71% dos trabalhadores não veem risco de demissão, aponta Datafolha

Pesquisa Datafolha aponta que 71% dos trabalhadores não temem perder o emprego, impulsionados pela menor taxa de desocupação em anos.

Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O risco de demissão deixou de ser uma preocupação central para a ampla maioria da força de trabalho no Brasil. Um levantamento do Datafolha revela que 71% dos trabalhadores avaliam não correr perigo de perder sua fonte de renda, marcando o maior nível de otimismo desde 2013.

A pesquisa, realizada em maio, reflete o impacto direto da queda na taxa de desocupação nacional, estagnada na casa dos 6%. O índice atual contrasta frontalmente com o pico de quase 15% registrado durante a pandemia de Covid-19.

A percepção de estabilidade varia entre os diferentes estratos sociais. O otimismo atinge 84% entre os servidores públicos e 80% no grupo com 60 anos ou mais. Trabalhadores com renda de até dois salários mínimos, o equivalente a R$ 3.242, apresentam o menor índice de confiança, registrando 65%.

Fatores econômicos reduzem risco de demissão

O recorde histórico da pesquisa ocorreu há mais de uma década, quando 75% dos entrevistados não viam ameaça aos seus postos. Hoje, o reaquecimento do setor produtivo devolve a confiança ao profissional e afeta diretamente as dinâmicas de negociação salarial.

Dados do Dieese indicam que 91% dos acordos trabalhistas no primeiro trimestre de 2026 superaram a inflação. “Geralmente, os trabalhadores têm medo, sim, de perder o emprego”, afirmou Fernando Lima, economista da instituição, ao explicar a alta do rendimento médio.

A ascensão dos aplicativos de serviço também altera a percepção do mercado. A economia gig atua como um colchão de amortecimento contra o risco de demissão nas empresas tradicionais, oferecendo saídas rápidas para os profissionais.

Uma parte dos respondentes já trabalha nesse setor, e eles não têm medo de perder esse emprego, pois a barreira de entrada é muito pequena”, ressaltou Renata Narita, professora da PUC-Rio.

Estabilidade na terceira idade e consumo

O factor etário desempenha um papel decisivo nos números apresentados pelo instituto de pesquisa. A combinação entre salários e benefícios previdenciários constrói uma rede de segurança para a parcela mais velha da população ocupada.

“Quem continua no mercado de trabalho depois dos 60 anos tende a estar em posições relativamente mais estáveis”, explicou Bruna Mirelle Silva Alvarez, professora da USP.

A especialista enfatiza que a perda repentina de receita afeta os jovens de maneira muito mais severa, enquanto os mais velhos costumam contar com garantias estruturais mais robustas.

A confiança generalizada injeta ânimo no consumo de bens duráveis, pois as famílias tendem a reduzir a poupança preventiva. Para manter a economia aquecida a longo prazo e garantir o avanço das pautas trabalhistas, o mercado precisará neutralizar estruturalmente o risco de demissão.

  • Publicado: 28/05/2026 08:02
  • Alterado: 28/05/2026 08:02
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: FolhaPress