Abuso online de jovens: 3 milhões de vítimas no país

Pesquisa internacional aponta que cerca de 3 milhões de crianças e adolescentes foram vítimas de violência sexual online

Crédito: Suzana Rezende/ ABCdoABC

Uma em cada cinco crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos sofreu, no período de um ano, algum tipo de abuso ou exploração sexual facilitados pela tecnologia. O dado representa aproximadamente 3 milhões de vítimas no país e integra o relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, produzido pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, com financiamento da Safe Online.

O levantamento coloca o Brasil como o segundo país a divulgar os resultados da segunda fase da pesquisa global, que investiga como tecnologias digitais têm sido utilizadas para facilitar práticas de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes.

De acordo com o relatório, compreender essas dinâmicas é fundamental para aprimorar políticas públicas, fortalecer mecanismos de proteção e promover respostas coordenadas entre governos, sistema de Justiça, plataformas digitais e sociedade civil.

Durante coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira, representantes das organizações detalharam os achados e enfatizaram que o fenômeno não está restrito ao ambiente virtual.

A pesquisa não se concentrou exclusivamente na violência que acontece 100% online. Ela olha para interações que muitas vezes iniciam online e depois migram para o presencial ou vice-versa”, explicou Luiza Teixeira, especialista em proteção à criança do UNICEF no Brasil.

Metodologia: entrevistas domiciliares e escuta da rede de proteção

A pesquisa combinou métodos quantitativos e qualitativos. Foram entrevistadas 1.029 crianças e adolescentes usuários de internet entre 12 e 17 anos, além de pelo menos um pai, mãe ou responsável por cada participante. As entrevistas ocorreram entre novembro de 2024 e março de 2025 e consideraram experiências vividas nos 12 meses anteriores.

Segundo Luiza Teixeira, apesar de a metodologia ser global, houve adaptação ao contexto brasileiro.

“É uma tecnologia global que foi adaptada para cada contexto nacional e nunca foi diferente no Brasil. Então, a gente teve todo um trabalho de pegar essa metodologia e adequar ao contexto nacional.”

Ela acrescentou que “todo o grupo que foi entrevistado, tanto de crianças e adolescentes, cuidadores e profissionais, foram daqui do Brasil”, incluindo a análise específica das leis e políticas públicas nacionais.

Além da etapa quantitativa, o estudo ouviu profissionais da linha de frente, integrantes do sistema de Justiça, forças de segurança e jovens que vivenciaram violência facilitada pela tecnologia na infância ou adolescência.

O que caracteriza a violência sexual facilitada pela tecnologia

O relatório esclarece que a expressão “facilitada pela tecnologia” abrange situações em que dispositivos digitais ou plataformas online são utilizados em algum momento da dinâmica da violência — seja para aliciar, coagir, produzir material, armazenar ou disseminar imagens.

Isso significa que o abuso pode ocorrer totalmente online, combinar interações digitais e presenciais ou acontecer fisicamente, com uso posterior da tecnologia para registrar ou compartilhar conteúdos.

A pesquisa Disrupting Harm in Brazil revela que as tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abuso”, afirmou Marium Saeed, especialista em pesquisa do escritório de Estratégia e Evidência do UNICEF Innocenti.

Redes sociais e aplicativos concentram ocorrências

Pesquisa unicef abuso online de jovens
Suzana Rezende / ABCdoABC

Entre os casos relatados, 66% ocorreram em ambientes online. Redes sociais e aplicativos de mensagens instantâneas foram citados em 64% das ocorrências, enquanto jogos online apareceram em 12%.

As plataformas mais mencionadas pelas vítimas foram o Instagram, citado por 59%, e o WhatsApp, mencionado por 51%.

A forma mais comum de violência identificada foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado, que atingiu 14% dos entrevistados.

Durante a coletiva, especialistas detalharam que o processo muitas vezes começa com um contato aparentemente inofensivo.

“O abusador inicia um contato aparentemente inofensivo, faz essa conexão com a criança ou adolescente e, de repente, começa a enviar fotos de partes íntimas, fotos de situações sexuais, imagens, vídeos e assim por diante”, foi explicado na apresentação.

Conhecidos respondem por quase metade dos casos

O levantamento aponta que 49% dos perpetradores eram pessoas conhecidas da vítima. Em 26% dos casos eram desconhecidos, enquanto 25% não souberam ou não quiseram identificar o agressor.

Entre os casos envolvendo conhecidos, o primeiro contato ocorreu majoritariamente online (52%), mas também na escola (27%), na própria casa (11%) e em espaços esportivos (2%).

Para Luiza Teixeira, o dado reflete uma realidade já observada na violência presencial.

“Assim como acontece na violência presencial, a violência online também é praticada mais por conhecidos dessa criança ou desse adolescente.”

Questionada sobre os fatores por trás desse padrão, ela afirmou que a pesquisa não investigou motivações específicas, mas apontou elementos estruturais.

É muito mais provável a criança aceitar o contato inicial de uma pessoa que ela pelo menos sabe quem é do que de um estranho completo.”

Ela acrescentou que o problema também envolve a forma como a sociedade enxerga a infância e adolescência.

“A gente tem mais de 35 anos no Estatuto da Criança e do Adolescente e, até hoje, a gente não aprendeu a enxergar crianças e adolescentes como pessoas, como sujeitos de direito.”

Ofertas de dinheiro e exploração econômica

Pesquisa unicef abuso online de jovens
Suzana Rezende / ABCdoABC

O estudo também identificou situações em que crianças e adolescentes receberam propostas financeiras em troca de conteúdo sexual. Em um ano, 5% relataram ter recebido ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens ou vídeos, e 3% disseram ter recebido propostas para participação em atividades sexuais mediante pagamento.

Embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa entre área urbana ou rural, o relatório destaca que perpetradores frequentemente exploram vulnerabilidades econômicas.

Inteligência artificial e novos riscos

Outro dado considerado preocupante envolve o uso de inteligência artificial generativa para criar imagens ou vídeos sexualizados envolvendo crianças e adolescentes. Em um ano, 3% dos entrevistados relataram que alguém utilizou IA para produzir esse tipo de material.

O relatório relaciona o fenômeno ao avanço de tecnologias capazes de gerar conteúdos manipulados com aparência realista, ampliando os desafios para prevenção e responsabilização.

Silêncio, vergonha e desinformação

Entre as vítimas, 34% não contaram a ninguém sobre a violência sofrida.

Os principais motivos relatados foram não saber a quem recorrer (22%), sentir vergonha (21%) e acreditar que o ocorrido não era sério (12%).

“A gente precisa trabalhar muito na sensibilização (…) para não banalizar esse tipo de violência, mesmo que ela aconteça exclusivamente online, mas principalmente para não culpabilizar a vítima”, afirmou Luiza Teixeira.

Ela ressaltou que o ambiente familiar desempenha papel central no rompimento do silêncio.

“Elas só vão sentir confiança de relatar, de compartilhar e buscar ajuda se elas tiverem um ambiente seguro, acolhedor dentro de casa.”

Entre aqueles que relataram a violência, a maioria contou a amigos ou colegas. Em seguida aparecem cuidadoras do sexo feminino, como mães ou outras mulheres da família.

Impactos na saúde mental e no desenvolvimento

O estudo aponta que vítimas de violência sexual facilitada pela tecnologia apresentam índices significativamente mais altos de ansiedade, retração social e medo constante de exposição.

Segundo os dados, crianças que sofreram esse tipo de violência têm cinco vezes mais chances de se automutilar e cinco vezes mais chances de relatar pensamentos ou tentativas suicidas. Durante a coletiva, foi destacado que, uma vez que um material íntimo é disseminado na internet, sua remoção completa é difícil, o que prolonga o sofrimento.

Implementação das leis é desafio central

Embora o Brasil possua legislação considerada avançada na proteção de crianças e adolescentes, o relatório aponta desafios na implementação.

Andrea Varrella, chefe do Programa Justiça e Direitos da Criança da ECPAT International, afirmou que “o Brasil construiu uma base legal sólida para proteger e cuidar de crianças submetidas à exploração e ao abuso sexual facilitados pela tecnologia. O que a pesquisa revela são lacunas na forma como a lei é implementada

Luiza Teixeira reforçou o ponto durante a coletiva:

“Em termos de leis e políticas, o Brasil, de fato, está muito avançado na proteção de crianças e adolescentes. Porém, o nosso grande desafio (…) é colocar essas leis e políticas na prática.”

Investigação enfrenta volume crescente de casos

Miriam Longo, coordenadora de dados, tecnologia e produtos da unidade de crimes contra crianças da INTERPOL, destacou que o volume de ocorrências representa um dos principais obstáculos para as forças de segurança.

“É um volume muito grande de casos a serem investigados e obviamente que a gente precisa contar com a tecnologia para nos ajudar, porque os recursos são finitos.”

Ela ressaltou que a cooperação internacional e o uso de ferramentas tecnológicas são fundamentais para lidar com o cenário atual.

“A gente só consegue realmente fazer alguma coisa e dar essa proteção integral à criança se a gente trabalhar de uma maneira coordenada.”

Responsabilidade compartilhada

O relatório conclui que o enfrentamento da violência sexual facilitada pela tecnologia exige atuação integrada entre governo, sistema de Justiça, escolas, famílias, setor privado e plataformas digitais.

Precisamos de protocolos padronizados para atendimento, centrados nas crianças e adolescentes do país, atualizar as leis de proteção (…) diante dos desafios tecnológicos emergentes”, afirmou Joaquin Gonzalez-Aleman durante a coletiva.

O estudo será apresentado a ministérios e diferentes esferas do poder público com o objetivo de subsidiar políticas e estratégias de prevenção.

Ao reunir dados quantitativos, relatos de sobreviventes, entrevistas com profissionais e análise do arcabouço jurídico, a pesquisa traça um panorama abrangente sobre a violência sexual facilitada pela tecnologia no Brasil e evidencia que o ambiente digital, embora amplie riscos, também exige respostas estruturais e coordenadas para garantir a proteção integral de crianças e adolescentes.

  • Publicado: 04/03/2026
  • Alterado: 04/03/2026
  • Autor: 04/03/2026
  • Fonte: UNICEF