A transição energética começa pela eficiência
Em meio a uma das transformações mais profundas da economia contemporânea, o setor industrial se coloca no centro da mudança
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 16/12/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
No debate sobre transição energética, é comum associar o avanço da descarbonização ao uso de fontes renováveis, como solar ou eólica. É fato que ambas vêm ganhando destaque e hoje já somam 23,7% da geração total de eletricidade, consolidando-se como uma das matrizes mais sustentáveis do planeta, segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2025, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
No entanto, antes de instalar painéis fotovoltaicos ou investir em novas usinas, o setor industrial precisa encarar um desafio anterior e mais estratégico: a eficiência energética. Não se trata apenas de trocar a fonte da energia, mas de repensar a forma como ela é usada e gerenciada, afinal, a energia mais barata é aquela que economizamos.

No Brasil, essa reflexão é especialmente relevante. O parque industrial ainda é marcado por grandes empresas estruturadas convivendo com pequenas e médias indústrias que operam com maquinário antigo – média de 14 anos –, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), com alto consumo e perdas significativas. A complexidade do sistema elétrico nacional faz com que a energia de uma forma geral seja uma das mais caras quando comparada a outros países da OCDE.
Reduzir desperdícios, modernizar equipamentos e aprimorar o controle operacional são medidas que antecedem e potencializam o uso de energias renováveis. É necessário consertar os vazamentos antes de aumentar o tamanho da caixa d’água: de nada adianta gerar mais energia se boa parte dela continua sendo desperdiçada.
Matriz limpa de um lado, indústria intensiva em carbono de outro
O Brasil ocupa posição de destaque no cenário global quando o assunto é geração limpa, com 88,2% da eletricidade gerada em 2024 proveniente de fontes renováveis, percentual muito superior à média mundial.
Esse contraste entre uma matriz elétrica limpa e processos industriais ainda poluentes revela o desafio que o país enfrenta. O ambiente industrial brasileiro permanece intensivo em carbono devido a processos produtivos, especialmente os térmicos, que ainda dependem de combustíveis fósseis como GLP (gás de cozinha), óleo combustível e gás natural. Mesmo em um país de matriz elétrica altamente renovável, esses processos respondem por parcela significativa das emissões industriais.
A substituição desses combustíveis por energia elétrica, por meio da eletrificação dos processos térmicos, é uma das principais estratégias para reduzir emissões e reduzir custos com energia. Mas essa transição só é efetiva quando vem acompanhada da modernização tecnológica e da gestão inteligente do consumo energético, a exemplo do monitoramento em tempo real de índices de desempenho energético, como preconizado nas melhores práticas de gestão de energia.

A inovação também pode contribuir significativamente para a eficiência térmica em ambientes industriais, tais como uso de bomba de calor, atuais sistemas de aquecimento solar, implantação de microgeração, digitalização em controles de geração de vapor e queimadores em fornos e estufas, entre outras. As opções de reaproveitamento térmicos abundantes, e constituem importantes medidas de eficiência energética que devem ser tratadas em todas as ocasiões.
Mais do que uma questão ambiental, a eficiência energética é uma agenda de competitividade econômica para nossas empresas. Investir em aproveitar melhor a energia que move as indústrias significa reduzir custos e aumentar previsibilidade operacional, essencial para enfrentar um cenário global competitivo.
Muitas companhias têm influenciado positivamente sua cadeia de valor, incentivando, ou exigindo, que fornecedores adotem práticas de eficiência energética e reduzam emissões. Esse movimento cria um efeito cascata, fortalecendo a competitividade e a sustentabilidade do setor como um todo.
Programas como o PotencializEE, implementado pela GIZ, em parceria com o Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e SENAI, têm papel relevante em fomentar esse cenário. Voltado para pequenas e médias indústrias, ele atua na identificação de oportunidades de economia e na viabilização de investimentos em tecnologias mais eficientes, com apoio técnico e mecanismos facilitados de financiamento.
O futuro começa pela eficiência
Superada a etapa da eficiência, abrem-se oportunidades para integrar novas energias e fontes renováveis ao ambiente industrial. A partir da eletrificação dos processos, é possível combinar geração distribuída solar, hidrogênio de baixo carbono, contratos no mercado livre de energia ou até parcerias em comunidades energéticas industriais, iniciativas que reduzem custos e fortalecem a autonomia empresarial.
É importante que a nossa indústria esteja prepara para as metas e compulsoriedade do mercado de créditos de carbono que se avizinha. Principalmente empresas que competem no mercado mundial, em destaque as indústrias de aço, cimento, alimentos, mineração, química, vidro, entre outras energo-intensivas.
Essas estratégias estão redesenhando a maneira como a indústria consome e gera energia. Em vez de apenas compradora, a empresa passa a ser também produtora e gestora do próprio uso energético, ampliando sua resiliência e criando modelos de negócio sustentáveis.
O avanço das fontes renováveis é motivo de orgulho nacional. Mas a transição energética só será completa quando a eficiência se consolidar como cultura organizacional e política industrial. É nesse primeiro passo que está o verdadeiro motor de uma nova revolução industrial de baixo carbono.
Luis H. M. Oliveira

Engenheiro Eletricista, MBA em Gestão de Energia – FGV, Mestrando em Planejamento de Sistema Energéticos – PSE Unicamp, Coordenador na Rede de Inovação e Tecnologia do SENAI-SP.