ABC Cast Conexões com Gabi Roncatti revela a cura através do riso

Atriz, escritora e risoterapeuta, a criadora do Rumo ao Riso discute afeto, escuta e humanização em ambientes hospitalares

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Poucos ambientes expõem tanto a fragilidade humana quanto um hospital. Entre corredores silenciosos, salas de espera e quartos marcados por diagnósticos difíceis, existe uma dimensão do cuidado que nem sempre aparece nos exames, nas prescrições ou nos protocolos médicos. Além da dor física, hospitais também concentram medo, ansiedade, exaustão emocional e a sensação constante de incerteza vivida não apenas pelos pacientes, mas por acompanhantes, familiares e profissionais da saúde. Em muitos casos, é justamente nesse espaço invisível que pequenas demonstrações de presença, escuta e acolhimento passam a ter um impacto profundo na forma como alguém enfrenta um tratamento.

É dentro dessa realidade que a atriz, escritora e risoterapeuta Gabi Roncatti construiu o projeto Rumo ao Riso, iniciativa voltada à humanização hospitalar por meio da palhaçaria terapêutica, da música, da literatura e da interação emocional com pacientes e acompanhantes. No sétimo episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões, a artista relembra que a percepção do riso como ferramenta real de transformação surgiu muito antes dos hospitais, ainda nos palcos de teatro, quando percebeu que provocar gargalhadas mudava completamente o estado emocional das pessoas. “Eu percebia que as pessoas saíam tão em êxtase do teatro por terem dado risada que você começa a analisar e pensar que, se isso acontece ali, aquilo vai mudar o dia daquela pessoa. Depois, quando comecei a visitar orfanatos, ONGs e outros lugares, eu sempre levava o riso junto. Mais tarde, fazendo stand-up, muitas pessoas falavam que chegaram muito mal ao show e estavam saindo bem. Foi aí que eu comecei a entender que existia alguma mudança real acontecendo dentro das pessoas”, afirma ao relembrar os primeiros contatos com aquilo que mais tarde se transformaria na risoterapia.

Gabi Roncatti - Rumo ao Riso - Risoterapia - ABC Cast Conexões
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Ao explicar a estrutura do projeto Rumo ao Riso, Gabi reforça que o trabalho desenvolvido nos hospitais exige estudo, responsabilidade e sensibilidade constante diante da condição emocional dos pacientes. “Se você não leva o riso a sério e não tem um estudo por trás disso, em vez de ajudar, você pode prejudicar. Quando a gente trabalha com pessoas em vulnerabilidade, principalmente dentro de hospitais, precisa entender o ambiente, entender os limites, entender o paciente e saber exatamente como agir. Não é só entrar brincando. Existe muita responsabilidade nisso”, explica.

O riso tratado com responsabilidade dentro dos hospitais

Ao longo da entrevista, Gabi Roncatti insiste em um ponto que costuma ser ignorado por quem observa a risoterapia apenas de fora, trabalhar com humor em ambientes hospitalares exige preparo técnico, estudo constante e uma leitura extremamente cuidadosa da condição emocional de cada paciente. Para ela, transformar o riso em ferramenta terapêutica não significa banalizar a dor, mas justamente compreender até onde o humor pode funcionar como aproximação, acolhimento e respiro emocional em espaços marcados por sofrimento e vulnerabilidade.

Para a idealizadora do Rumo ao Riso, entrar em um hospital sem preparo pode produzir o efeito oposto daquele que se pretende alcançar. “Quando você fala de palhaçaria terapêutica e de risoterapia dentro de um hospital, se você não leva o riso a sério e não tem um estudo por trás disso, em vez de ajudar, você pode prejudicar. A gente precisa tomar muito cuidado quando trabalha com pessoas em vulnerabilidade, principalmente por doença. Você pode entrar numa hemodiálise cantando música sobre comida e causar um transtorno horroroso, porque aquelas pessoas estão com fome, muitas vezes não podem comer, não podem beber água. Então existe muito estudo envolvido para entender o ambiente, o paciente e a forma correta de agir”, afirma.

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A discussão também revela que a risoterapia aplicada pelo projeto vai muito além da ideia de simplesmente “fazer alguém rir”. Segundo Gabi Roncatti, muitas vezes o principal trabalho acontece justamente na escuta, no silêncio e na capacidade de perceber emocionalmente o ambiente antes de qualquer interação. “A palhaçaria terapêutica, nem sempre é sobre brincadeira. A brincadeira é consequência. Tem momentos em que o paciente ou o acompanhante só precisam ser escutados. O nariz do palhaço funciona quase como uma abertura para o coração das pessoas. Quando eu chego caracterizada, muitas vezes alguém consegue falar de dores, medos e sentimentos que talvez não falasse em outra situação”, comenta.

Segundo Gabi, parte da sensibilidade construída ao longo dos anos dentro dos hospitais está também em compreender o momento emocional de cada quarto antes de qualquer interação. “Tem quarto que você não precisa falar nada. Você só precisa estar ali. Às vezes a pessoa não quer brincar, não quer cantar, não quer conversar, mas ela quer sentir que tem alguém presente. E presença ativa é isso, é estar ali de verdade, acolhendo sem invadir o espaço do outro”, explica ao defender que o cuidado emocional também passa pela capacidade de respeitar silêncio, luto e vulnerabilidade.

O hospital também adoece quem acompanha

Gabi Roncatti - Rumo ao Riso - Risoterapia - ABC Cast Conexões
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Além dos pacientes, Gabi também destaca o impacto emocional do projeto sobre acompanhantes e profissionais da saúde, frequentemente submetidos a jornadas de desgaste contínuo dentro dos hospitais. “Muitas vezes o acompanhante precisa de mais cuidado do que o próprio paciente. Principalmente mães que passam dias inteiros acompanhando filhos internados. E os profissionais da saúde também vivem uma pressão gigantesca. Às vezes só de você perguntar se aquela pessoa lembrou de se alongar, respirar ou descansar um pouco, o humor dela já muda. Então esse acolhimento precisa alcançar todo mundo que está ali dentro”, diz.

Para Gabi Roncatti, existe um desgaste emocional silencioso que recai sobre pessoas que precisam estar em um ambiente hospitalar. Ela afirma que o impacto emocional costuma ultrapassar aquilo que aparece nos prontuários médicos. “Quando se trata de criança, na maioria das vezes quem está ali acompanhando é a mãe. E muitas vezes essa mãe precisa de muito mais cuidado emocional do que a própria criança. Às vezes a criança está em coma, está debilitada, não consegue interagir, mas aquela mãe está ali há dias sem dormir direito, sem tomar banho direito, vivendo medo o tempo inteiro. Então quando a gente chega com acolhimento, com escuta e com presença, aquilo muda um pouco o estado emocional dela. E quando o acompanhante muda emocionalmente, isso também muda o ambiente em volta do paciente”, ressalta.

Esse impacto emocional contínuo, segundo ela, também atinge diretamente os próprios integrantes da equipe de risoterapia. Sobre a pressão psicológica provocada pelas experiências vividas dentro dos hospitais, Gabi Roncatti afirma que o grupo desenvolveu uma rotina de acompanhamento psicológico justamente para impedir que o sofrimento acumulado inviabilize o trabalho. “Tem coisas que a gente vê dentro do hospital que são muito cruéis e muito injustas. Se a gente não descarrega isso, não conversa, não se reabastece emocionalmente, a gente não consegue voltar no dia seguinte para cuidar de outras pessoas. A máscara do avião cai primeiro na gente. Se a gente não estiver bem, não consegue ajudar ninguém”, revela

Música, silêncio e presença como formas de cuidado

Gabi Roncatti - Rumo ao Riso - Risoterapia - ABC Cast Conexões
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Entre todas as linguagens utilizadas pelo projeto Rumo ao Riso, a música ocupa um espaço central dentro das intervenções realizadas nos hospitais. Mas, ao contrário da ideia de apresentações prontas ou performances ensaiadas, Gabi Roncatti explica que a música funciona quase como uma ferramenta de aproximação emocional, construída de maneira intuitiva e adaptada à energia de cada ambiente. Segundo ela, o objetivo não é simplesmente distrair o paciente, mas criar pequenas rupturas emocionais capazes de aliviar tensão, medo e ansiedade em momentos extremamente delicados. “As músicas foram todas muito estudadas. A gente trabalha com frequências que ajudam a acalmar, diminuir medo, trazer sensação de conforto e até ajudar o paciente a dormir melhor. Mas a parte mais importante é sentir o ambiente. Quando a gente entra num quarto, muitas vezes só sabe o nome da pessoa e a idade dela. O diagnóstico a gente evita saber justamente para não transformar aquele paciente na doença dele. Então você precisa perceber como aquela pessoa está, se ela quer conversar, se quer silêncio, se quer música, se quer brincar ou se só quer companhia”, informa.

Ao comentar o papel da música dentro dos hospitais, Gabi Roncatti também reforça que muitas vezes o efeito terapêutico está menos na canção em si e mais na memória afetiva que ela desperta. “Tem paciente que pede uma música que não ouvia fazia anos. E quando aquilo toca, ele volta emocionalmente para um lugar feliz da vida dele. Às vezes a pessoa lembra da infância, de alguém que ama, de um momento bom. Isso muda completamente o estado emocional dela naquele instante. A música trabalha áreas muito profundas do cérebro e faz a pessoa sair, nem que seja por alguns minutos, daquele ambiente pesado do hospital”, aponta.

Em diferentes momentos da entrevista, a risoterapeuta também chama atenção para aquilo que considera um esgotamento emocional coletivo da sociedade contemporânea. Para ela, parte do trabalho desenvolvido pelo Rumo ao Riso nasce justamente da percepção de que muitas pessoas desaprenderam a lidar com leveza, vulnerabilidade e afeto no cotidiano. “A gente foi condicionado a acreditar que rir alto não é legal, que para ser levado a sério você precisa estar sempre cansado, sempre trabalhando, sempre de cara fechada. Só que isso desgastou o ser humano. A gente desaprendeu que sorrir também faz parte da saúde mental. E não é porque alguém sorri ou brinca que essa pessoa é menos inteligente, menos competente ou menos séria”, conta Gabi Roncatti.

Literatura, luto e afeto como continuidade do cuidado

Na vida de Gabi Roncatti, as experiências acumuladas dentro dos hospitais acabaram ultrapassando os corredores, as visitas terapêuticas e as intervenções presenciais do Rumo ao Riso. Com o tempo, parte dessas vivências começou a ganhar novas formas de expressão por meio da literatura, especialmente através do livro Di, o Cachorro Pula-Pula, escrito pela própria Gabi. O material aborda a convivência da artista com Di, cachorro que também atuava como suporte emocional em diferentes ações do projeto.

O que inicialmente seria uma obra voltada ao público adulto acabou se transformando em uma narrativa infantil construída justamente para abordar temas difíceis de maneira mais leve, afetiva e acessível para famílias em situação de vulnerabilidade emocional. “Quando eu comecei a escrever o livro do Di, inicialmente seria um livro para adultos. Mas convivendo dentro dos hospitais eu comecei a perceber que ele tinha uma missão muito maior. O Di ajudou muita gente emocionalmente e eu queria criar uma história que tratasse de luto, saudade e vulnerabilidade de uma forma mais leve, mais acolhedora. O livro é narrado pelo próprio cachorro, então ele usa humor, brincadeira e ludicidade para falar de sentimentos difíceis sem transformar aquilo em um peso ainda maior para quem está lendo”, afirma ao explicar como a literatura passou a funcionar também como extensão do trabalho emocional desenvolvido nos hospitais.

“Di, o cachorro pula-pula”
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Ao comentar a construção da obra, Gabi Roncatti também chama atenção para a dificuldade que muitas pessoas ainda possuem de lidar com temas ligados à morte e ao luto. Para ela, parte do sofrimento emocional nasce justamente da incapacidade coletiva de falar sobre finitude de maneira mais natural. “A gente tem muito medo de falar da morte. Tudo que chega perto disso gera desconforto. Mas quando a gente entende que a vida é limitada, a gente também passa a valorizar mais as pessoas, os encontros e os momentos que vive. Quando eu sei que posso perder alguém, eu aproveito mais aquele instante. Então o livro tenta trazer essa conversa de uma forma mais leve, principalmente para quem está vivendo situações difíceis dentro do hospital”, reflete.

A proposta de ampliar acessibilidade emocional também aparece na decisão de transformar Di, o Cachorro Pula-Pula em audiobook disponível gratuitamente nas plataformas digitais. Segundo a risoterapeuta, a ideia surgiu justamente da necessidade de alcançar pessoas impossibilitadas de ler durante internações ou tratamentos mais delicados. “Tem pessoas que não conseguem ler naquele momento, não enxergam, têm alguma limitação neurológica ou simplesmente estão cansadas demais emocionalmente. Então o audiobook surgiu como uma maneira de continuar levando essa sensação de acolhimento e leveza. O objetivo sempre foi fazer com que o projeto chegasse ao maior número possível de pessoas, independentemente da condição em que elas estejam”, diz.

O mundo que desaprendeu a desacelerar também desaprendeu a acolher

Gabi Roncatti - Rumo ao Riso - Risoterapia - ABC Cast Conexões
(Reprodução/Instagram)

Ao longo do episódio, Gabi Roncatti retorna diversas vezes à percepção de que o trabalho desenvolvido pelo Rumo ao Riso não nasce apenas das necessidades emocionais observadas dentro dos hospitais, mas também de um esgotamento coletivo que ultrapassa os ambientes de saúde. Para ela, parte significativa da sociedade passou a viver sob uma lógica permanente de produtividade, pressão e desempenho, criando uma relação cada vez mais distante com leveza, afeto e presença emocional verdadeira. Nesse contexto, a risoterapia acaba funcionando menos como entretenimento e mais como uma tentativa de reconectar pessoas com aspectos básicos da experiência humana que foram sendo deixados de lado ao longo do tempo. “A gente foi condicionado a acreditar que rir alto não é legal, que para ser levado a sério você precisa trabalhar o tempo inteiro, estar sempre cansado, sempre preocupado, sempre de cara fechada. E isso foi desgastando o ser humano. Hoje as pessoas vivem uma pressão muito grande o tempo todo. Então a risoterapia vem justamente para mostrar que sorrir não diminui ninguém, não faz ninguém menos inteligente ou menos competente. A gente pode ser um excelente profissional e ainda assim continuar leve, continuar humano”, afirma ao refletir sobre os impactos emocionais da rotina contemporânea na saúde mental das pessoas.

A conversa com Gabi Roncatti também evidencia que, dentro dos hospitais, esse desgaste emocional costuma aparecer de maneira ainda mais intensa. Entre diagnósticos difíceis, medo constante e longos períodos de espera, pacientes e acompanhantes frequentemente acabam reduzidos apenas à condição clínica que enfrentam naquele momento. Para Gabi Roncatti, parte do trabalho do Rumo ao Riso é justamente devolver humanidade para ambientes onde a dor muitas vezes ocupa todos os espaços. “Quando a gente entra num quarto, a gente não quer enxergar o diagnóstico. A gente quer enxergar a pessoa. Ela não é a doença dela. Ela continua sendo alguém que gosta de música, que sente saudade, que tem medo, que ama, que quer conversar, que quer rir ou simplesmente ser escutada. E às vezes o maior cuidado que alguém pode receber naquele momento é justamente sentir que ainda está sendo tratado como ser humano”, resume a risoterapeuta.

Ao ouvir Gabi Roncatti, torna-se impossível não refletir sobre o lugar do afeto em uma sociedade cada vez mais acelerada, cansada e emocionalmente sobrecarregada. Em uma realidade onde fragilidade costuma ser confundida com fraqueza e onde o sofrimento frequentemente atravessa a rotina de forma silenciosa, o trabalho desenvolvido pela artista surge como um convite à escuta, ao acolhimento e à valorização da leveza como parte legítima do cuidado humano. No fim, a conversa deixa a sensação de que, em muitos casos, a transformação emocional não nasce de grandes discursos ou soluções complexas, mas da capacidade de alguém estar presente de verdade quando quase todo o resto ao redor parece ter se tornado automático.

Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

Gabi Roncatti, Thiago Quirino e Daniela Ferreira
Gabi Roncatti, Thiago Quirino e Daniela Ferreira (Divulgação/ABCdoABC)

A entrevista com Gabi Roncatti, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação da jornalista e fotógrafa Daniela Ferreira. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.

Confira a entrevista completa com Gabi Roncatti:

Além do canal no YouTube, o episódio pode ser acessado pelo SpotifyDeezerAmazon Music e também no Apple Podcasts.

  • Publicado: 30/05/2026 08:22
  • Alterado: 30/05/2026 08:22
  • Autor: Edvaldo Barone
  • Fonte: ABCdoABC