ABC Cast Conexões e a Angola que o Brasil ainda não conhece
Artista multimídia e idealizador da Casa de Angola, Isidro Sanene fala sobre arte, oralidade e as pontes culturais entre Benguela e São Paulo
- Publicado: 06/07/2026 10:28
- Alterado: 06/07/2026 10:52
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A África não é um país. É um continente imenso, formado por nações, povos, idiomas, cidades e experiências históricas próprias. Tratar toda essa diversidade como uma única realidade apaga diferenças fundamentais e mantém vivas imagens que reduzem o continente à escravização, à fome, à guerra ou a uma ancestralidade distante.
Essa distinção é essencial para chegar a Angola, país de origem de Isidro Sanene. Natural de Benguela e integrante da etnia ovimbundu, ele vive em São Paulo e construiu uma trajetória que atravessa literatura, artes visuais, atuação, contação de histórias e gestão cultural. É também idealizador da Casa de Angola em São Paulo, espaço criado para aproximar brasileiros de referências culturais angolanas contemporâneas.
No 12º episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões, Isidro Sanene fala sobre a própria trajetória, a criação da Casa de Angola, a visita de um soberano ovimbundu ao Brasil e a delegação brasileira que seguirá para Benguela durante o 10º Prêmio Baobá. A conversa parte de Angola, mas alcança uma discussão maior sobre memória, oralidade e as formas como o Brasil ainda aprende a olhar para o continente africano.
O menino de Benguela que olhava o oceano

Antes de idealizar a Casa de Angola em São Paulo e de levar grupos brasileiros a Benguela, Isidro Sanene era um menino que observava o mar e tentava imaginar o mundo depois daquela linha. Nascido em uma cidade litorânea, cresceu em uma família pobre durante a guerra civil angolana, período que atravessou sua infância e moldou parte das perguntas que levaria para a vida. “Desde menino eu sempre me questionei o que tinha depois do oceano, depois do ponto do oceano. Eu sempre me questionei: o que que tem lá?”, conta.
A presença de tropas da ONU enviadas para o país e o contato com soldados brasileiros ajudaram a dar forma a essa curiosidade. O Brasil passou a existir, primeiro, como uma possibilidade distante, ligada a pessoas que chegavam de outro lado do Atlântico.
A arte entrou nesse percurso como um lugar de proteção e descoberta. Isidro começou a trabalhar cedo, vendendo água em uma praça, e foi nesse período que se aproximou da pintura. “Eu sempre me acolhi na arte, porque ainda menino eu fui abandonado pela minha mãe, aos quatro anos. Mas, ao mesmo tempo, muito curioso, eu queria me provar a mim mesmo que eu seria capaz na vida”, recorda.
O interesse pelas artes visuais cresceu a partir do encontro com uma obra de Amedeo Modigliani. A pintura abriu uma porta para uma trajetória que depois se desdobraria na escrita, no teatro, na contação de histórias e na produção cultural. A criação não apagou as marcas daquele período, mas ofereceu a Isidro Sanene uma linguagem para transformá-las em repertório e trabalho.
Anos depois, a pergunta feita diante do oceano ganharia outra dimensão. “Eu cheguei aqui no Brasil basicamente com 30 dólares no bolso e o que eu tinha era o sonho de trazer uma verdade no Brasil a respeito sobre o meu território”, afirma. O mar que antes marcava uma distância passou a ser o caminho entre Benguela e São Paulo, cidades que hoje sustentam grande parte de sua atuação cultural.
A casa criada para falar de Angola no presente

A chegada ao Brasil não encerrou a busca de Isidro Sanene por respostas sobre o outro lado do oceano. Ela transformou aquela curiosidade em trabalho. Em São Paulo, ele idealizou a Casa de Angola, espaço que passou a reunir atividades culturais, encontros e ações voltadas a aproximar brasileiros de um país que, muitas vezes, ainda aparece por aqui como referência distante ou genérica.
A proposta não nasceu para ensinar uma Angola congelada na história. Isidro Sanene queria apresentar o país de onde veio por meio de experiências vivas, da arte, da literatura, da oralidade e de conversas capazes de mostrar que Benguela, Luanda e tantos outros territórios angolanos pertencem ao presente. A Casa se tornou uma extensão prática daquilo que ele defende em sua trajetória, criar contato direto onde antes havia apenas imagens prontas.

Essa intenção ganhou uma dimensão especial em 2023, quando Isidro Sanene articulou a vinda ao Brasil de uma liderança tradicional ovimbundu, o Rei Tchongolola Tchongonga Ekuikui VI. A passagem do soberano por escolas, quilombos e movimentos negros colocou diante de crianças e adultos uma informação que, para muitos, parecia improvável, Angola também preserva reinos e autoridades tradicionais. “Teve um salto muito positivo, porque eu consegui, de alguma forma, levar o Rei Tchongolola Tchongonga Ekuikui VI para visitar vários quilombos, movimentos negros, escolas, crianças que choravam. Aquela coisa toda. Têm rei em Angola? Sim, tem”, conta.
Para uma parcela do público brasileiro, a história angolana costuma ser lembrada apenas pela violência colonial, pela guerra ou pela escravização. O encontro com o soberano não eliminou essa distância, mas criou uma imagem difícil de esquecer. Diante delas estava uma tradição existente, com memória, símbolos e continuidade, ligada a um país que segue produzindo cultura, pensamento e formas próprias de se reconhecer.
O Prêmio Baobá e a viagem que reúne vozes dos dois países

Este mês uma nova etapa desse trabalho leva Isidro Sanene de volta a Benguela. Entre os dias 7 e 14 de julho, ele estará à frente de uma delegação brasileira formada por educadores, artistas e contadores de histórias que participará da primeira edição internacional do 10º Prêmio Baobá, encontro dedicado à oralidade e à arte de contar histórias.
A viagem reúne pessoas que trabalham diariamente com a palavra falada em escolas, projetos culturais e espaços de formação. Ao chegarem a Benguela, os participantes encontram uma cidade que também faz parte da história de Isidro e que ajuda a explicar a relação dele com a literatura, a memória e a transmissão de saberes. “Eu sou psicopedagogo, então trabalho muito com a questão da contação de história, trabalho muito com essa questão de reafirmar a memória”, diz.
Em sua atuação, a oralidade não aparece como lembrança distante nem como recurso decorativo, mas como uma forma de ensinar, criar vínculos e fazer com que crianças e adultos reconheçam referências que, por muito tempo, ficaram fora das narrativas mais conhecidas sobre África e Brasil.
O Prêmio Baobá coloca essa prática no centro do intercâmbio. A delegação brasileira parte para ouvir, compartilhar repertórios e se aproximar de artistas e educadores angolanos que também trabalham com a força da palavra. A intenção não é buscar uma origem abstrata nem transportar respostas prontas para o Brasil. É permitir que experiências de contação, literatura e educação se encontrem em condições reais, com histórias, sotaques e repertórios próprios.
Para Isidro Sanene, Benguela é o ponto de partida para uma rede de relações culturais que hoje alcança São Paulo. A comitiva rumo ao Prêmio Baobá irá ampliar essa ponte e transformar a oralidade em um encontro concreto entre pessoas que carregam a palavra como instrumento de memória, criação e presença.
A África que não cabe em uma palavra

Depois de atravessar a infância em Benguela, construir uma casa cultural em São Paulo e levar uma delegação brasileira de volta a Angola, Isidro Sanene retorna a um ponto que parece apenas linguístico, mas tem efeito direto sobre a forma como um país é percebido. Para ele, usar a palavra África quando se quer falar de Angola, Benguela, Luanda ou qualquer outro território apaga histórias, cidades e experiências que precisam ser reconhecidas por seus próprios nomes.
Essa preocupação aparece também na relação com a imprensa. Isidro Sanene observa que muitos conteúdos ainda apresentam o continente africano por meio de imagens de guerra, fome e pobreza, sem diferenciar contextos ou localizar os problemas. “É urgente abandonar a pauta da África oprimida. Sempre querem falar da África como um lugar da miséria, da pobreza, de fome. Quando na verdade o continente africano tem mais de 54 países”, afirma.
A mudança que ele propõe começa pela precisão. “Tirar um pouco a expressão de África e começar a nomear as coisas. Nomear os lugares, nomear os problemas também.” Para Isidro Sanene, esse gesto interfere na maneira como brasileiros se relacionam com países africanos e com a própria herança cultural que atravessa o português, a música, as brincadeiras, a comida e tantos outros elementos presentes no cotidiano. Seu trabalho convida o público a enxergar um país vivo, diverso e contemporâneo, capaz de contar a própria história e de ser ouvido pelo nome que tem.
O outro também quer ser ouvido

A defesa de uma Angola vista com mais precisão não significa, para Isidro Sanene, apagar diferenças, conflitos ou experiências históricas. O ponto é não aceitar que essas diferenças se transformem em muros permanentes. Ao longo da conversa, sua trajetória entre Benguela e São Paulo aparece como tentativa de construir contato, seja por uma pintura, um livro infantil, uma visita a uma escola, a presença de um rei ovimbundu no Brasil ou uma roda de histórias em Benguela.
Na mensagem de encerramento do episódio, Isidro ampliou essa ideia. “Não percamos a esperança na nossa humanidade. O mundo está tentando nos colocar em caixinhas, eles vão fazer isso mesmo. Mas eu quero que você enxergue que, mesmo estando tudo bem você ser diferente, é muito mais importante conseguir enxergar o outro além das suas concepções ideológicas”, sintetiza o gestor cultural.
É nesse ponto que a arte ocupa um lugar decisivo no trabalho de Isidro Sanene. Sua atuação não se limita a apresentar Angola ao Brasil ou levar brasileiros a Benguela. Ela cria situações em que pessoas se aproximam de histórias que desconheciam e passam a reconhecer, no outro, uma experiência humana que não cabe em estereótipos, rótulos ou imagens prontas do outro. Esse outro, aliás, é alguém que também chora, é alguém que também sonha, é alguém que também quer paz, é alguém que também quer ser ouvido”, finaliza.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Isidro Sanene, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação de Giovana Baria, jornalista com ampla experiência em comunicação corporativa, relações públicas e gestão de reputação institucional. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Confira a entrevista completa com Isidro Sanene:
Além do canal no YouTube, o episódio com Isidro Sanene pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.