Alexandre de Moraes e o espelho da História: poder e ecos da Roma Antiga
Análise histórica compara o exercício de poder de Alexandre de Moraes a arquétipos da Roma Antiga em contextos de crise institucional
- Publicado: 29/01/2026
- Alterado: 02/01/2026
- Autor: Redação
- Fonte: FERVER
A História raramente se repete, mas frequentemente rima. Em momentos de crise institucional, figuras de poder emergem não apenas para decidir, mas para encarnar o próprio sistema que dizem proteger. No Brasil contemporâneo, poucos personagens despertam tantas paixões, críticas e defesas quanto o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Para compreendê-lo além da superfície do noticiário, é preciso recorrer a um método antigo: comparar o presente com os arquétipos do passado.
Ao observar padrões de comportamento, discurso e exercício de autoridade, surge uma pergunta incômoda, porém legítima: com quem Alexandre de Moraes se pareceria se vivesse entre 100 a.C. e 200 d.C., período decisivo da Roma Antiga?
Alexandre de Moraes: o juiz que fala como instituição

Alexandre de Moraes não construiu sua imagem pública como indivíduo carismático nem como conciliador político. Seu discurso é técnico, duro, reiterativo e sempre ancorado em três pilares: Ordem, Constituição e Democracia. Não há apelos emocionais nem tentativa de sedução da opinião pública. O que existe é a afirmação constante de autoridade.
Na prática, Alexandre de Moraes atua como se o ataque a determinadas condutas fosse, automaticamente, um ataque ao próprio Estado de Direito. Ao se colocar nessa posição, ele deixa de ser apenas um julgador e passa a operar como guardião ativo da estrutura institucional, ainda que isso implique expandir interpretações, concentrar decisões e tolerar elevados níveis de rejeição pública.
Essa lógica não é nova.
Roma: quando a crise exige centralização
Entre o fim da República Romana e o início do Império, Roma viveu um cenário de instabilidade crônica: guerras civis, conspirações, colapso de confiança nas instituições e medo constante do caos. Foi nesse ambiente que emergiram figuras que justificaram a ampliação de seus poderes não como ambição pessoal, mas como necessidade histórica.
Muitos nomes surgem nesse período — Júlio César, Cícero, Nero, Marco Aurélio. Mas, ao aplicar um filtro rigoroso, baseado em cinco critérios fundamentais (psicologia do poder, discurso, relação com instituições, gestão do conflito e construção de legado), apenas um personagem permanece coerente do início ao fim da comparação.
Augusto: o arquiteto silencioso da ordem
Otaviano, que mais tarde seria conhecido como Augusto, não governou Roma como um tirano declarado. Pelo contrário: manteve o Senado, preservou cargos republicanos e discursou, repetidamente, em nome da restauração da República. No entanto, todas as decisões relevantes passavam por ele.
Augusto compreendeu algo essencial: o poder mais duradouro não é o que se impõe pela força explícita, mas o que se apresenta como indispensável à sobrevivência do sistema. Ele não dizia governar Roma — dizia protegê-la do retorno ao caos.
É aqui que o espelho histórico se torna desconfortavelmente nítido.
O paralelo possível — e seus limites
Assim como Augusto, Alexandre de Moraes:
- Atua em um contexto de crise institucional;
- Justifica a ampliação de poder como medida de defesa do sistema;
- Centraliza decisões sem declarar ruptura formal;
- Neutraliza adversários antes que se tornem forças organizadas;
- Aceita a impopularidade como custo histórico.
Ambos operam sob a lógica do “se eu recuar, o sistema cai”. Ambos falam menos para convencer e mais para estabelecer limites. Ambos parecem governar pensando menos no presente e mais no julgamento futuro da História.
É fundamental destacar: a comparação não sugere tirania, ilegalidade ou ruptura democrática. Alexandre de Moraes atua dentro de um Estado de Direito, submetido a freios institucionais reais e sem controle sobre o Executivo ou as Forças Armadas. A analogia é comportamental e institucional, não literal.
O poder que se legitima pela necessidade
Augusto deixou registrado que “encontrou Roma de tijolos e a deixou de mármore”. Alexandre de Moraes, em essência, parece operar sob a mesma premissa simbólica: encontrar uma democracia ameaçada e deixá-la protegida — ainda que endurecida.
A História ensina que figuras assim raramente são consensuais em seu tempo. São defendidas por uns, odiadas por outros, e compreendidas apenas à distância. Se Alexandre de Moraes será lembrado como guardião necessário ou como símbolo de excessos institucionais, isso dependerá menos de seus atos isolados e mais de como o sistema sobreviverá após ele.
Roma sobreviveu a Augusto — e nunca mais foi a mesma.
O Brasil, talvez, esteja vivendo um daqueles momentos em que o futuro julgará não apenas os atos, mas a lógica que os tornou possíveis.
Márcio Prado

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.