59% dos médicos jovens querem aposentar cedo por burnout
Pesquisa revela como o burnout, gênero e finanças afetam a aposentadoria médica no Brasil.
- Publicado: 13/02/2026
- Alterado: 19/10/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Teatro Sérgio Cardoso
A aposentadoria na medicina brasileira tornou-se um debate complexo, dividido entre o desejo de novos projetos de vida e a pressão esmagadora do burnout, das desigualdades de gênero e da insegurança financeira. Um novo estudo do Medscape, que ouviu 1.240 médicos em todo o Brasil, mapeou este cenário de contrastes.
Os dados mostram que, enquanto parte dos profissionais projeta descanso, muitos enfrentam o esgotamento precoce. O burnout é um fator decisivo especialmente para os mais jovens.
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Burnout como fator decisivo para jovens
A pesquisa aponta que o esgotamento profissional é a principal razão para médicos com menos de 45 anos considerarem a aposentadoria antecipada, citado por 59% deles. Neste grupo, o cansaço extremo anda lado a lado com o desejo de ter mais tempo para a família (56%), um índice bem superior ao dos médicos mais velhos (42%).
As disparidades de gênero são evidentes: 57% das mulheres médicas relatam burnout, contra 51% dos homens. Elas também demonstram significativamente menos confiança na segurança financeira futura, um reflexo direto das pressões e desigualdades estruturais da carreira.
“Os resultados da pesquisa revelam que a aposentadoria médica não é apenas uma decisão financeira ou de tempo, mas também uma questão de saúde mental e equilíbrio de vida. O burnout, especialmente entre os médicos mais jovens, aliado a desigualdades de gênero e a insegurança financeira, influencia significativamente quando e como os profissionais planejam encerrar a carreira”, afirma Leoleli Schwartz, editora sênior do Medscape em português.

Diferenças geracionais e financeiras
As expectativas sobre o fim da carreira variam drasticamente com a idade. Profissionais abaixo dos 45 anos projetam parar por volta dos 60 anos. Já os mais experientes mostram disposição para seguir até os 70, 80 ou mais.
Notavelmente, 21% dos homens pretendem trabalhar até os 80 anos ou além, em comparação com apenas 10% das mulheres. Os planos para o “pós-medicina” também são diversos: 25% querem atuar em meio período, 14% planejam migrar para docência ou gestão, e 30% projetam parar definitivamente.
A projeção de renda necessária reforça a desigualdade: homens estimam precisar de R$ 25 mil mensais, enquanto mulheres calculam R$ 19 mil (média geral de R$ 23 mil). As fontes de renda citadas são poupança e investimentos (82%), pensão do governo (64%) e previdência privada (48%). Apesar da diversificação, a dependência estatal ainda é alta e o planejamento é falho: apenas 36% contam com consultores financeiros para essa fase, o que aumenta a vulnerabilidade ao burnout financeiro.
O peso da idade e o medo da transição
Quando questionados sobre os sentimentos ao deixar a profissão, as respostas são ambivalentes: 43% acreditam que se sentirão bem, 18% aliviados (sensação predominante entre os jovens, provavelmente ligada ao burnout) e 13% tristes. Médicos acima dos 60 anos relatam mais receio de perda de identidade profissional.
A maioria (62%) considera que a idade é um fator determinante para o exercício da profissão, e a percepção geral é que a partir dos 75 anos o médico já está “muito idoso” para atuar. Para o tempo livre, os planos principais são viagens (85%) e lazer (78%).
Muitos, no entanto, encaram o processo de forma gradual: “Para quem sempre trabalhou, é difícil parar abruptamente. Prefiro fazer uma transição”, afirmou uma anestesista. Outro médico generalista sintetizou: “Não me preocupo porque estão chegando médicos novos com muito mais capacidade que eu”.