20 Anos: Pinacoteca de Mauá lança primeiro catálogo oficial
Catálogo inédito marca o aniversário de 20 anos da Pinacoteca de Mauá, documentando o salto de 44 para mais de 500 obras e o restauro da pintura Moinho de Sal Matarazzo
- Publicado: 20/01/2026
- Alterado: 25/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Farol Santander São Paulo
A Pinacoteca de Mauá alcança um marco fundamental em sua trajetória de duas décadas de resistência e difusão das artes visuais: o lançamento de seu primeiro catálogo oficial de obras. A publicação não é apenas um registro, mas o coroamento de um ciclo comemorativo intenso, iniciado em 2024, que incluiu uma grande mostra retrospectiva e, notavelmente, o restauro completo da icônica pintura Moinho de Sal Matarazzo (1963), de Hans Grudzinski, uma peça essencial para a memória cultural da cidade.
Um acervo que conta a história da Pinacoteca de Mauá
Fundada em 2003, a Pinacoteca de Mauá nasceu da mobilização apaixonada de artistas, curadores e da sociedade civil, com o propósito de estabelecer um espaço público dedicado à preservação e à difusão da arte no Grande ABC. Em seus 20 anos de existência, a instituição, que permanece sediada no Teatro Municipal de Mauá, viu seu acervo inicial, que contava com apenas 44 obras, se expandir notavelmente para mais de 500 itens.
O conjunto atual é um verdadeiro espelho da diversidade artística brasileira e da memória social de Mauá. Ele congrega nomes de peso da história da arte nacional, como Lasar Segall, Tomie Ohtake e Manabu Mabe, e estabelece um diálogo vital com a produção contemporânea da região, representada por artistas locais como Aluísio dos Santos, Sandra Cinto, Cristiane Carbone e Talita Rocha.
A curadora e pesquisadora Maria Luiza Meneses, que também se dedicou à organização do catálogo, pontua a singularidade desse acervo: “Na Pinacoteca de Mauá, o acervo se torna um território do encontro – um espaço onde obras de grandes nomes da arte dialogam com artistas, histórias e narrativas locais.” Ela destaca como a diversidade da coleção ecoa a própria formação da cidade, construída por fluxos migratórios. “A poética do lituano Lasar Segall encontra a da artista mauaense Talita Rocha, por exemplo”, explica Meneses, ressaltando o valor da mistura cultural.
Fortalecimento da crítica e da memória local

O catálogo recém-lançado reforça o foco no pensamento crítico local ao incluir textos e imagens das obras, além de contribuições de autores com profundos laços com o território. Entre os nomes estão Cecília Camargo, Jayne Nunes, William Puntschart e o poeta Macário Ohana Vangelis.
Um destaque é a participação de Luciara Ribeiro, que nasceu em Xique-Xique (BA), mas está radicada em Mauá e atualmente é curadora da 4ª Trienal Frestas do Sesc Sorocaba. Além do inventário artístico, a publicação inclui um caderno educativo, assinado pela coordenadora pedagógica Elidayana Alexandrino. Este material será usado em atividades ministradas em novembro, focadas na produção de artistas negros do acervo, direcionadas a professores e alunos da rede municipal, reforçando a missão educativa e inclusiva da Pinacoteca.
A Pinacoteca de Mauá como exemplo de resistência cultural

Em um território de forte vocação operária e com recursos limitados, a Pinacoteca de Mauá enfrenta o constante desafio de sustentar políticas públicas de apoio às artes visuais. Sem sede própria, a instituição se mantém como um espaço simbólico de preservação e democratização da arte local. O projeto do catálogo, realizado com o apoio do ProAC 37/2024 – Salvaguarda de Acervos, tem como objetivo central fortalecer essas políticas e ampliar o acesso ao rico acervo da cidade.
Maria Luiza Meneses enfatiza a relevância dos museus periféricos no cenário cultural: “Enquanto grandes instituições passam a incluir artistas periféricos, negros e mulheres após reivindicações por representatividade, muitas coleções periféricas já vinham realizando esse trabalho de forma autônoma em seus territórios.” Ela define a Pinacoteca de Mauá como um modelo em que a conexão entre o local e o global se dá de modo “soberano, poroso e radical”, defendendo que essas coleções devem ser vistas e reconhecidas como parte viva e essencial da cultura brasileira.

O compromisso com a democratização do acesso é reafirmado com um plano de acessibilidade inovador: a produção de uma reprodução tátil da pintura Moinho de Sal Matarazzo (1963), desenvolvida pelo ateliê Inclua-me, de Marina Baffini, para garantir a fruição da obra por pessoas com deficiência visual. O restauro da obra de Grudzinski, conduzido pelos restauradores Flávia Baiochi dos Santos e Alexandre Ferreira Xavier, faz parte desse esforço contínuo de salvaguarda e acesso.
Este projeto consolida uma parceria de sete anos entre Maria Luiza Meneses e a Pinacoteca, iniciada em 2019 com a criação do site e a ampliação do acervo. Meneses, que também é curadora no Centro Cultural São Paulo e integra a curadoria de exposições no Instituto Moreira Salles, vê o trabalho como seu “ativismo nas artes”: uma forma de “devolver a Mauá o que aprendi em outros museus e manter vivas as raízes que me formaram”. O lançamento do catálogo é, portanto, um gesto de pertencimento que inscreve Mauá, de maneira definitiva, no mapa vivo da cultura brasileira.