ABC Cast Conexões debate o desafio real da educação inclusiva
Historiadora e psicopedagoga, Leide Maia analisa a nova legislação, o fim do improviso nas escolas e os desafios para professores, famílias e estudantes
- Publicado: 18/07/2026 12:45
- Alterado: 18/07/2026 12:50
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
Um estudante pode passar anos dentro de uma escola e ainda assim não ser plenamente visto por ela. Pode assistir às aulas, entregar atividades, circular pelos corredores, conviver com colegas e professores, mas continuar aprendendo em desvantagem porque ninguém percebeu, perguntou ou organizou a rotina para que ele tivesse as mesmas condições de participação. A educação inclusiva, muitas vezes, começa nesse detalhe que parece simples, mas muda tudo, como a posição de uma carteira, a forma como o professor fala, a escuta da família e o reconhecimento de uma necessidade que sempre esteve ali.
No 14º episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões, a historiadora e psicopedagoga Leide Maia analisa os impactos do Decreto nº 12.686/2025, do Decreto nº 12.773/2025 e da Portaria nº 421/2026 do Ministério da Educação. Formada pela Universidade de São Paulo e especialista em História da África e Psicopedagogia, Leide é cofundadora do Espaço Mosaico e da plataforma MAIA, além de atuar com diversidade, inclusão, acessibilidade e defesa de direitos de pessoas com deficiência intelectual.
Durante a entrevista, Leide aborda as mudanças práticas que chegam às escolas com a nova legislação da educação inclusiva. Entre elas estão a elaboração de planos individuais, o fortalecimento do Atendimento Educacional Especializado, a formação de professores, o uso de tecnologias de apoio e a necessidade de organizar a escola para responder à diversidade que já existe dentro das salas de aula.

Para Leide Maia, o ponto central está na forma como a escola se estrutura. Durante muitos anos, estudantes com deficiência foram recebidos por meio de adaptações feitas caso a caso, quase sempre depois que a dificuldade já estava instalada. A nova legislação da educação inclusiva cobra planejamento anterior, registro pedagógico, acompanhamento contínuo e articulação entre gestão, docentes, famílias e equipes de apoio.
A própria trajetória de Leide ajuda a explicar esse olhar. Ao falar sobre sua formação em História, ela afirma que o curso lhe deu uma visão ampla e crítica do mundo. “A história tem um papel fundamental, que é a gente poder olhar para esse passado, compreender processos, o passado, o que aconteceu e como aconteceu, e ter esse olhar a partir de questões que a gente se coloca no presente”, afirma.
Leide lembra que sua atuação começou em cursinhos populares, escola pública e projetos sociais em Paraisópolis, sempre com a educação entendida como transformação social. A inclusão escolar aparece em sua fala como parte de uma disputa histórica por acesso, permanência e aprendizagem. A presença do estudante na escola importa, mas só ganha sentido quando a instituição cria condições para que ele participe da rotina, acompanhe o conteúdo e seja reconhecido como parte da comunidade escolar.
A lei que tira a educação inclusiva do improviso

Ao tratar dos novos decretos e da Portaria nº 421/2026 do Ministério da Educação, Leide Maia situa a legislação dentro de um processo mais amplo de reconhecimento de direitos. Para a historiadora e psicopedagoga, as mudanças dialogam com um percurso marcado pela Constituição, pela Lei Brasileira de Inclusão, por convenções internacionais e por décadas de atuação de famílias, educadores, instituições e pessoas com deficiência pelo direito de estar na escola. Durante muito tempo, estudantes com deficiência foram afastados da escola regular, encaminhados a espaços segregados ou privados do acesso à educação. A presença desses alunos nas salas de aula brasileiras é resultado de uma construção recente, ainda atravessada por tensões.
Nesse contexto, os novos dispositivos legais para a educação inclusiva organizam responsabilidades e ajudam a orientar o funcionamento das escolas diante de uma diversidade que já faz parte da rotina escolar. “Eu diria que a principal mudança desse momento que a gente está vivendo hoje não é necessariamente jurídica”, afirma. Segundo Leide, o ponto central está na concepção de escola. Durante muitos anos, a inclusão foi tratada como adaptação feita depois que o estudante chegava. “Durante muito tempo a inclusão foi tratada como como eu faço um arranjo aqui, uma adaptação para esses alunos que estão chegando numa escola que eles não estavam”, diz.
Com os decretos e a portaria, a discussão passa a envolver projeto político-pedagógico, currículo, Atendimento Educacional Especializado, Plano de Atendimento Educacional Especializado e Plano Educacional Individualizado. Esses instrumentos ajudam a escola a reconhecer necessidades, definir estratégias, acompanhar trajetórias e construir respostas pedagógicas com mais organização. Com isso, a responsabilidade também se amplia. Gestão, professores, equipes de apoio, famílias, redes de ensino e políticas públicas precisam atuar de forma articulada para que a inclusão não dependa apenas da iniciativa isolada de um docente ou da pressão de uma família. A escola passa a ser chamada a planejar sua estrutura, seus recursos e suas práticas a partir da diversidade de estudantes que já ocupam as salas de aula.
Leide Maia sintetiza essa virada ao afirmar que a escola precisa organizar respostas antes que a exclusão apareça na prática. Para ela, a legislação aponta para uma instituição que planeja a diversidade como parte da rotina. “O centro é compreender que a educação inclusiva, a escola para todos, deixa de ser um conjunto de adaptações, mas passa, a partir de agora, a orientar um planejamento, a construção dessa escola”, afirma.
A escola não precisa esperar o laudo

Uma das mudanças mais relevantes apontadas por Leide Maia está na forma como a escola passa a olhar para estudantes que apresentam dificuldades de aprendizagem, participação ou permanência, mesmo quando ainda não existe um diagnóstico formal. Antes, a resposta escolar era condicionada ao laudo. Sem um documento médico ou uma avaliação específica, muitos alunos permaneciam em uma espera institucional. Os sinais apareciam na rotina, mas faltava o papel que parecia autorizar a escola a agir.
É importante ressaltar que o acesso ao diagnóstico também revela desigualdades. Muitas famílias dependem de serviços públicos pressionados, enfrentam filas, vivem longe de centros especializados ou não conseguem identificar rapidamente o que está afetando a aprendizagem de seus filhos. Quando a escola aguarda exclusivamente esse documento, o cuidado pedagógico pode chegar tarde para estudantes que já enfrentam barreiras dentro da sala de aula.
Leide explica que a nova legislação permite pensar acessibilidade, Plano Educacional Individualizado e Atendimento Educacional Especializado sem depender sempre da existência prévia de um diagnóstico. “A nova atualização tira a necessidade, a obrigatoriedade de que o aluno tenha um laudo para que ele possa ter um atendimento educacional especializado”, afirma. A mudança amplia, então, a capacidade da escola de observar estudantes com dislexia, deficiência intelectual, dificuldades temporárias de aprendizagem ou outras necessidades educativas específicas ainda não formalizadas.
A discussão também amplia o entendimento sobre quem pode precisar de apoio pedagógico. Leide cita estudantes com transtornos de aprendizagem, TDAH, autismo, transtorno opositor, questões de comportamento, ansiedade, depressão e outras situações que interferem diretamente no percurso escolar. Mesmo quando não se trata de deficiência nos termos legais, essas condições podem criar necessidades educativas específicas e exigir respostas da escola.
O cuidado pedagógico continua exigindo critérios, acompanhamento e responsabilidade. O que Leide defende é uma escola capaz de agir diante da diversidade que já existe dentro da sala. Quando um aluno não acompanha a explicação porque não escuta bem, quando outro não consegue manter a atenção, quando uma criança ainda não se alfabetizou no tempo esperado ou quando um adolescente passa por sofrimento psíquico, a resposta não pode depender apenas da família conseguir chegar a um especialista.
A ideia de desenho universal para aprendizagem aparece nesse ponto. Ao oferecer diferentes formas de acesso ao conhecimento, a escola reduz barreiras antes que elas se transformem em exclusão. A educação inclusiva, começa quando a instituição reconhece que aprender não acontece do mesmo jeito para todos e que a responsabilidade pedagógica precisa chegar antes da burocracia.
O professor não pode sustentar a inclusão sozinho

A nova legislação amplia responsabilidades e leva a discussão sobre a educação inclusiva para uma das partes mais sensíveis da educação brasileira, as condições de trabalho de quem está todos os dias diante da sala de aula. Planos individuais, formação continuada, registros pedagógicos e novas práticas exigem tempo, equipe, estrutura e acompanhamento. Sem isso, a inclusão corre o risco de depender da resistência individual do professor, justamente o profissional que já lida com turmas diversas, demandas acumuladas e pouca margem para planejamento.
Ao comentar o sentimento de muitos docentes diante dessa realidade, Leide Maia reconhece uma dificuldade recorrente. “Essa sensação de solidão que o professor por muitas vezes sente em relação às demandas que se apresentam ali no contexto de sala de aula é muito grande”, afirma. Ela ressalta que a escola pode ter legislação, currículo e discurso inclusivo, mas o professor ainda pode se sentir sozinho quando precisa atender diferentes ritmos, necessidades, comportamentos e barreiras dentro de uma mesma turma.
Para Leide, a formação continuada é necessária, especialmente diante das novas exigências legais da educação inclusiva. Ainda assim, ela precisa vir acompanhada de valorização da carreira, melhores condições de trabalho, tempo para estudo, organização das equipes e apoio pedagógico real. “A formação é parte dessa solução, mas ela precisa vir acompanhada de condições reais de trabalho”, diz.
A entrevistada também reforça que o problema não está na falta de capacidade dos professores. “A gente tem excelentes professores, excelentes. A questão está nas condições oferecidas para que esses profissionais consigam exercer o próprio trabalho com qualidade. Muitos docentes atuam em duas ou três escolas, acumulam jornadas extensas e têm pouco tempo institucional para formação, planejamento coletivo e análise cuidadosa das necessidades dos alunos”, afirma.
Quando uma mesma sala reúne estudantes com deficiência, transtornos de aprendizagem, dificuldades temporárias, sofrimento psíquico, defasagens acumuladas e diferentes formas de aprender, a resposta precisa envolver toda a escola. Esse trabalho exige equipe, apoio pedagógico, articulação com o Atendimento Educacional Especializado, participação da gestão e diálogo constante com as famílias.
A psicopedagoga também trata do risco de a educação inclusiva virar conflito entre escola e responsáveis quando não há estrutura para cumprir o que a lei determina. A resposta, segundo ela, passa por dividir responsabilidades. A inclusão “não pode ser responsabilidade só do professor que está ali no chão de sala de aula”, diz. A escola inclusiva depende de uma comunidade escolar capaz de organizar recursos, apoiar seus profissionais e reconhecer que ensinar estudantes diferentes exige planejamento coletivo.
Tecnologia como apoio à educação inclusiva

A aplicação da nova legislação para a educação inclusiva também passa pelo uso de tecnologia na rotina escolar. Se a escola precisa elaborar planos, acompanhar trajetórias, adaptar recursos, registrar estratégias e dialogar com famílias e profissionais, esses processos precisam ser organizados de forma acessível para a equipe pedagógica. Sem essa organização, a inclusão pode se transformar em mais uma tarefa acumulada sobre o professor.
A plataforma MAIA aparece na entrevista como uma das ferramentas criadas para apoiar esse trabalho. Cofundadora da iniciativa, Leide Maia explica que a tecnologia foi pensada para ajudar escolas no acompanhamento de estudantes, na organização de documentos, na produção de recursos didáticos acessíveis e na elaboração de avaliações mais adequadas às necessidades de cada aluno. “A gente ter tecnologias e recursos que possam contribuir para diminuir essa carga dos professores é outro ponto importante”, afirma.

Para Leide, ferramentas bem estruturadas ajudam a reunir informações, acompanhar o desenvolvimento dos estudantes e transformar registros pedagógicos em decisões mais claras para a equipe escolar. Esse apoio se torna ainda mais relevante quando a escola precisa construir Plano Educacional Individualizado, Plano de Atendimento Educacional Especializado e estratégias de acessibilidade sem reduzir tudo ao preenchimento de formulários.
Leide também faz uma ressalva importante sobre os limites da tecnologia. Recursos digitais podem ampliar possibilidades, organizar dados e facilitar a comunicação entre escola, família e rede de apoio, mas não assumem o lugar do vínculo pedagógico, da escuta e do trabalho docente. “Também não tem tecnologia que vá substituir, tá, professor, e nem a escola tem que ter essa concepção”, aponta. O objetivo da tecnologia não é substituir o professor, mas oferecer condições para que a escola organize melhor uma responsabilidade que pertence a toda a comunidade escolar.
A diversidade já faz parte da escola
A discussão sobre educação inclusiva ganha outra dimensão quando Leide Maia trata a deficiência como parte da experiência humana. A legislação é importante porque organiza direitos, define responsabilidades e cria instrumentos para orientar as escolas, mas a aplicação depende de estrutura, formação, financiamento, escuta e trabalho coletivo. Entre o texto legal e a rotina de uma sala de aula, existe uma distância que só diminui quando redes de ensino, gestores, professores, famílias e profissionais de apoio constroem respostas possíveis para cada realidade.
Leide reconhece que o Brasil tem uma base legal consistente, embora a prática ainda encontre obstáculos. “A gente tem uma legislação muito boa, mas quando ela parte para aplicação, tem aí seus desafios e esse gap que é muito grande”, admite. Para ela, a existência da lei não resolve tudo de imediato, mas cria condições para que o direito seja reivindicado, organizado e transformado em políticas concretas. “Nada a gente vai conseguir se a gente não começa com essa legislação”, diz.

A entrevistada também chama atenção para casos que exigem respostas muito específicas, como pessoas com múltiplas deficiências, estudantes que precisam de apoio contínuo e adultos com deficiência que seguem necessitando de espaços de aprendizagem, convivência e desenvolvimento. Nessas situações, as soluções raramente cabem em modelos prontos. Leide fala em “construções artesanais”. O ponto central não está em decidir previamente quem pode ocupar a escola, aprender, trabalhar ou participar da vida social, mas sim, em quebrar as barreiras que impedem essa participação. “A deficiência não é uma exceção, ela faz parte da condição humana”, diz.
Na escola, esse debate ganha urgência porque a diversidade já está presente nas salas de aula. Leide lembra que professores lidam todos os dias com estudantes com ritmos, necessidades, histórias e formas diferentes de aprender. “Essa turma é diversa, já faz tempo. Essa escola já é diversa. Então, a gente tem que lidar com isso”, afirma. A nova legislação exige que essa complexidade seja planejada, registrada, acompanhada e assumida pela instituição. Por isso, Plano Educacional Individualizado, Plano de Atendimento Educacional Especializado e registros pedagógicos não podem funcionar apenas como documentos formais. O objetivo desses instrumentos é organizar decisões que ajudem o estudante a aprender, participar e pertencer. Quando viram papel preenchido para evitar conflito, perdem força pedagógica e afastam a escola da finalidade principal da inclusão.
Leide também defende que a rede de apoio respeite o conhecimento construído dentro da escola. Profissionais externos, famílias e especialistas podem contribuir, mas o trabalho inclusivo precisa fortalecer a equipe escolar e reconhecer o papel do professor. “Eu não posso estar sozinho ali. Educação inclusiva exige corresponsabilidade dos docentes, famílias e estudantes”, pontua
Ao final da conversa, Leide Maia concluí que a matrícula e a presença física não bastam para garantir uma educação inclusiva. A escola precisa planejar antes da urgência, escutar antes do conflito, identificar barreiras antes da exclusão e reconhecer que diferentes formas de aprender fazem parte da sua rotina. Quando essa cultura se estabelece, a legislação deixa de ser apenas uma obrigação externa e passa a orientar uma prática escolar realmente comprometida com todos os estudantes.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Leide Maia, cofundadora do Espaço Mosaico e da plataforma MAIA foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista Carlos Enriki, criador do Papeando Movie. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Confira a entrevista completa com Leide Maia:
Além do canal no YouTube, o episódio com Leide Maia pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.