O cerne do embate é a dúvida se a dor existencial de Hamlet pode ser universalizada, já que a população negra “nem sempre é vista como ‘ser’”, no sentido pleno e humano. Eugênio Lima defende que a busca pelo “não ser” abre um mundo de possibilidades criativas. Ele cita a filósofa Sueli Carneiro, afirmando o desejo de “ser negro, sem ser somente negro, e tornar-se um ser humano pleno de possibilidades e oportunidades”. Esta filosofia é a coluna vertebral da Black Machine, que desafia a limitação imposta pela identidade única.
Personagens Pós-Coloniais: Vozes da negritude em cena

Para conferir um caráter atemporal e, ao mesmo tempo, profundamente engajado, Dione Carlos estruturou os protagonistas como personagens pós-coloniais, com suas falas e posturas atravessadas por vozes intelectuais e artísticas da diáspora africana.
- O Novo Hamlet (Fernando Lufer): É influenciado por Frantz Fanon, psiquiatra da Martinica que repensou o racismo; pelo artista visual Jean-Michel Basquiat; por Aimé Césaire, poeta e político martinicano da negritude; e pelo rapper brasileiro Mano Brown.
- Ofélia Crítica (Marina Esteves): A personagem, que já era uma mulher crítica da violência social na releitura de Heiner Muller (Hamlet Machine, 1972), é inspirada por ativistas e filósofas brasileiras como Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro, além da cantora Erykah Badu.
Essa fusão de referências cria um cenário de fragmentos poéticos, provocações filosóficas e camadas políticas, onde a Black Machine se manifesta como um espelho crítico do mundo contemporâneo.
A estética afro-Surrealista e o diálogo multimídia

A encenação de Eugênio Lima se destaca pela adoção de uma estética afro-surrealista, um recurso visual que faz com que todos os tempos – passado, presente e futuro – aconteçam simultaneamente no palco. Essa abordagem é essencial para a experiência da montagem.
O elemento audiovisual expandido é constante e dinâmico, com a música presente e uma projeção videográfica dividida em três telas que estabelece um diálogo contínuo com as dramaturgias sonora e textual. Além disso, o spoken word (a palavra falada) é um recurso trazido ao palco pelos atores em momentos cruciais. Essa combinação de linguagens potencializa o impacto da narrativa, expondo as feridas históricas, evocando ancestralidades e pavimentando o caminho para a construção de uma nova realidade na arte.
Excelência e reconhecimento da equipe criativa de Black Machine
O sucesso e a profundidade da obra se devem à excelência dos artistas envolvidos. A equipe por trás de Black Machine é composta por nomes de peso na pesquisa e na prática da cultura afro-diaspórica:
- Eugênio Lima (Direção): DJ, ator-MC e diretor, é membro fundador do Núcleo Bartolomeu de Depoimentos e coleciona prêmios, incluindo o Shell de Teatro de Melhor Música (2020 e 2006).
- Dione Carlos (Dramaturgia): Jornalista e dramaturga, possui textos reconhecidos (Sete, Oriki, Titio e Baquaqua) e atua como artista orientadora na Escola Livre de Teatro.
- Fernando Lufer e Marina Esteves (Elenco): Lufer integra o Coletivo Legítima Defesa e Esteves, co-fundadora do coletivo O Bonde, foi indicada ao Prêmio Shell 2024.
O diálogo promovido pela Black Machine no Itaú Cultural é mais do que teatro; é um convite irrecusável à reflexão sobre a urgência de recontar narrativas a partir de uma perspectiva negra e pós-colonial.