Vozes Trans: O coral que transforma vidas com arte

Projeto pioneiro do Sesc Consolação, o coral Vozes Trans celebra quatro semestres de arte, pertencimento e ativismo, com show gratuito no Teatro Anchieta

Crédito: Romeu Marinho

O Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, será palco de uma celebração histórica na próxima terça-feira, 9 de dezembro, às 20h. O evento marca o show de encerramento do curso Vozes Trans, uma iniciativa que se consolidou como um marco na cena cultural e social do estado. O projeto é notável por ter formado o primeiro coral 100% coordenado e composto por pessoas transgênero do estado de São Paulo, abrindo caminho para novas formas de expressão e acolhimento.

Fruto dos cursos “Vozes Trans – Prática Coral I e II” e “Prática de Banda”, este projeto inovador é desenvolvido no Centro de Música da unidade do Sesc e se tornou rapidamente uma referência. A apresentação é o ápice de um trabalho intenso, que reuniu cerca de 50 pessoas trans no palco, acompanhadas por uma banda completa. Sob a coordenação da cantora Eva Dantas e do pianista Luís Chami, a performance não é apenas um espetáculo musical, mas um poderoso ato de visibilidade, clamando por mais respeito, inclusão e direitos para a comunidade trans. O sucesso do projeto Vozes Trans demonstra a potência da arte como ferramenta de transformação.

O impacto e a importância do Vozes Trans para a comunidade

Reprodução

O Vozes Trans transcende a função de um simples curso de música. Ele se estabeleceu como um espaço vital de pertencimento e acolhimento em um ambiente seguro, algo inédito para muitos dos participantes. O projeto já ofereceu aulas de canto, iniciação ao piano, teoria musical e prática coral, voltadas para mulheres trans, travestis, homens trans, transmasculines e pessoas não binárias. Essa estrutura permite que cada indivíduo explore sua própria voz e desenvolva autonomia musical, livre do medo do desrespeito ou da transfobia. A “Prática de Banda” complementa o trabalho, incentivando a criação de repertório entre instrumentistas com conhecimento prévio.

O pianista e compositor Luís Chamis, um dos coordenadores, ressalta a força emotiva do coletivo. “Ao assistir um show do Vozes Trans, dá para sentir que as pessoas cantam com uma intensidade, como se suas vidas dependessem disso. Porque, em muitos casos, é verdade. Não é exagero dizer que o Vozes Trans literalmente salva vidas,” afirma Chamis. Ele enfatiza que, para a maioria dos integrantes, incluindo ele próprio, este é o primeiro espaço de pertencimento e segurança para se expressar artisticamente entre iguais.

Eva Dantas, cantora, compositora e também coordenadora, compartilha um sentimento de validação pessoal e artística. Após 15 anos de trajetória na música, ela define o projeto como o lugar onde se sentiu “totalmente pertencente a um grupo artístico” e onde suas ideias pedagógicas e artísticas têm “caminho livre para circular”. Para Eva, o coletivo é um espaço crucial para ir além dos estereótipos midiáticos. “Reunir tantas pessoas trans em um coletivo artístico, com diferentes identidades, origens, idades, talentos e defeitos, constrói dentro da gente essa noção de que somos pessoas comuns,” reflete a cantora sobre o impacto profundo do Vozes Trans na autoestima e humanidade dos envolvidos.

Repertório: Arte, luta e diversidade musical

O repertório do show de encerramento, que engloba quatro semestres de trabalho, é um mosaico da diversidade musical brasileira e da produção autoral trans. No palco, o público poderá conferir canções do cancioneiro nacional e composições próprias da banda, além de obras de artistas que compõem o universo do projeto.

Entre as canções apresentadas, destacam-se sucessos de artistas como Liniker (“Zero”, “Caju”) e Linn da Quebrada (“Amor Amor”), evidenciando a força da música trans contemporânea. O programa também inclui composições autorais das convidadas especiais, como “Fada Negra” e “Pintoza”, de Uma Luiza da Folha, e “Inteire”, de Ayô Tupinambá. Ambas são travestis compositoras que assinam parte do repertório. A cantora e coordenadora Eva Dantas contribui com sua própria obra, a canção “Tranz”, e o programa ainda faz uma releitura de peças do domínio público, como “Peixe Vivo / Peixinhos do Mar”. O time de convidados é completado por Petra Leal, que assume a percussão e realiza a tradução em Libras do evento.

Coordenadores com trajetória e missão política

Ambos os coordenadores do projeto são artistas com carreiras solidificadas, trazendo uma rica bagagem profissional para o Vozes Trans. Eva Dantas, também conhecida como Eva Treva, tem dois discos autorais lançados, passou pelo prestigiado Coro Jovem do Estado de SP e é pós-graduada em Canção Popular. Luís Chamis, pianista e compositor, já levou sua música para palcos nacionais e internacionais, lançou álbuns e atuou em orquestras, acompanhando grandes nomes como João Bosco, João Donato e Mônica Salmaso.

Essa experiência se une à missão do projeto, que, na visão de Eva Dantas, é inerentemente política. “Usamos nossa voz pra pedir um mundo mais justo, onde todas as pessoas possam usufruir de direitos, de afeto e oportunidades igualmente,” defende Eva. Para ela, o sucesso do Vozes Trans reflete uma evolução social, reiterando a máxima de que “se uma pessoa trans prospera, toda a sociedade evolui”. É a arte como um agente de mudança, utilizando a voz coletiva para reivindicar a plena humanidade e os direitos de todos.

SERVIÇO

Show de Encerramento – Vozes Trans Coral Vozes Trans – Primeiro coral trans de SP

  • Coordenação: Eva Dantas e Luis Chamis
  • Quando: 9 de dezembro (terça-feira), às 20h
  • Onde: Teatro Anchieta – Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245 – Vila Buarque, São Paulo – SP)
  • Quanto: Gratuito (retirada de ingressos 1h antes no local)
  • Classificação: 16 anos
  • Acessibilidade: Tradução em Libras.
  • Publicado: 29/01/2026
  • Alterado: 29/01/2026
  • Autor: 08/12/2025
  • Fonte: FERVER