Arma de fogo amplia em 85% risco de morte em violência doméstica, diz estudo

Pesquisa inédita revela que a presença de armamentos em agressões domésticas transforma abusos cotidianos em desfechos letais reais.

Crédito: Arquivo/Agência Brasil

A presença de uma arma de fogo durante agressões contra mulheres eleva em 85% a chance de um desfecho fatal. O dado alarmante consta no recente levantamento do Instituto Sou da Paz, divulgado neste domingo (8). A pesquisa cruzou informações de vítimas feridas e mortas por diferentes instrumentos. O resultado evidencia a letalidade superior dos disparos em comparação a outras formas de violência de gênero.

Segundo Carolina Ricardo, diretora-executiva do instituto, a posse de arma de fogo agrava drasticamente o perigo dentro dos lares brasileiros.

“As armas matam muito mais as mulheres do que simplesmente ferem.”

O impacto da arma de fogo no ambiente doméstico

A letalidade desses equipamentos altera toda a dinâmica de intimidação familiar. Quando o agressor possui uma arma de fogo ao alcance, qualquer escalada na discussão pode rapidamente terminar em homicídio.

Dados do sistema de saúde analisados no estudo mostram que 47% dos homicídios femininos registrados no Brasil em 2024 envolveram disparos. A estatística corrobora o alto potencial destrutivo da posse não controlada.

Entretanto, o cenário exige uma análise segmentada ao avaliarmos exclusivamente os assassinatos motivados por ódio de gênero.

Diferenças cruciais entre feminicídios e homicídios gerais

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública apresentou um retrato distinto nesta semana. Ao isolar os boletins de ocorrência classificados estritamente como feminicídio, o padrão de armamento muda.

O levantamento detalha a escolha das armas nesses crimes específicos de intimidade:

  • 48,7% dos casos ocorreram com armas brancas (facas e objetos cortantes).
  • 25,2% envolveram tiros.
  • O país somou 1.568 vítimas de feminicídio em 2025, um avanço de 4,7% ante o ano anterior.

A diferença percentual entre os estudos ocorre pelas metodologias aplicadas. O Sou da Paz avalia o universo total de assassinatos femininos, enquanto o Fórum filtra crimes motivados diretamente pela condição de gênero.

Ameaça psicológica e controle pelo terror

Especialistas alertam que o perigo ultrapassa o acionamento do gatilho. O simples fato de manter uma arma de fogo escondida sob o travesseiro serve como instrumento ininterrupto de terror psicológico.

Para Silvia Ramos, diretora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), o potencial de ameaça paralisa a vítima e impede denúncias.

“Todo mundo tem uma faca em casa. Então não é isso que faz com que um homem se torne perigoso. Mas um homem que tem uma arma em casa tem um instrumento muito forte de ameaça.”

Falhas de registro e a flexibilização nacional

O crescimento da violência letal acompanha as mudanças na política nacional de armamento implementadas a partir de 2019. A ampliação do acesso civil inundou o país com novos registros.

Hoje, o Brasil conta com cerca de 1,3 milhão de equipamentos registrados por Caçadores, Atiradores e Colecionadores (CACs). O controle desse arsenal, no entanto, apresenta fragilidades graves.

Auditoria recente do Tribunal de Contas da União (TCU) revelou brechas assustadoras no sistema de concessão entre 2019 e 2022:

  • 5.200 condenados pela Justiça mantiveram ou renovaram certificados de CAC ilegalmente.
  • Falhas de rastreabilidade dificultam a elucidação de crimes.

A atual transferência de fiscalização para a Polícia Federal busca reverter esse quadro de descontrole.

Para prevenir tragédias anunciadas, a Lei Maria da Penha agora determina que autoridades questionem as vítimas sobre a posse de armamento pelo agressor logo no registro da ocorrência.

Caso confirmada a presença de uma arma de fogo, o delegado deve solicitar a apreensão imediata, removendo do ambiente o principal catalisador das mortes domésticas.

  • Publicado: 08/03/2026
  • Alterado: 08/03/2026
  • Autor: 08/03/2026
  • Fonte: FolhaPress