ABC Cast Conexões discute ansiedade na vida contemporânea

Psicóloga Nathalia Melo explica causas, sinais, impacto no trabalho e caminhos de cuidado com a Terapia Cognitivo-Comportamental

Crédito: (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O mundo corre em uma velocidade que o corpo não acompanha e a mente tenta, em vão, dar conta de tudo ao mesmo tempo. Notificações que não param, cobranças que se acumulam, metas inalcançáveis e a sensação permanente de estar atrasado para a própria vida. É dentro desse cenário de exaustão silenciosa que a ansiedade deixou de ser exceção e passou a ser rotina para milhões de pessoas. No último episódio da temporada 2025 do ABC Cast Conexões, a psicóloga Nathalia Melo, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, mergulha nessa realidade para desmistificar o que está por trás desse estado constante de alerta e apontar caminhos mais conscientes de autocuidado e reconexão interior.

Ao longo da conversa, ficou evidente que a ansiedade nem sempre nasce em grandes crises, mas no acúmulo de pequenas demandas cotidianas. Mensagens, prazos e expectativas se sobrepõem e constroem uma sensação de urgência permanente. “A gente vive num mundo que pede por performance o tempo todo e resultado o tempo todo. Além das questões sociais, de segurança e financeiras, tudo isso colabora para a ansiedade aumentar. Parece que é um monte de probleminhas que a gente vai tendo que administrar, e isso vai acumulando nossas questões, as preocupações vão acumulando”, explicou Nathalia. A consequência é uma mente sempre acelerada, incapaz de descansar, mesmo quando não há perigo real presente.

A psicóloga alertou ainda para a naturalização desse estado de tensão. Muitas pessoas passam a enxergar esse ritmo tóxico como algo normal, incorporando-o à própria identidade. “A gente vai normalizando essas preocupações, normalizando esse estado acelerado de ser. A gente quase coloca isso como, ‘eu sou assim. É assim mesmo, e a vida é essa… e não é’”, pontuou.

Quando a ansiedade deixa de ser saudável

Durante a entrevista, Nathalia explicou que a ansiedade, em sua origem, é uma resposta natural e até necessária, mas perde sua função protetiva quando se torna desproporcional. “A ansiedade é uma emoção. Ela não é nem boa, nem ruim. Ela é boa quando te faz se movimentar, mas quando ela te paralisa, ela já não é tão boa assim”, afirmou.

ABC Cast Conexões - Nathalia Melo - TCC - Ansiedade
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

O problema se instala quando a preocupação começa a interferir na rotina, “Quando a preocupação, a ansiedade, começa a tirar o seu sono, começa a tirar suas atividades cotidianas, começa a influenciar no seu dia a dia, isso já não é uma preocupação saudável”, explicou. Nesse estágio, pensamentos acelerados e cenários catastróficos passam a dominar a mente, criando um ciclo difícil de interromper sem apoio especializado.

Trabalho, produtividade e sinais no corpo

Outro ponto central do episódio foi a relação entre ansiedade e produtividade. Nathalia criticou a romantização do excesso de trabalho e alertou para o adoecimento psicológico que essa cultura provoca. “O ambiente de trabalho romantiza essa preocupação excessiva. O trabalhar muito e dar conta de tudo… só que isso tem um custo. A gente precisa olhar pra isso com crítica e não romantizar”, afirmou.

Ela lembrou que quadros como o burnout já são reconhecidos como questões sérias de saúde mental. “Hoje o burnout é entendido pela Organização Mundial da Saúde como uma questão de saúde mental. Isso acontece por decorrência desse excesso de preocupação no trabalho”. Além do impacto emocional, o corpo também sofre, tensão muscular, fadiga e sensação constante de esgotamento se tornam sinais de alerta.

ABC Cast Conexões - Nathalia Melo - TCC - Ansiedade
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Segundo Nathalia, não é raro que pacientes busquem médicos por sintomas físicos sem perceber que a raiz está na mente. “Quando você tem problemas de saúde mental ou física, a gente precisa lembrar que nós somos seres integrados”, explicou, destacando que mente e corpo não funcionam de forma separada.

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Terapia Cognitivo-Comportamental

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) aparece no episódio como um caminho concreto de reorganização da mente e da vida. Nathalia explica que o foco do processo terapêutico não está apenas no problema aparente, mas na forma como a pessoa interpreta e reage a ele no cotidiano. “A gente não estuda o probleminha em si, mas como esses probleminhas vão afetando o dia a dia da pessoa… e como ela pode lidar com isso de uma forma mais saudável”, afirmou. Na prática, a TCC ajuda o paciente a identificar pensamentos automáticos, crenças distorcidas e comportamentos impulsivos que alimentam a ansiedade, substituindo-os por percepções mais realistas e funcionais.

Ao longo do tratamento, a pessoa passa a desenvolver consciência sobre seus próprios gatilhos, aprende a questionar a validade de pensamentos catastróficos e constrói novas estratégias para enfrentar situações que antes pareciam intransponíveis. Em vez de continuar operando no piloto automático, o indivíduo passa a se observar com mais atenção, respeitar seus próprios limites e reconhecer sinais de exaustão antes que eles se tornem colapso. Pausar, silenciar, organizar rotinas, estabelecer fronteiras emocionais e buscar apoio deixam de ser vistos como fraqueza e passam a ser entendidos como atitudes conscientes de proteção e fortalecimento psíquico.

A TCC, nesse sentido, não é apenas um método terapêutico, mas uma ferramenta de reeducação emocional. Ela devolve ao sujeito a capacidade de se escutar, de compreender seus padrões e de escolher, com mais clareza, como quer viver. Esse movimento de reconexão não reorganiza apenas a mente, mas também a relação com o corpo, o trabalho, as relações e o próprio tempo. É, acima de tudo, um convite à retomada de si.

Autocuidado e reconexão interior

Nathalia encerrou a conversa reforçando que a ansiedade não precisa ser encarada como algo definitivo ou sem solução. “Você não precisa viver assim. Tem um jeito melhor de lidar com tudo isso, de uma forma mais leve e saudável”, afirmou. Segundo ela, uma das principais fontes de sofrimento está na antecipação de problemas que raramente se concretizam, lembrando que “95% do que você se preocupa não acontece”.

ABC Cast Conexões - Nathalia Melo - TCC - Ansiedade
(Edvaldo Barone/ABCdoABC)

Ao longo do episódio, a psicóloga destacou que o autocuidado não é um luxo, mas uma necessidade básica, especialmente em uma rotina marcada por excesso de cobrança, necessidade de desempenho constante e falta de pausas reais. Para ela, ações aparentemente simples, como respeitar limites, organizar melhor a rotina, cuidar do sono e buscar acompanhamento profissional, são decisivas para reduzir os impactos da ansiedade no dia a dia.

Encerrando a temporada do ABC Cast Conexões, o episódio com Nathalia Melo deixa uma mensagem prática e objetiva: é possível aprender a gerenciar a ansiedade com ferramentas adequadas, informação e apoio. A decisão de buscar ajuda é o primeiro passo para interromper o ciclo de esgotamento que hoje afeta milhares de pessoas.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

ABC Cast Conexões - Nathalia Melo -
Thiago Quirino, Nathalia Melo e Rodrigo Freitas (Edvaldo Barone/ABCdoABC)

A entrevista com Nathalia Melo, foi conduzida por Thiago Quirino e teve a participação do jornalista, relações públicas, radialista e comunicólogo, Rodrigo Freitas. A produção e a checagem de dados ficaram sob responsabilidade de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do ABCdoABC, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Assista ao episódio completo:

Além do canal no YouTube, a entrevista com Nathalia Melo, pode ser acessada pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 13/02/2026
  • Alterado: 13/02/2026
  • Autor: 02/12/2025
  • Fonte: Sorria!,