Alexandre de Moraes e o espelho da História: poder e ecos da Roma Antiga

Análise histórica compara o exercício de poder de Alexandre de Moraes a arquétipos da Roma Antiga em contextos de crise institucional

Crédito: Antônio Augusto/STF

A História raramente se repete, mas frequentemente rima. Em momentos de crise institucional, figuras de poder emergem não apenas para decidir, mas para encarnar o próprio sistema que dizem proteger. No Brasil contemporâneo, poucos personagens despertam tantas paixões, críticas e defesas quanto o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Para compreendê-lo além da superfície do noticiário, é preciso recorrer a um método antigo: comparar o presente com os arquétipos do passado.

Ao observar padrões de comportamento, discurso e exercício de autoridade, surge uma pergunta incômoda, porém legítima: com quem Alexandre de Moraes se pareceria se vivesse entre 100 a.C. e 200 d.C., período decisivo da Roma Antiga?

Alexandre de Moraes: o juiz que fala como instituição

Ministro do STF, Alexandre de Moraes
Imagem gerada por IA via ChatGPT (OpenAI)

Alexandre de Moraes não construiu sua imagem pública como indivíduo carismático nem como conciliador político. Seu discurso é técnico, duro, reiterativo e sempre ancorado em três pilares: Ordem, Constituição e Democracia. Não há apelos emocionais nem tentativa de sedução da opinião pública. O que existe é a afirmação constante de autoridade.

Na prática, Alexandre de Moraes atua como se o ataque a determinadas condutas fosse, automaticamente, um ataque ao próprio Estado de Direito. Ao se colocar nessa posição, ele deixa de ser apenas um julgador e passa a operar como guardião ativo da estrutura institucional, ainda que isso implique expandir interpretações, concentrar decisões e tolerar elevados níveis de rejeição pública.

Essa lógica não é nova.

Roma: quando a crise exige centralização

Entre o fim da República Romana e o início do Império, Roma viveu um cenário de instabilidade crônica: guerras civis, conspirações, colapso de confiança nas instituições e medo constante do caos. Foi nesse ambiente que emergiram figuras que justificaram a ampliação de seus poderes não como ambição pessoal, mas como necessidade histórica.

Muitos nomes surgem nesse período — Júlio César, Cícero, Nero, Marco Aurélio. Mas, ao aplicar um filtro rigoroso, baseado em cinco critérios fundamentais (psicologia do poder, discurso, relação com instituições, gestão do conflito e construção de legado), apenas um personagem permanece coerente do início ao fim da comparação.

Augusto: o arquiteto silencioso da ordem

Otaviano, que mais tarde seria conhecido como Augusto, não governou Roma como um tirano declarado. Pelo contrário: manteve o Senado, preservou cargos republicanos e discursou, repetidamente, em nome da restauração da República. No entanto, todas as decisões relevantes passavam por ele.

Augusto compreendeu algo essencial: o poder mais duradouro não é o que se impõe pela força explícita, mas o que se apresenta como indispensável à sobrevivência do sistema. Ele não dizia governar Roma — dizia protegê-la do retorno ao caos.

É aqui que o espelho histórico se torna desconfortavelmente nítido.

O paralelo possível — e seus limites

Assim como Augusto, Alexandre de Moraes:

  • Atua em um contexto de crise institucional;
  • Justifica a ampliação de poder como medida de defesa do sistema;
  • Centraliza decisões sem declarar ruptura formal;
  • Neutraliza adversários antes que se tornem forças organizadas;
  • Aceita a impopularidade como custo histórico.

Ambos operam sob a lógica do “se eu recuar, o sistema cai”. Ambos falam menos para convencer e mais para estabelecer limites. Ambos parecem governar pensando menos no presente e mais no julgamento futuro da História.

É fundamental destacar: a comparação não sugere tirania, ilegalidade ou ruptura democrática. Alexandre de Moraes atua dentro de um Estado de Direito, submetido a freios institucionais reais e sem controle sobre o Executivo ou as Forças Armadas. A analogia é comportamental e institucional, não literal.

O poder que se legitima pela necessidade

Augusto deixou registrado que “encontrou Roma de tijolos e a deixou de mármore”. Alexandre de Moraes, em essência, parece operar sob a mesma premissa simbólica: encontrar uma democracia ameaçada e deixá-la protegida — ainda que endurecida.

A História ensina que figuras assim raramente são consensuais em seu tempo. São defendidas por uns, odiadas por outros, e compreendidas apenas à distância. Se Alexandre de Moraes será lembrado como guardião necessário ou como símbolo de excessos institucionais, isso dependerá menos de seus atos isolados e mais de como o sistema sobreviverá após ele.

Roma sobreviveu a Augusto — e nunca mais foi a mesma.

O Brasil, talvez, esteja vivendo um daqueles momentos em que o futuro julgará não apenas os atos, mas a lógica que os tornou possíveis.

Márcio Prado

Márcio Prado - Peninha - Ribeirão Pires
Peninha (Divulgação)

Márcio Prado, mais conhecido como Peninha, carrega há anos o apelido inspirado no personagem dos gibis da Disney. Jornalista com mais de uma década de atuação, ele encontrou no jornalismo investigativo sua vocação, movido pela indignação diante de apurações superficiais e pela determinação em expor esquemas de corrupção, desvios de recursos e práticas ilícitas no poder público e na iniciativa privada. Seu trabalho vai além da publicação direta: muitas vezes contribui de forma anônima com órgãos de investigação, fortalecendo a cidadania e reafirmando o papel da imprensa como fiscal da sociedade.

  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 02/01/2026
  • Fonte: FERVER