37% dos professores de Campinas se afastam por problemas psicológicos

Especialistas alertam sobre esgotamento e pressão no trabalho

Crédito: Rovena Rosa - Agência Brasil

Nos últimos dez anos, a rede estadual de ensino de Campinas, São Paulo, registrou aproximadamente 12,8 mil afastamentos de professores relacionados a problemas de saúde mental, conforme dados obtidos pela Secretaria de Estado da Educação (Seduc-SP). Isso representa cerca de 37% do total de licenças médicas concedidas para docentes entre 2014 e 2024.

A média anual é alarmante: cerca de 1,2 mil licenças são emitidas a cada ano, com o pico mais elevado registrado em 2018, quando 1,5 mil afastamentos foram documentados. Durante a pandemia da Covid-19, quando as aulas presenciais foram suspensas, esse número caiu significativamente.

Os dados consideram apenas as licenças que foram deferidas após avaliação médica e são categorizados segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Embora o levantamento não forneça detalhes sobre as patologias específicas, é razoável inferir que transtornos como depressão e ansiedade estejam entre os principais diagnósticos.

Além dos problemas mentais, outras condições também resultaram em afastamentos significativos, incluindo doenças osteomusculares e questões relacionadas ao sistema nervoso. Em comparação, anormalidades clínicas não classificadas e doenças do aparelho geniturinário aparecem nas estatísticas de forma relevante.

A psicóloga Ana Paula Bonilha da PUC-Campinas analisa que as profissões vinculadas ao cuidado humano frequentemente envolvem jornadas exaustivas e uma demanda mental intensa. Ela observa que os professores frequentemente se dedicam intensamente à preparação das aulas, o que pode levar a um esgotamento significativo.

Bonilha ressalta que a crescente conscientização sobre saúde mental tem contribuído para um aumento nos afastamentos registrados. De acordo com ela, embora os desafios do trabalho docente sempre tenham existido, há uma maior disposição atualmente para discutir esses problemas abertamente.

Angela Soligo, especialista em educação, complementa afirmando que a desvalorização da profissão é um fator que agrava a situação. Segundo ela, além da falta de reconhecimento financeiro, há uma carência em termos de estrutura e condições adequadas para o exercício da função. Soligo critica o ambiente escolar muitas vezes hostil e as pressões externas que os educadores enfrentam.

O diretor regional do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), Hamed Bittar, também se manifesta sobre essa questão preocupante. Ele menciona que as condições precárias de trabalho têm resultado em um aumento alarmante de casos relacionados à ansiedade e à síndrome de burnout entre os educadores.

Casos reais ilustram essa realidade angustiante. Uma professora que preferiu permanecer anônima relata ter abandonado suas atividades em 2016 devido à pressão constante no trabalho e à deterioração de sua saúde mental. Ela compartilha experiências angustiosas dentro da sala de aula, incluindo crises de ansiedade e insegurança.

André Luiz Carvalho, professor de sociologia com duas décadas de experiência, também enfrentou sérios problemas relacionados à saúde mental, incluindo infartos e AVC isquêmico durante seu período como docente. Ele revela a constante sensação de estar sob vigilância e pressão.

A psicóloga Bonilha alerta sobre sinais que indicam a necessidade urgente de buscar ajuda profissional. Entre esses sinais estão dores constantes de cabeça, taquicardia e distúrbios do sono. A recomendação é procurar terapia psicológica e adotar práticas saudáveis que promovam o bem-estar.

Em síntese, os dados refletem um quadro alarmante na educação pública em Campinas e levantam questões cruciais sobre as condições laborais dos professores. Com a saúde mental sendo uma prioridade crescente na sociedade atual, é fundamental discutir estratégias para melhorar o ambiente escolar e apoiar os educadores na busca por qualidade de vida.

  • Publicado: 15/01/2026
  • Alterado: 15/01/2026
  • Autor: 26/03/2025
  • Fonte: Fever