Baixa adesão à doação de sangue expõe desafio nas universidades

Engajamento estudantil não se converte em ação prática e evidencia distância entre discurso coletivo e responsabilidade individual

Crédito: (Divulgação/Adote um Cidadão)

O projeto Gotas Eficientes, realizou no último sábado (25) mais uma ação de doação de sangue estratégica voltada à ampliação dos estoques no ABC Paulista. A mobilização, organizada em parceria com a Atlética CAAP, da Universidade Federal do ABC (UFABC), partiu de um objetivo direto transformar alcance em atitude e discurso e real, sustentado por um princípio claro DOE O AMOR QUE CORRE EM SUAS VEIAS.

O resultado, no entanto, revelou uma desconexão que não pode mais ser ignorada. Em um universo de aproximadamente 19 mil alunos, apenas 11 pessoas compareceram para doar sangue. O número, embora represente até 44 vidas potencialmente impactadas, expõe uma realidade estrutural: o engajamento coletivo ainda não se converte, na mesma proporção, em responsabilidade individual.

Quando o alcance não se transforma em ação

Adote um Cidadão - Doação de Sangue
(Divulgação/Adote um Cidadão)

A ausência de lideranças reforça esse diagnóstico. Entre os representantes da Atlética CAAP, apenas a Diretora Social, Brisa Paschoal, participou efetivamente da doação. O contraste entre visibilidade institucional e presença prática evidencia um padrão recorrente — mobiliza-se comunicação, mas não necessariamente comportamento.

“O Gotas Eficientes entrega consciência e estrutura para a doação acontecer. Quando apenas 11 pessoas se mobilizam em um universo de 19 mil, não estamos diante de falta de informação — estamos diante de falta de compromisso com a vida”, afirma a coordenação do projeto.

A atuação do Gotas Eficientes se estrutura para eliminar barreiras comuns à doação de sangue, oferecendo orientação prévia sobre preparo físico e nutricional, acompanhamento durante o processo e integração da experiência à rotina dos participantes. O objetivo não é pontual: é consolidar a doação como compromisso contínuo com salvar vidas.

Responsabilidade social e a doação de sangue na prática

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(Divulgação/Adote um Cidadão)

Mas o dado mais sensível ultrapassa a operação e entra no campo das escolhas. O sangue é um recurso que todos recebem gratuitamente ao nascer. Não exige investimento, não pode ser produzido e não depende de acesso financeiro. Ainda assim, quando surge a oportunidade de compartilhar, a adesão revela resistência. Em um ambiente que valoriza o discurso de coletividade, a prática apresenta outra equação: fala-se em somar causas, mas falta disposição para dividir o que se tem; defende-se multiplicar impacto, mas a omissão continua resultando na subtração de vidas que poderiam ser preservadas.

Esse cenário coloca a universidade diante de um teste objetivo de coerência. Historicamente reconhecida como espaço de formação crítica, cidadania e transformação social, ela é desafiada a alinhar discurso e prática em um dos atos mais básicos de responsabilidade social: salvar vidas. Não se trata de desconhecimento, mas de decisão.

O desafio é compromisso, não comunicação

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(Divulgação/Adote um Cidadão)

A análise dos dados desta ação orienta agora uma nova fase do Gotas Eficientes, com foco em parcerias que priorizem conversão real em detrimento de visibilidade. O desafio deixa de ser comunicar e passa a ser comprometer. Porque, no fim, responsabilidade social não se mede por intenção declarada, mas pela capacidade de agir quando a oportunidade exige posicionamento.

A provocação que permanece é simples, direta e incontornável: se nem aquilo que recebemos gratuitamente somos capazes de compartilhar, até que ponto o discurso de transformação social se sustenta na prática?

  • Publicado: 27/04/2026 19:05
  • Alterado: 27/04/2026 19:05
  • Autor: Dom Veiga
  • Fonte: Adote um Cidadão