Abuso online de jovens: 3 milhões de vítimas no país
Pesquisa internacional aponta que cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual online
- Publicado: 04/03/2026
- Alterado: 04/03/2026
- Autor: Suzana Rezende
- Fonte: UNICEF
Uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos sofreu, no período de um ano, algum tipo de abuso ou exploração sexual facilitados pela tecnologia. O dado representa aproximadamente 3 milhões de vítimas no país e integra o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, produzido pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.
O levantamento coloca o Brasil como o segundo país a divulgar os resultados da segunda fase da pesquisa global, que investiga como tecnologias digitais têm sido utilizadas para facilitar práticas de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes.
De acordo com o relatório, compreender essas dinâmicas é fundamental para aprimorar políticas públicas, fortalecer mecanismos de proteção e promover respostas coordenadas entre governos, sistema de Justiça, plataformas digitais e sociedade civil.
Durante coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira, representantes das organizações detalharam os achados e enfatizaram que o fenômeno não está restrito ao ambiente virtual.
“A pesquisa não se concentrou exclusivamente na violência que acontece 100% online. Ela olha para interações que muitas vezes iniciam online e depois migram para o presencial ou vice-versa”, explicou Luiza Teixeira, especialista em proteção à criança do UNICEF no Brasil.
Metodologia: entrevistas domiciliares e escuta da rede de proteção
A pesquisa combinou métodos quantitativos e qualitativos. Foram entrevistadas 1.029 crianças e adolescentes usuários de internet entre 12 e 17 anos, além de pelo menos um pai, mãe ou responsável por cada participante. As entrevistas ocorreram entre novembro de 2024 e março de 2025 e consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores.
Segundo Luiza Teixeira, apesar de a metodologia ser global, houve adaptação ao contexto brasileiro.
“É uma tecnologia global que foi adaptada para cada contexto nacional e nunca foi diferente no Brasil. Então, a gente teve todo um trabalho de pegar essa metodologia e adequar ao contexto nacional.”
Ela acrescentou que “todo o grupo que foi entrevistado, tanto de crianças e adolescentes, cuidadores e profissionais, foram daqui do Brasil”, incluindo a análise específica das leis e políticas públicas nacionais.
Além da etapa quantitativa, o estudo ouviu profissionais da linha de frente, integrantes do sistema de Justiça, forças de segurança e jovens que vivenciaram violência facilitada pela tecnologia na infância ou adolescência.
O que caracteriza a violência sexual facilitada pela tecnologia
O relatório esclarece que a expressão “facilitada pela tecnologia” abrange situações em que dispositivos digitais ou plataformas online são utilizados em algum momento da dinâmica da violência — seja para aliciar, coagir, produzir material, armazenar ou disseminar imagens.
Isso significa que o abuso pode ocorrer totalmente online, combinar interações digitais e presenciais ou acontecer fisicamente, com uso posterior da tecnologia para registrar ou compartilhar conteúdos.
“A pesquisa Disrupting Harm in Brazil revela que as tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abuso”, afirmou Marium Saeed, especialista em pesquisa do escritório de Estratégia e Evidência do UNICEF Innocenti.
Redes sociais e aplicativos concentram ocorrências

Entre os casos relatados, 66% ocorreram em ambientes online. Redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas foram citados em 64% das ocorrências, enquanto jogos online apareceram em 12%.
As plataformas mais mencionadas pelas vítimas foram o Instagram, citado por 59%, e o WhatsApp, mencionado por 51%.
A forma mais comum de violência identificada foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, que atingiu 14% dos entrevistados.
Durante a coletiva, especialistas detalharam que o processo muitas vezes começa com um contato aparentemente inofensivo.
“O abusador inicia um contato aparentemente inofensivo, faz essa conexão com a criança ou adolescente e, de repente, começa a enviar fotos de partes íntimas, fotos de situações sexuais, imagens, vídeos e assim por diante”, foi explicado na apresentação.
Conhecidos respondem por quase metade dos casos
O levantamento aponta que 49% dos perpetradores eram pessoas conhecidas da vítima. Em 26% dos casos eram desconhecidos, enquanto 25% não souberam ou não quiseram identificar o agressor.
Entre os casos envolvendo conhecidos, o primeiro contato ocorreu majoritariamente online (52%), mas também na escola (27%), na própria casa (11%) e em espaços esportivos (2%).
Para Luiza Teixeira, o dado reflete uma realidade já observada na violência presencial.
“Assim como acontece na violência presencial, a violência online também é praticada mais por conhecidos dessa criança ou desse adolescente.”
Questionada sobre os fatores por trás desse padrão, ela afirmou que a pesquisa não investigou motivações específicas, mas apontou elementos estruturais.
“É muito mais provável a criança aceitar o contato inicial de uma pessoa que ela pelo menos sabe quem é do que de um estranho completo.”
Ela acrescentou que o problema também envolve a forma como a sociedade enxerga a infância e adolescência.
“A gente tem mais de 35 anos no Estatuto da Criança e do Adolescente e, até hoje, a gente não aprendeu a enxergar crianças e adolescentes como pessoas, como sujeitos de direito.”
Ofertas de dinheiro e exploração econômica

O estudo também identificou situações em que crianças e adolescentes receberam propostas financeiras em troca de conteúdo sexual. Em um ano, 5% relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou vídeos, e 3% disseram ter recebido propostas para participação em atividades sexuais mediante pagamento.
Embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa entre área urbana ou rural, o relatório destaca que perpetradores frequentemente exploram vulnerabilidades econômicas.
Inteligência artificial e novos riscos
Outro dado considerado preocupante envolve o uso de inteligência artificial generativa para criar imagens ou vídeos sexualizados envolvendo crianças e adolescentes. Em um ano, 3% dos entrevistados relataram que alguém utilizou IA para produzir esse tipo de material.
O relatório relaciona o fenômeno ao avanço de tecnologias capazes de gerar conteúdos manipulados com aparência realista, ampliando os desafios para prevenção e responsabilização.
Silêncio, vergonha e desinformação
Entre as vítimas, 34% não contaram a ninguém sobre a violência sofrida.
Os principais motivos relatados foram não saber a quem recorrer (22%), sentir vergonha (21%) e acreditar que o ocorrido não era sério (12%).
“A gente precisa trabalhar muito na sensibilização (…) para não banalizar esse tipo de violência, mesmo que ela aconteça exclusivamente online, mas principalmente para não culpabilizar a vítima”, afirmou Luiza Teixeira.
Ela ressaltou que o ambiente familiar desempenha papel central no rompimento do silêncio.
“Elas só vão sentir confiança de relatar, de compartilhar e buscar ajuda se elas tiverem um ambiente seguro, acolhedor dentro de casa.”
Entre aqueles que relataram a violência, a maioria contou a amigos ou colegas. Em seguida aparecem cuidadoras do sexo feminino, como mães ou outras mulheres da família.
Impactos na saúde mental e no desenvolvimento
O estudo aponta que vítimas de violência sexual facilitada pela tecnologia apresentam índices significativamente mais altos de ansiedade, retração social e medo constante de exposição.
Segundo os dados, crianças que sofreram esse tipo de violência têm cinco vezes mais chances de se automutilar e cinco vezes mais chances de relatar pensamentos ou tentativas suicidas. Durante a coletiva, foi destacado que, uma vez que um material íntimo é disseminado na internet, sua remoção completa é difícil, o que prolonga o sofrimento.
Implementação das leis é desafio central
Embora o Brasil possua legislação considerada avançada na proteção de crianças e adolescentes, o relatório aponta desafios na implementação.
Andrea Varrella, chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança da ECPAT International, afirmou que “o Brasil construiu uma base legal sólida para proteger e cuidar de crianças submetidas à exploração e ao abuso sexual facilitados pela tecnologia. O que a pesquisa revela são lacunas na forma como a lei é implementada”
Luiza Teixeira reforçou o ponto durante a coletiva:
“Em termos de leis e políticas, o Brasil, de fato, está muito avançado na proteção de crianças e adolescentes. Porém, o nosso grande desafio (…) é colocar essas leis e políticas na prática.”
Investigação enfrenta volume crescente de casos
Miriam Longo, coordenadora de dados, tecnologia e produtos da unidade de crimes contra crianças da INTERPOL, destacou que o volume de ocorrências representa um dos principais obstáculos para as forças de segurança.
“É um volume muito grande de casos a serem investigados e obviamente que a gente precisa contar com a tecnologia para nos ajudar, porque os recursos são finitos.”
Ela ressaltou que a cooperação internacional e o uso de ferramentas tecnológicas são fundamentais para lidar com o cenário atual.
“A gente só consegue realmente fazer alguma coisa e dar essa proteção integral à criança se a gente trabalhar de uma maneira coordenada.”
Responsabilidade compartilhada
O relatório conclui que o enfrentamento da violência sexual facilitada pela tecnologia exige atuação integrada entre governo, sistema de Justiça, escolas, famílias, setor privado e plataformas digitais.
“Precisamos de protocolos padronizados para atendimento, centrados nas crianças e adolescentes do país, atualizar as leis de proteção (…) diante dos desafios tecnológicos emergentes”, afirmou Joaquin Gonzalez-Aleman durante a coletiva.
O estudo será apresentado a ministérios e diferentes esferas do poder público com o objetivo de subsidiar políticas e estratégias de prevenção.
Ao reunir dados quantitativos, relatos de sobreviventes, entrevistas com profissionais e análise do arcabouço jurídico, a pesquisa traça um panorama abrangente sobre a violência sexual facilitada pela tecnologia no Brasil e evidencia que o ambiente digital, embora amplie riscos, também exige respostas estruturais e coordenadas para garantir a proteção integral de crianças e adolescentes.